
Os orelhões entraram em processo de desativação no Brasil neste mês. Isso porque, em 2026, empresas de telefonia fixa estão deixando a obrigação de manter os aparelhos. No entanto, cerca de nove mil devem resistir até 2028 em localidades em que a cobertura de celular ainda é fraca ou não há outro acesso a serviço de comunicação por voz.
Em Porto Alegre, nem todos os aparelhos foram retirados. Na Avenida Osvaldo Aranha, próximo à Rua Sarmento Leite, Zero Hora localizou três estruturas: uma sem telefone e outras duas com telefone, que não funcionam. Neste caso, quem vê os orelhões pelas ruas pode até se confundir, mas a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) esclarece: esses orelhões na Capital são aqueles que a prestadora — a Oi — já não precisa mais manter em funcionamento.
Os telefones públicos, que, em meados dos anos 1970 eram considerados modernos, agora, ficam apenas em localidades onde a cobertura de celular é considerada insuficiente.
Segundo a Anatel, desde que houve uma adaptação da concessão, a Oi passou a ser obrigada a declarar à agência apenas as estruturas obrigatórias que mantém. No caso de Porto Alegre, desde janeiro de 2025, nenhum terminal foi declarado pela operadora.
Segundo a prefeitura, a responsabilidade pela instalação, manutenção, retirada e identificação dos orelhões é da operadora de telefonia. Em conversa com Zero Hora, a Oi informou que a remoção de estruturas sem utilização "segue cronograma conforme a capacidade logística e financeira da empresa".
E no Estado?
Em Gravataí, na Região Metropolitana, a reportagem encontrou uma situação parecida: um orelhão, situado na rua das Oliveiras, no bairro Bom Princípio, está no local há pelo menos 10 anos, mas também não funciona.
— Já mexeram (equipes da operadora), mas para quê, se não funciona igual? — questionou uma comerciante da região.
Um morador que vive há mais de 40 anos naquela via reiterou que o orelhão até funcionava no passado, mas há mais de 10 anos não operava mais.
Em todo o Rio Grande do Sul, de acordo com a Anatel, ainda há 155 telefones de uso público obrigatórios, sendo 59 ativos. Há, ainda, 74 em manutenção e 22 sem informação sobre a situação atual. O dado é de dezembro de 2025. Esses aparelhos são de responsabilidade das prestadoras Oi e Claro (veja a lista abaixo).
Segundo a Anatel, em contrapartida ao fim da era dos orelhões, as empresas se comprometeram a realizar investimentos em infraestrutura de telecomunicações no país. Implantação de fibra óptica, instalação de antenas de telefonia celular em áreas sem cobertura adequada, expansão da rede móvel, conectividade em escolas públicas e a construção de data centers estão entre as novas funcionalidades estudadas.
Fichas pelo caminho

Com linhas telefônicas caras e limitadas, os orelhões se tornaram uma alternativa de comunicação a partir dos anos 1970.
O design dessas cúpulas, que tinham um telefone público dentro, foi desenvolvido pela arquiteta chinesa Chu Ming Silveira, que chegou ao Brasil com os pais ainda na infância e, na vida adulta, trabalhou na Companhia Telefônica Brasileira (CTB). Segundo ela, a inspiração foi o formato de ovo, que gerava uma acústica melhor.
No Rio de Janeiro e em São Paulo, os orelhões chegaram às ruas em 1972. Em Porto Alegre, um ano depois, o primeiro orelhão foi instalado na Praça da Alfândega, no Centro Histórico, pela Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT).
Naquela época, para falar nos telefones públicos, era preciso inserir fichas. Algumas dessas já foram localizadas pelo personal trainer Roger Teixeira, 35 anos, que tem como hobby o detectorismo — prática que utiliza detectores de metais para encontrar objetos. Ele conta que já encontrou fichas no Rio Jacuí e no Guaíba, principalmente.
— Não sei como é que as pessoas perdiam, se entravam lá com a calça cheia de moeda e com ficha telefônica do orelhão, mas perdiam dentro da água — lembra.

