
Nos últimos anos, a internet já decretou que quase tudo pode virar "novo Tinder". O Instagram, o X (antigo Twitter) e até o LinkedIn, em diferentes momentos, redes que nasceram com outros objetivos, passaram a ser apontadas como atalhos para flertes e conexões.
Agora, a bola da vez é o Strava, aplicativo criado para monitorar treinos de corrida e ciclismo, mas que vem sendo usado também como espaço de interação, aproximação e, em alguns casos, de início de relacionamentos.
A ideia de um "Strava Tinder" circula em conversas de corredores, vídeos nas redes e até entre influenciadores do esporte. A dinâmica é simples: ao compartilhar treinos, rotas e ritmos, usuários acabam encontrando pessoas que passam pelos mesmos lugares, nos mesmos horários, e com hábitos parecidos. Como em qualquer ambiente social, a troca pode ir além do esporte.
— Tu já começas juntando pessoas que estão no mesmo propósito, que é o exercício. Isso já filtra bastante. Quando tu vês que alguém corre nos mesmos lugares e na mesma vibe, já nasce uma intimidade inicial — explica a influenciadora e atleta Babi Beluco, 38 anos, integrante do time oficial do Strava no Brasil.
Trajetos que se cruzam
A história da engenheira agrônoma Ana Clara Luz, 26 anos, e do bartender Gabriel Caputo, 32, ilustra como esse encontro pode acontecer mesmo entre pessoas que usam o Strava para a prática de modalidades diferentes: corredora, e ele, atleta de mountain bike (MTB). Ainda assim, foi o aplicativo que colocou os dois no mesmo radar.
Segundo Ana Clara, Gabriel começou a segui-la no app. Ela seguiu de volta e, pouco tempo depois, as interações se intensificaram.
— Comecei a ver várias curtidas nas minhas publicações e pensei: "opa, tem alguém me acompanhando". Depois, ele me seguiu no Instagram e me mandou mensagem dizendo que tinha gostado da curtida que eu também havia deixado no app — ela conta.

O detalhe que chama atenção dos dois que, apesar de estarem na mesma região, eles não se conheciam.
— Ele é atleta de MTB e eu sou corredora. Não tinha como a gente se conhecer. E o mais engraçado é que ele mora duas ruas de onde eu corro e eu nunca tinha visto ele — brinca Ana.
Desde o primeiro encontro, o relacionamento evoluiu e ganhou também um componente esportivo. Hoje, eles dividem o fim de semana entre os treinos e montam uma agenda conjunta para provas.
— No sábado, cada um tem seu treino pra fazer. No domingo, ele me acompanha no meu e, à tarde, vai fazer o dele. Durante a semana, quando a rotina permite, a gente consegue treinar junto também — diz.
Do "kudos" à conversa fora do app
A lógica do aplicativo ajuda a entender por que ele passou a ser lido como uma rede social. Ao registrar a atividade, o Strava exibe o mapa com os trajetos percorridos, permitindo visualizar quem passou pelo mesmo lugar, no mesmo horário, com informações como foto, ritmo e velocidade.
Segundo o Relatório de Tendências Esportivas 2025 do Strava, 56% dos brasileiros veem os clubes de corrida como um bom espaço para conhecer pessoas. Ainda conforme o levantamento, a criação de novos clubes na plataforma cresceu aproximadamente 800% no último ano.

