
Tênis confortáveis, roupas arejadas, protetor solar, boné, óculos de sol, smartwatch e um sorrisão para sair bem na foto. Esse é o kit básico para quem decide correr na orla do Guaíba, em Porto Alegre, onde atualmente vários fotógrafos — entre amadores e profissionais — posicionam-se com suas câmeras para registrar a prática de exercícios físicos.
Depois, as imagens são reunidas em sites especializados e podem ser adquiridas pelos retratados, geralmente para compartilhar nas redes sociais.
Entre corredores, há quem se sinta prestigiado e até motivado, e há quem aponte invasão de privacidade. A atividade dos fotógrafos de corredores também acende debate sobre direitos de imagem e proteção de dados pessoais.
Fotos para redes sociais
A exploração desse nicho de mercado acompanhou o crescimento das corridas de rua, que, após a pandemia, tornaram-se sensação por quem enxergou a necessidade de se tornar mais ativo fisicamente.
Foi naquele período que o fotógrafo especialista em eventos corporativos e festas Guilherme Lopes, 30 anos, descobriu que existia a possibilidade de obter renda extra com cliques dos treinos de atletas e aspirantes.
— Com o boom das corridas, veio a vontade de o pessoal aparecer nas redes sociais fazendo exercícios. Então, comecei a investir nesta área — conta Lopes.
Todo fim de semana, especialmente aos sábados pela manhã, ele chega à orla do Guaíba às 6h e estabelece sua base na ponte entre as avenidas Ipiranga e Edvaldo Pereira Paiva.
— Ali, existe um grande movimento, com muitas assessorias de corrida fazendo seus treinos — explica.

Aumento da autoestima
Comercializando suas imagens exclusivamente na plataforma Foco Radical, Lopes conta que, em uma manhã de sábado movimentada, faz cerca de 15 mil fotos. O profissional diz que 45% de sua renda vem das imagens dos atletas na Orla, mas também atua em outros lugares, como o Parque da Redenção e eventos oficiais de corrida.
— A procura pelas fotos é grande por vários motivos. O primeiro deles é registrar a superação, mas também celebrar a melhora do porte físico e mostrar que está dentro dos padrões de beleza de hoje. Os likes que a pessoa ganha nas redes servem para empoderar, para elevar a autoestima — afirma o fotógrafo, que estima ter testemunhado um aumento de 10 colegas na Orla para mais de 80 em poucos anos.

Compensação pelo esforço
Estudante de Engenharia Mecânica, Bernardo Verçosa, 20, é um dos recém-chegados ao mercado. Começou na fotografia de corredores em novembro último e já considera a Orla como seu carro-chefe na busca por complementar a renda — sai de sua casa, em Canoas, para fazer imagens dos atletas na Capital e as disponibiliza nas plataformas Foco Radical e Fotto.
Nos dias úteis, chega ao local por volta das 18h, mas aos finais de semana a rotina começa cedo, às 6h. Em um sábado, chega a tirar cinco mil fotos, vendendo umas 50 ou 60 dessas. O preço médio de cada foto para os corredores é de R$ 12.
O jovem, que mantém sua base mais próxima ao Pontal Shopping, conta que escolheu o local por conseguir ali um resultado "mais bonito", enquadrando os corredores com o Guaíba ao fundo. Acredita que isso valoriza seu trabalho e faz com que as pessoas fiquem mais interessadas em adquirir as imagens.
— Enquanto corremos, estamos com uma roupa bacana, um tênis legal, a meia combinando, todo equipado. E ainda tem a vista do Guaíba. Então, tu estás fazendo um treino pesado, específico, uma preparação para maratona, por exemplo, e quer recordar, postar, ganhar uns likes. É tipo uma compensação pelo esforço — afirma Verçosa.
Lembrança do treino
Frequentadora da Orla, a servidora pública Censita Minuzzi, 58, começou no universo das corridas há pouco mais de dois anos e hoje conta com assessoria personalizada para melhorar a performance. Para a atleta amadora, a presença dos fotógrafos é bem-vinda porque cria uma lembrança de uma atividade importante para quem pratica.
— Raramente posto algo nas minhas redes sociais, mas ontem mesmo comprei uma foto minha correndo. Geralmente, mando para família e amigos. Gosto de ter o registro. E o trabalho dos fotógrafos avalio como sendo muito bom, porque não são invasivos nem agressivos. Se fossem, eu mesmo iria me manifestar. Inclusive, acho que deveria ter ainda mais espaço para eles — defende Censita.

A questão do consentimento
Os fotógrafos garantem que, caso alguém não queira ser registrado, basta indicar com a cabeça ou com o dedo, em negação. Mesmo assim, para alguns atletas, a atividade gera desconforto.
É o caso da analista de produtos Isabela Santos, 30, que afirma ter se surpreendido com o grande número de profissionais com câmeras quando começou a se exercitar na Orla.
Para ela, o trabalho dos fotógrafos esportivos em eventos oficiais é de grande importância, principalmente por ser acordado por meio de contrato com os corredores no momento em que decidem participar. Porém, durante os treinos em espaços públicos, a ação a desagrada:
— Se alguém me perguntasse, nunca daria consentimento para fazer fotos do meu treino. Sou uma mulher, e a gente já está exposta a uma camada a mais de risco, de violência, só por estar praticando esporte em espaço público. E ter essa brecha, essa possibilidade dessas fotos poderem ser utilizadas para ferir a nossa integridade física, mostrando por onde e como circulamos, é bem ruim. Não quer dizer que essas empresas de fotografia estejam fazendo um trabalho na má-fé, mas essas fotos podem ser usadas para esse fim.
A corredora considera positiva a prática de fotógrafos de pontos do Rio de Janeiro e São Paulo que distribuem aos atletas uma pulseira de cor chamativa para que, caso queiram ser fotografados, optem por utilizá-la.
Não é caso de fiscalização, diz prefeitura

