
Ao atravessar a porta da oficina de Volnei Boese, 85 anos, em Porto Alegre, a sensação é a de viajar no tempo.
Ferramentas penduradas, parafusos organizados em potes, instrumentos analógicos e rádios de madeira, que possivelmente acompanharam os primórdios da Rádio Gaúcha, dividem espaço com equipamentos abertos sobre a bancada, expondo fios, válvulas e circuitos.
No pátio da casa, uma geladeira Gelomatic recebida em 1966 continua em funcionamento. O eletrodoméstico foi presente de casamento para ele e a esposa, Marli, e jamais precisou ser substituído. Mais do que um aparelho antigo, tornou-se também um símbolo da passagem das décadas.
Desde dezembro, Volnei voltou a ocupar uma banca no Brique da Redenção, onde, aos domingos, expõe peças restauradas e objetos que atravessaram gerações.
Para dar conta do transporte, ele decidiu adaptar o próprio carro, um charmoso e nostálgico Ford Ka cinza, retirando os bancos traseiros e projetando uma estrutura interna para acomodar os equipamentos.
— É uma plataforma para conseguir organizar melhor tudo lá dentro. A ideia é transformar o carro quase num furgão, porque não dá para transportar esses aparelhos de qualquer jeito. Muitos são pesados, frágeis ou difíceis de substituir. Às vezes uma peça não existe mais nem para importar, então qualquer descuido pode significar uma perda — explica.
Início aos 15 anos
Foi ainda na juventude que Volnei percebeu o fascínio pelos circuitos ao montar aos nove anos o primeiro rádio de galena, um dos modelos mais simples de receptor, associado às origens do rádio amador.
— Comecei com 15 anos, fazendo curso de radiotécnico, mas ninguém na família trabalhava com isso. Meu pai era corretor de imóveis e empreiteiro, da construção civil. Naquela época ele comprava rádios em kit: vinha a caixa com todas as peças, os componentes miúdos, manual, instruções (...) e eu montava. Depois ele vendia para os amigos e para os funcionários — recorda.
O que começou como curiosidade logo se transformou em profissão. Durante mais de três décadas, trabalhou com segurança eletrônica, instalando circuitos fechados de TV, porteiros eletrônicos e automatizadores de portão. A rotina exigia deslocamentos constantes e atendimento direto ao público. O ritmo, com o tempo, passou a pesar.
— Trabalhei mais de 30 anos com isso na rua, atendendo cliente, resolvendo problema. Era todo dia uma correria diferente. Aí parei "sem querer querendo", como dizia o Chaves. Fui ficando cansado daquele vai e vem e comecei a me voltar mais para os equipamentos antigos, que sempre me chamaram atenção. Eles têm outra lógica, outro tempo. Quando vi, já estava só com isso — conta.
Hoje, Volnei estabeleceu um limite técnico e também afetivo: ele aceita restaurar apenas equipamentos anteriores a 1960.
— Chegava muita coisa mais nova, 3 em 1 (sistemas de som integrados que combinavam rádio AM/FM, toca-discos de vinil e toca-fitas), CDs, aparelhos com transistores (...) não é a minha área. Minha coisa é antiga mesmo. Botei esse limite porque quero trabalhar com aquilo que conheço profundamente e que faz sentido dentro da minha trajetória. Quando pego um equipamento desses, sei por onde começar, sei o que procurar. Não é só consertar, é respeitar a história do aparelho — afirma.
Uma oficina feita para "compreender as máquinas"
Na oficina, Volnei guarda mais de cinco mil válvulas, componentes que ainda permitem recuperar equipamentos considerados irrecuperáveis. O número, por si só, ajuda a dimensionar uma carreira construída ao redor da eletrônica analógica.
Entre as prateleiras estão rádios fabricados antes de 1960, incluindo um modelo alemão que ele considera raro, telefones de parede, instrumentos de medição, peças ópticas e até discos de vinil. Um deles chama atenção pela singularidade: um jingle do Partido Democrático Trabalhista (PDT) com o nome de Getúlio Vargas impresso na própria ranhura.
Nem tudo, no entanto, permanece para sempre nas prateleiras. Uma das peças mais simbólicas que já passaram por suas mãos foi uma balança construída por um tio e dada de presente de casamento à mãe. O objeto era único e, justamente por isso, difícil de substituir.
