
A poucas semanas para os desfiles do Carnaval de Porto Alegre, a pista do Complexo Cultural do Porto Seco se torna disputada para ensaios, sobretudo à noite.
Sem estrutura permanente e com pouca iluminação, lanternas e faróis de carros viram ferramentas valiosas para casais de mestre-sala e porta-bandeira, comissões de frente, baterias e demais destaques.
Na capital gaúcha, o palco do samba é diferente do Rio de Janeiro. Lá, os ensaios técnicos das últimas semanas na Marquês de Sapucaí se transformam em espetáculos à parte, com grande público e turistas. Por aqui, arquibancadas, camarotes e demais setores só são montados às vésperas dos desfiles.
Na passarela, ainda não existe o cenário que o público verá nos dias 27 e 28 de fevereiro. Enquanto isso, há apenas o asfalto – pintado de branco ainda para o Carnaval do ano passado – e, nas laterais, grama alta.
As luzes ficam apenas nos postes próximos às entradas dos barracões. Nada disso, porém, impede quem está comprometido em apresentar um grande espetáculo.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Acadêmicos de Gravataí, Marcelinho e Nathielle Lemos, tem história no Carnaval de Porto Alegre. Ele é mestre-sala desde 1987, quando, ainda adolescente, já demonstrava domínio e elegância nos movimentos. Ela encanta na avenida desde os 14 anos, com talento, energia nos giros e carisma único.
O bailado é iluminado pelo farol de um carro que acompanha o trajeto. Além do veículo, a dupla usa cones no chão para demarcar os pontos onde ficarão as cabines dos jurados. Isso significa que eles calculam não apenas o tempo de desfile, mas também as paradas para exibir a coreografia completa aos jurados.
Para Nathielle, após nove meses de ensaios com a nova dupla, essa é a primeira experiência com a dimensão real do desafio.
— A gente ensaia dentro das nossas condições. Não temos estruturas como a do Rio de Janeiro, São Paulo e outros lugares, mas fazemos de tudo para apresentar um trabalho de qualidade ao público. E como somos avaliados pelos jurados que vêm de lá, precisamos manter um nível alto — explica a porta-bandeira.
A sintonia entre os dois foi conquistada rapidamente:
— Nunca imaginávamos que dançaríamos juntos, pois temos estilos diferentes. Está sendo uma mescla de experiências incrível. Muitas pessoas falam que parece que dançamos há bastante tempo, e isso é por conta dessa cumplicidade. Somos profissionais dessa arte. Por isso, temos que ensaiar muito e manter essa posição para sermos respeitados dentro do nosso quesito, além de sempre levar a sério o pavilhão que defendemos — completa Nathielle.
O mestre-sala Marcelinho detalha que os cones em frente aos pontos onde ficarão os jurados são dispostos em quadrados, para que o casal fique centralizado aos olhos dos avaliadores durante a performance.
— Essa sequência de ensaios desde cedo é para que nos adaptássemos um ao outro. É uma cumplicidade necessária e que se reflete quando estamos em atuação. Foram muitas noites de trabalho para chegarmos até aqui e apresentarmos uma performance bonita, fazendo um bom desfile e representando bem a comunidade de Gravataí — conta o mestre-sala, que se aproxima das quatro décadas de avenida.
A comissão de frente da Imperadores do Samba também adotou a prática de ensaiar às escuras no palco oficial do Carnaval. Os 16 componentes repetem a coreografia inédita mesmo com baixa visibilidade. O coreógrafo Elinho Machado recomenda que todos os segmentos experimentem a pista oficial antes do grande dia.
— É uma dica para todos. Sempre é melhor ir para o Porto Seco ensaiar o quanto antes, para já se acostumar e se familiarizar com a pista. É o espaço que é nosso. Para nós, a coreografia já está pronta há bastante tempo, então estamos vindo há mais de um mês. Como a comissão de frente exige uma apresentação teatral que é muito detalhada, precisamos dominar o espaço. Tudo é cronometrado e não podemos atrasar a evolução da escola — explica.
Não existe uma tabela fixa e diária de quem pode ensaiar na pista em cada faixa de horário. Como muitos desfilantes trabalham durante o dia, a saída é ir à noite e de madrugada, o que faz com que a passarela registre quase que um "congestionamento".
Ensaios durante o dia

Bambas da Orgia é uma das escolas que convocam os componentes para uma verdadeira simulação do desfile oficial. Até aqui, foram dois ensaios técnicos no Porto Seco, sendo o mais recente na tarde do último domingo (8). Embora os carros alegóricos não sejam levados para a passarela, as medidas da pista, a ordem das alas e a passagem da bateria pelo recuo são devidamente repetidos.
A presidente Fátima Sampaio enumera as vantagens desse tipo avançado de preparação:
— É quando os bambistas exercitam o pertencimento a esse desfile. É o momento de todos saberem o que vai acontecer, qual o papel de cada um, o canto, a dança, o fôlego. Essa construção nos dá resultado. É o momento em que vamos avaliando e organizando o desfile, observando o organograma, o tempo, testando planos A, B e tudo o que pode acontecer. É isso que nos traz resultados — afirma.
Para isso acontecer, os custos da logística (deslocamento, carro de som, água etc) são da escola. Fátima acrescenta que foram feitos diversos outros ensaios semelhantes na Rua Voluntários da Pátria, em frente à quadra de ensaios.
Futuro
Em dezembro de 2025, a Prefeitura de Porto Alegre anunciou que foi dada a largada para a realização dos estudos que pretendem passar o Complexo Cultural do Porto Seco para a iniciativa privada. A empresa pública São Paulo Parcerias foi contratada para desenvolver o futuro projeto de parceria. Isso renova as esperanças dos carnavalescos para terem, no futuro, o espaço que é sonhado há mais de duas décadas.


