
Na madrugada desta segunda-feira (16), a Portela levou o Rio Grande do Sul para a Marquês de Sapucaí. Com um enredo que passou por personagens como o Príncipe Custódio, o Negrinho do Pastoreio e o orixá Bará, a escola de samba saudou a raiz negra do Estado.
A agremiação entrou na avenida com 24 alas, cinco carros alegóricos e três tripés. O desfile contou com referências importantes para a cultura negra gaúcha, como elementos do batuque, a religião de matriz africana nativa do Rio Grande do Sul; representações de lugares emblemáticos para a negritude gaúcha, a exemplo do Mercado Público de Porto Alegre; e homenagens às festas típicas, como o maçambique de Osório e o próprio Carnaval.
Para representantes do batuque, da cultura e dos movimentos negros gaúchos, ver a negritude do Rio Grande do Sul retratada na avenida foi como assistir à história do Estado ser reescrita sob um prisma mais diverso e inclusivo.
Visibilidade para os negros do Sul
A secretária de Cultura de Porto Alegre, Liliana Cardoso, destaca que a homenagem da Portela não foi apenas estética, mas histórica, por focar em personagens centrais da história negra gaúcha – como o Príncipe Custódio, africano que se tornou uma importante liderança religiosa na Capital –, além de resgatar o patrimônio negro de Porto Alegre, como assentamento de Bará no Mercado Público.

Para Liliana, que assistiu ao desfile diretamente da Sapucaí, a agremiação fez história ao jogar luz sobre as diversas contribuições da população negra no Rio Grande do Sul, combatendo a visão estereotipada de um Estado exclusivamente branco e descendente de europeus.
— Como uma mulher negra e gaúcha, encaro esse desfile como um marco histórico. A Portela assentou a cultura negra como a base da construção do nosso Estado. Existe um mito de que não há negros no Sul devido à forte influência da imigração europeia, mas a cultura negra é, na verdade, o fundamento histórico do nosso patrimônio e da nossa memória — afirma.
A escola de Madureira percorreu a avenida com 2.700 componentes, incluindo muitos gaúchos, entre sacerdotes do batuque, personalidades da cultura e representantes de diferentes movimentos negros.
Gaúchos presentes na avenida
A escritora e podcaster gaúcha Luana Carvalho desfilou representando as ialorixás do batuque gaúcho, retratadas pela Portela como realezas. Ela enfatiza que, ao possibilitar que o povo negro gaúcho ocupasse a avenida, o desfile garantiu que os protagonistas pudessem contar a própria história.
— Estar em uma escola de samba é a maior exaltação que um brasileiro pode receber. Várias lideranças importantes estiveram no desfile, e é crucial que essas pessoas tenham seus rostos e nomes reconhecidos, celebrando suas trajetórias em um espaço de destaque como o Carnaval. O candomblé tem líderes reconhecidos até mesmo mundialmente, e o batuque também merece esse reconhecimento — destaca Luana, que cultua a religiosidade do batuque.

— Me senti em casa, como se estivesse vendo, na avenida, o terreiro onde cresci em Porto Alegre. A escola conseguiu despertar esse sentimento familiar ao traduzir a nossa cultura. Era algo que nós temíamos que se perdesse, porque é um universo muito novo para eles. Porém, dentro da linha editorial que é característica da Portela, a escola cumpriu o objetivo de nos representar — acrescenta.
Babá Diba de Iyemonjá, pai de santo do Ile Àse Iyemonja Omi Olodo e presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul (CPTERS), desfilou em um carro alegórico ao lado de outras lideranças do batuque e acredita que a Portela alcançou o objetivo de representar as particularidades de uma religião de matriz africana genuinamente gaúcha.
O sacerdote elogia o trabalho do carnavalesco André Rodrigues e da equipe que assina o enredo, que inclui a historiadora e professora da UFRGS Fernanda Oliveira.
— Eles foram capazes de retratar fielmente a história do Príncipe Custódio e levar para a avenida as nossas lutas enquanto povo de terreiro do Rio Grande do Sul. Senti-me contemplado. A Portela cumpriu o seu compromisso com a memória e a seriedade que o Carnaval exige — opina.
Desmistificar preconceitos
Babá Diba observa que a escola de samba posicionou o batuque gaúcho como uma religião de matriz africana legítima, tal qual o candomblé. Para ele, esse é um dos pontos mais positivos do desfile, pois ajuda a desmistificar preconceitos e desinformações que cercam as tradições religiosas do Sul.
— O Rio Grande do Sul é um ponto de resistência que reuniu e amalgamou diversas nações africanas. Frequentemente, informações distorcidas circulam sobre o batuque, e este momento com a Portela nos dá a oportunidade de narrar a nossa história com verdade e qualidade estética. É uma chance gigantesca de falarmos sobre a nossa religiosidade, destacando o peso da nossa resistência — reflete.

O babalorixá destaca, ainda, a capacidade da Portela de abordar a hipocrisia social em relação às religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul. Ele lembra que a escola expôs, por meio da ala Burguesia Macumbeira, a contradição das elites gaúchas que buscam auxílio espiritual no batuque, mas mantêm a exclusão social e negam essa mesma cultura no espaço público.
— Embora o Rio Grande do Sul seja o Estado que acolhe o maior número de terreiros do Brasil, a realidade da religião ainda é de preconceito e apagamento. De noite, todo mundo bate tambor; de dia, todo mundo nega que bateu. A burguesia nos procura para usufruir da nossa força espiritual e da nossa cultura, mas, quando é preciso combater o racismo, todos desaparecem. A Portela foi muito corajosa em representar isso — avalia.
Contratempos no desfile
Apesar do brilhantismo na execução da temática, a Portela enfrentou problemas técnicos que podem comprometer as notas da escola na avaliação dos jurados. O último carro alegórico, que trazia a Velha Guarda, empacou no caminho até o início da avenida, o que prejudicou a continuidade do desfile.
Enquanto a alegoria era empurrada para a Marquês de Sapucaí, a escola chegou a apresentar um "buraco" no setor um. As demais alas paralisaram a evolução até o carro conseguir entrar na avenida, para que o espaço vazio não aumentasse.
Com isso, a escola acabou perdendo minutos preciosos. Depois, com a última alegoria já na avenida, precisou acelerar para conseguir encerrar o desfile dentro do tempo estipulado.

O problema gerou tensão entre quem acompanhava o desfile e, acredita-se, deve trazer algum prejuízo na busca da escola pelo campeonato. Contudo, para a escritora Luana Carvalho, o incidente não altera a relevância do que a Portela apresentou na avenida:
— Foi um momento triste, pois queríamos um desfile impecável, embora sabíamos que imprevistos acontecem até com escolas campeãs. No entanto, isso não diminui a magnitude do que foi feito, pois a mensagem foi transmitida e o espetáculo foi deslumbrante. O enredo foi um presente para nós, negros gaúchos, e o tamanho desse trabalho não se mede por contratempos que são normais no Carnaval.