Roger explica que o detector tem uma numeração que vai de zero a cem. As fichas telefônicas, por conta da condutividade do metal, produzem um som mais forte do aparelho.
Ele conta que deu as fichas que encontrou para amigos que possuem alguma memória afetiva com os orelhões. De São Jerônimo, na Região Carbonífera, Roger e a esposa mantêm o canal no YouTube Resgatando o Passado.
Um "pequeno" colecionador
Nos anos 1990, as fichas foram perdendo espaço para os cartões telefônicos. O primeiro telefone brasileiro com cartão foi instalado durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, a Eco-92, no Rio de Janeiro. O cartão inaugural era estampado com a imagem de uma vitória-régia.
Em 1995, Zero Hora noticiava sobre uma mania que estava crescendo: colecionar cartões telefônicos. As estampas eram variadas e formavam séries. Sítio do Pica-Pau Amarelo, Copa do Mundo de 2002 e 101 Dálmatas são algumas que ainda fazem parte do acervo do técnico de enfermagem Bruno Benke.
Hoje com 35 anos, ele lembra que começou a colecionar cartões telefônicos por volta dos cinco, seis anos.
— Meu falecido tio trabalhava na CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações) na época e trazia alguns cartões para casa. Fui juntando, sem intenção nenhuma de começar a coleção, e fui pegando gosto, vendo que eram colecionáveis. Comecei a pedir para os familiares e eles começaram a guardar também. Saía na rua para procurar. Muitas vezes, as pessoas deixavam (os cartões) nos aparelhos depois de utilizarem. Eu ia lá e pegava. Às vezes também comprava — explica.
O hobby seguiu até os 15 anos, resultando em cerca de 900 cartões guardados. Bruno conta que já pensou em vendê-los, mas percebeu que eram desvalorizados e notou que tinha um certo apego emocional pelos itens. No fim das contas, optou por guardar para a filha, que hoje tem oito anos.
— Expliquei que, na época, não tinha telefone celular, que era assim que fazíamos as ligações. Ela achou o máximo (risos).
Término por orelhão

No relacionamento da administradora de empresas Laiane Brum, 38 anos, e do empresário Felipe Brum, 42, que moram em Canoas, o orelhão virou personagem.
— Pode contar a parte legal que eu conto o final, que é triste — já adiantou Felipe durante a entrevista para Zero Hora.
Em 2001, os dois se conheceram pela internet, em um bate-papo. À época, ela tinha 14 anos e ele, 17. Eles se encontraram presencialmente e começaram um "namorico".
Nas férias de fim de ano, Laiane viajou com os pais, por cerca de um mês, para o Rio de Janeiro. Para manter contato com Felipe, a alternativa era ligar para o telefone residencial dele por meio de um orelhão.
— Eu estava lá na região do Lagos, no Rio de Janeiro, e eu ligava para ele todos os dias pelo orelhão. Eu lá na praia e ele aqui. E o Felipe ficava esperando a ligação — lembra Laiane.
— Ligação a cobrar. Eu escutava a musiquinha toda e sabia que ia ser ela — completa Felipe.
As chamadas costumavam ocorrer por volta das 19h, após o trabalho dele.
Os dois ficavam "horas no telefone", como contam, a ponto de a família de Felipe pedir que ele pagasse as contas das ligações. Até que, em certo dia, as chamadas de Laiane não chegaram mais.
— Quando ficou uns três ou quatro dias sem vir uma ligação, eu achei estranho, estava preocupado. Quando tocou de novo a ligação a cobrar, aí foi um "pé na bunda" que eu tomei pelo orelhão — lembra Felipe hoje, aos risos, mas à época "arrasado" com o término inesperado.
Como o destino parecia já estar traçado, eles se reencontraram anos depois e engataram um relacionamento. Em 2012, se casaram e hoje têm dois filhos. Já são 21 anos juntos.
O uso de moedas

Para além das fichas e dos cartões, em 1996, Zero Hora contava que havia começado a funcionar o primeiro telefone público do Estado que aceitava moedas para completar a ligação. O aparelho ficava na Avenida Borges de Medeiros, em Porto Alegre.
Ainda que com uma previsão de que novos orelhões do tipo fossem ser instalados em outros pontos, a reportagem dizia que o novo aparelho já havia ganhado até um apelido: Estrela Solitária — um nome que hoje cairia bem para os poucos orelhões que ainda restam nas cidades.