O Strava também aponta que o engajamento dos usuários no Brasil reforça essa dinâmica: brasileiros dão "kudos" (espécie de curtida dentro do aplicativo) a uma taxa cerca de duas vezes maior do que a de outros países.
— Em vez de estar na balada ou na bebida, a pessoa chega da corrida: "tu estava em tal trecho". Isso já vira assunto, abre portas. É um universo diferente — relata Babi, que diz acompanhar o fenômeno de perto a partir da experiência de amigas solteiras.
Menos explícito, mais orgânico
Do ponto de vista psicológico, o uso do Strava como espaço de socialização não chega a ser uma surpresa. Para o psicólogo e professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Chrystian Kroeff, o fenômeno se insere em um contexto mais amplo de relações mediadas por aplicativos.
— A vida tem acontecido mais online, por meio das telas dos celulares e, portanto, dos aplicativos. Não é novo ouvir que "o Instagram é o novo Tinder", que "o Twitter é o novo Tinder" e agora que "o Strava é o novo Tinder". Os encontros, que antes aconteciam em festas ou bares, hoje passam muito pelo mundo virtual — analisa.
Segundo ele, existe também um fator de conforto emocional: em plataformas que não são explicitamente voltadas ao flerte, a aproximação tende a ser mais sutil, o que reduz a ansiedade social.
— Um aplicativo que não é feito para paquera pode oferecer uma sutileza e uma segurança interessante para aproximações sociais. A coisa acaba acontecendo de forma mais natural e muita gente se sente mais à vontade assim do que em um aplicativo diretamente voltado para relacionamento — avalia.
Hobbies como filtro inicial
Para quem observa de fora, essa comparação com aplicativos de namoro pode até parecer exagerada. Mas, na prática, o Strava reúne características que facilitam conexões: localização, interesses compartilhados e interações recorrentes.
O comediante e influenciador Luca Mendes, 35 anos, produziu um vídeo que viralizou sobre o tema nas redes sociais, e afirma que a própria estrutura do app favorece esse tipo de aproximação.
— Ele é mais nichado. Quem está ali gosta de correr, de pedalar. Isso já cria um filtro. Tu consegue ver quem fez a mesma rota, no mesmo horário, e, se o perfil estiver aberto, dá para seguir, mandar mensagem. Em provas, por exemplo, o pessoal anotava número de peito para tentar achar a pessoa depois. Hoje, isso acontece dentro do app — explica.
Vale ressaltar que o Strava permite perfis fechados e controle sobre a exibição de rotas, justamente para reduzir riscos e preservar a privacidade.
Ainda assim, é recomendada atenção às configurações de segurança, especialmente para evitar a exposição excessiva de horários e locais frequentados com regularidade.
Apps de relacionamento de olho no mesmo público
Se o Strava ganhou fama de "novo Tinder" sem ter sido criado para isso, outros aplicativos têm buscado se aproximar do universo da corrida de forma mais direta.
Em Porto Alegre, o grupo Salve Corre, que reúne semanalmente corredores em encontros gratuitos e abertos pela cidade, realizou na última quarta-feira (21) um evento em parceria com o Happn, aplicativo de relacionamentos baseado em geolocalização.
Segundo o organizador Luís Felipe Cagliari, a ação teve o objetivo de incentivar o uso do aplicativo, mas sem interferir na dinâmica principal do grupo, que segue acontecendo semanalmente.
Para ele, o fato de pessoas se conhecerem, fazerem amizades e até começarem relacionamentos em grupos de corrida é um desdobramento natural do crescimento do esporte, e não um desvio de propósito.
O ponto central é não inverter a lógica: a corrida não vira "desculpa" para encontros: o encontro acontece porque as pessoas já estão ali.
— Em todo o tempo as pessoas estão se relacionando ou buscando se relacionar com outras pessoas. O que antes acontecia na balada, na Cidade Baixa, na Padre Chagas, na faculdade, nas academia, hoje, como a corrida está em alta, é óbvio que também vai acontecer na corrida — afirma.
Encontro durante a corrida virou namoro

A fonoaudióloga Andressa Ortiz, 31 anos, é um exemplo de como a corrida pode virar ponte para aproximação de pessoas. Ela conta que conheceu o companheiro, Leonardo Isabraldi Martins, 33, assistente financeiro, durante uma das corridas do Salve Corre, em agosto de 2024.
— Foi quase que nem os Incas e os Maias, sabe? Mas foi na corrida do Salve. A gente estava correndo, se olhou e, depois, fomos nos procurar na internet. A conversa começou ali, ao redor da corrida — ela brinca.
Hoje, o esporte virou parte da rotina do casal. Eles moram juntos e mantêm um dia do fim de semana reservado para a atividade.
— A gente continuou correndo juntos. Virou uma rotina de todo sábado ou domingo de manhã, tipo o hobby do casal — conta.
A corrida também entrou como meta compartilhada. No ano em que conheceu Leonardo, Andressa correu a primeira meia maratona. Depois, veio a primeira maratona. Agora, eles planejam repetir a distância juntos.
Para ela, a popularização do esporte ajuda a explicar por que encontros e conexões se tornaram mais comuns nesse ambiente.
— É interessante achar pessoas que compartilham meio que do mesmo hobby. A corrida acabou vindo como um boom. Tu vê muita gente na orla, tu conhece pessoas, tu conversa. Acaba se conectando com pessoas que têm o mesmo propósito que tu — afirma.