Os fotógrafos de treinos geralmente estão identificados com camisetas ou bonés das plataformas que disponibilizarão as imagens. Para acessar suas fotos nos sites, os corredores precisam passar por um processo de reconhecimento facial por meio de inteligência artificial, o que garantiria, segundo as empresas, que apenas o fotografado poderia adquirir seu próprio retrato.
Em eventos de corrida, como observado por Isabela, há cláusulas de direitos de imagem que são aceitas pelos participantes no ato de inscrição. A partir delas, os atletas autorizam organizadores e patrocinadores a utilizarem fotos e vídeos realizados por fotógrafos credenciados para fins informativos ou comerciais. Já na rua, durante os treinos, não existe esse consentimento explícito.
De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos (Smdete) da prefeitura de Porto Alegre, apesar de toda atividade comercial ou prestação de serviços em áreas públicas depender de autorização prévia do município, o caso da fotografia com comercialização de imagens é diferente. Em nota, a Smdete afirma que, como a prática não é classificada como atividade ambulante, "não há enquadramento atual para fiscalização".
A secretaria destaca no texto que "reconhece a atividade como parte da economia criativa, exercida por profissionais autônomos" e que "o crescimento das corridas de rua e do turismo esportivo na cidade tem impulsionado novos serviços vinculados ao esporte, sempre com observância às normas gerais de uso do espaço público".
Advogado alerta para riscos
Para o advogado e professor especialista em direito digital Juliano Madalena, se o fotógrafo capta a imagem em via pública com o objetivo de vendê-la, existe uma "finalidade comercial direta" e, portando, seria necessária a autorização do titular dos direitos da imagem — ou seja, o corredor — para que o registro fosse realizado.
O advogado afirma que fazer as imagens e enviá-las para alimentar uma base de dados biométricos, sem uma justificativa legal para tal operação, dentro dos termos da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), "pode gerar danos graves aos titulares de direitos de dados pessoais" (os corredores), como a possibilidade de vazamento de dados.
Segundo o especialista, o caminho traçado para a operação é "muito sensível e passa por muitos processos", dando brecha para compartilhamentos indesejados. O fotógrafo, sem autorização do corredor, submete os dados biométricos para tratamento por um terceiro: a plataforma que agrega e vende as fotos.
— Para que essa operação seja considerada lícita, é indispensável uma análise jurídica cuidadosa das razões alegadas para justificar o tratamento. Pode ocorrer tanto a violação dos direitos de imagem quanto de proteção de dados pessoais. Nesse caso, tanto o fotógrafo quanto a plataforma podem responder, a depender do contexto e da contribuição de cada um — avalia Madalena.
O advogado observa que a finalidade faz diferença:
— Uma situação é o uso de imagem de terceiro em espaço público para fins jornalísticos. Nessa situação, em razão do interesse público, não há ilegalidade. Por outro lado, a exploração comercial, ainda que em espaço público, pode apresentar desafios frente a questionamentos da pessoa atingida.
Plataforma diz que atua conforme legislação

A Foco Radical, uma das maiores plataformas de imagens esportivas do Brasil, com 17 mil fotógrafos cadastrados, afirma que atua em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), mantendo políticas de privacidade e tratamento de dados alinhadas à legislação brasileira.
— Como a fotografia esportiva ocorre majoritariamente em locais públicos ou eventos oficiais, onde o registro é uma prática esperada, trabalhamos com o legítimo interesse e o contexto esportivo — diz o CEO da empresa, Christian Mendes. — Nós autorregulamos o setor através da tecnologia e de boas práticas.
Mendes ressalta que, caso algum corredor queira ter sua imagem deletada do banco de dados — que hoje conta com 3 milhões de atletas —, há canais de atendimento e mecanismos para isso. Segundo ele, as imagens ficam disponíveis no site por até um ano.
— É importante destacar que os fotógrafos que utilizam a plataforma da Foco Radical atuam de forma independente, sendo responsáveis pelas imagens que produzem e pelo cumprimento da legislação aplicável, enquanto a plataforma provê a tecnologia de ponta para que esse trabalho chegue ao consumidor final com eficiência — afirma Mendes.
Já o CEO da Fotto, empresa que é uma das referências da área, Marcelo Moscato, destaca que é essencial que as boas práticas sejam respeitadas e, com isso, hão haja desconforto por parte dos corredores — em especial, as mulheres. Caso alguém não queira o seu registro, basta negar:
— O fotógrafo não faz a fotografia escondido, como um paparazzi, que pega a pessoa de surpresa. Normalmente, estão devidamente identificados. Alguns, ainda colocam placas, avisando que vão estar em tal lugar fotografando. E, geralmente, os fotógrafos estão atentos a perceber a postura corporal, o sinal de que a pessoa não quer ser fotografada.
Moscato ainda completa:
— A gente vê em vários lugares um serviço de fotografia coerente com o que o pessoal precisa para registrar os seus treinos, motivar, ter o que postar nas redes sociais. A demanda existe, o que não pode é a falta de boas práticas, a falta de respeito.