— Era uma balança que um tio meu fez para a minha mãe quando ela se casou. Uma peça que não existia outra igual. Essas coisas a gente guarda não pelo valor comercial, mas pela história. Só que chega uma hora em que precisa decidir o destino — conta.
A balança acabou sendo vendida para um colecionador que planejava montar um espaço de exposição em Dois Irmãos.
— Pelo menos vai ficar num lugar onde as pessoas possam ver. Pior é quando a peça some, se perde ou acaba descartada sem ninguém saber o que era — diz.
Outro objeto que o marcou foi uma carabina antiga, que ele próprio restaurou e mandou cromar. O acabamento metálico e o cabo de madeira chamavam a atenção de quem passava pela banca.
— Era toda especial, mandei cromar, deixei ela bem diferente. Virou quase a cereja do bolo, todo mundo parava para olhar — lembra.
Apesar do apego, a peça também encontrou um novo dono.
— Eu estava quase indo embora quando apareceu um interessado. Tinha gente dizendo que valia uns R$ 3.000, mas acabei vendendo por menos. Às vezes é assim: mais importante do que guardar é ver que alguém vai valorizar — afirma.
Do silêncio da oficina ao movimento do Brique
A relação com o Brique da Redenção não é recente. Volnei participou da feira ainda no início dos anos 2000, passou por outros eventos e agora retomou a experiência no final do ano passado.
— Sempre tem gente chegando ali, gente curiosa, gente que para só para olhar. Muitos vêm contar a história de um rádio que era do avô, de uma vitrola da família. Não é só comércio, tem muita memória envolvida — observa.
Entre os visitantes estão colecionadores e pessoas que buscam restaurar objetos afetivos. O trabalho, porém, exige algo que ele considera impossível ensinar rapidamente.
— Já até me perguntaram se eu dou curso. Eu até digo que dou, mas vai levar uns 60 anos para terminar. Não é brincadeira: isso se aprende na prática, errando, acertando, estudando. Não tem atalho — ele diz.
Perguntado se ele pretende "descansar", aos 85 anos, Volnei é direto:
— Não penso em parar. Enquanto tiver condição de mexer, de raciocinar e de trabalhar, vou continuar. Isso aqui não é só serviço, é uma coisa que faz parte da minha vida.
Afinal, os aparelhos de antigamente duravam mais?
Diferentemente de assistências técnicas convencionais, onde muitas vezes a solução é trocar uma placa inteira, o trabalho de Volnei começa pela investigação. Abrir, examinar, testar, acompanhar o caminho do circuito até encontrar a falha.
É um método que remonta ao período em que os aparelhos eram concebidos para ser desmontados e reparados, e não descartados. Ainda assim, ele evita qualquer romantização do passado.
— Essa história de que antigamente tudo durava mais precisa ser vista com cuidado. Durava quando tinha manutenção, quando alguém se preocupava em conservar. Já encontrei aparelho com mais de 50 anos funcionando perfeitamente e outros que não resistiram porque ficaram largados num canto — afirma.
Ao longo das décadas, porém, ele aprendeu que a durabilidade nem sempre está ligada apenas ao projeto original, mas também à forma como cada equipamento foi tratado.
— Já peguei rádio com componente amarrado com arame, coisa improvisada mesmo. Também vi muito serviço malfeito, daqueles em que a pessoa não tira a peça antiga e coloca outra por baixo só para ganhar tempo. O conserto bem feito exige paciência, exige capricho — explica.
Para o engenheiro elétrico Wellington Dutra, essa percepção de maior durabilidade não é apenas nostalgia.
— Os eletrodomésticos antigos realmente duravam mais, essa impressão tem fundamento. Naquela época, era mais difícil obter matéria-prima, os processos de fabricação eram mais demorados e as pessoas tinham menos acesso a esses bens. Justamente por isso, as indústrias produziam equipamentos pensados para permanecer em funcionamento — explica.
Com o avanço tecnológico, os aparelhos ficaram menores, mais leves e passaram a incorporar novas funções.
— Com o tempo, os equipamentos acabam ficando naturalmente obsoletos. Em muitos casos, é mais comum ocorrer um problema na placa que controla o compressor de uma geladeira do que no compressor em si — exemplifica.
Ainda assim, a durabilidade continua ligada a fatores práticos.
— O principal cuidado é utilizar o equipamento dentro das especificações do fabricante e seguir à risca o manual de manutenção. Também é fundamental ter uma instalação elétrica adequada, com proteção contra surtos e sistema de aterramento — finaliza Wellington.

