
Ano novo traz ares de recomeço. E, para quem "renasceu" em 2025, o sentimento se aflora. Viver traumas pode gerar reações diversas, inclusive mudar a perspectiva de futuro.
Segundo o psicólogo Gustavo Ramos, que pesquisa reações pós-traumáticas, o desfecho mais frequente é a recuperação — quando as pessoas conseguem seguir com a própria vida de forma funcional. Outras têm também o chamado crescimento pós-traumático.
— Elas usam aquela experiência como algo que as faz repensar a vida, os valores, as metas, e consideram que isso as reorienta para questões mais positivas, para sua espiritualidade — exemplifica.
"O que tem valor é estar viva"
Um acidente em 2025 fez desacelerar a vida da professora de inglês Fernanda Montenegro, 47 anos, de Porto Alegre. Ela conta ter tido 48% do corpo queimado.
— O que eu fiz foi ter dois segundos de bobeira que mudaram a minha vida toda — afirma.
Em 27 de abril, um domingo, ela estava preparando o fogo para fazer churrasco para a família. A chama não surgia e, após tentar diferentes técnicas, a professora lembrou que havia sobrado etanol que costumava utilizar em uma lareira ecológica.
— Com tudo que eu já tinha feito para acender o fogo, deviam ter faíscas, alguma coisa no fundo da churrasqueira, e, quando eu botei o caninho (do galão de etanol), o fogo voltou por dentro do cano, e o galão estourou na minha mão — lembra.
O vestido de Fernanda pegou fogo. As sequelas físicas aparecem hoje nas mãos, nos braços, no peito, na barriga, em parte da perna e em detalhes no rosto.
Fernanda ficou 31 dias internada no Hospital de Pronto Socorro da Capital. Foram três cirurgias, além de períodos de intubação.

A professora voltou para casa no fim de maio e, desde então, diz "ressignificar tudo". Ela dá mais valor para estar com as pessoas, tem aceitado as vulnerabilidades e respeitado os limites de seu corpo, assim como tem focado em ver o lado bom das situações.
Para Fernanda, a palavra de 2025 foi resiliência. E a de 2026 é superação. No novo ano, ela quer seguir valorizando as pequenas coisas e demonstrando amor pelas pessoas.
O que tem valor é estar viva.
FERNANDA MONTENEGRO
Professora de inglês, 47 anos
Todo reaprendizado de alguma atividade se torna uma vitória para ela, até mesmo nos casos mais simples, como subir uma escada e tomar banho sozinha. Fernanda não nega sentir dor e maior cansaço, assim como ter algumas dificuldades na memória. Mas mostra ser grata por não ter sequelas respiratórias nem de mobilidade.
Ela descreve como "transformador" o carinho que recebeu desde o acidente — um carinho que ganhou forma de mensagens, orações e até mesmo doações de sangue.
"Senti a morte muito perto"

O susto foi outro na trajetória da técnica de enfermagem Andrea de Jesus Salvador da Rosa, 50 anos, e do supervisor de produção Volmir da Silva Borges, 49. Por pouco, os dois escaparam de ser esmagados por um caminhão que tombou na BR-116, em Canoas.
O acidente aconteceu por volta das 19h de 15 de setembro, uma segunda-feira. O casal, que mora em Cachoeirinha, havia ido a um shopping de Canoas. Após sair do local, decidiram que iriam lanchar em outro lugar. Quando chegaram nas proximidades, acabaram desistindo.
Estavam trafegando em um Corsa pela Avenida Getúlio Vargas, paralela à BR-116, quando tudo aconteceu:
— Escutei o estouro, só que achei que era um engavetamento, um caminhão, uma carreta que estava empurrando os carros. Era muito forte o barulho — lembra Volmir, que estava ao volante.
Andrea, no banco do carona, viu a lona do caminhão, sem entender o que estava acontecendo:
— Aquilo foi muito rápido, foi uma questão de segundos. Mas, ao mesmo tempo, eu sentia que aquele caminhão, a qualquer momento, podia deitar por cima de nós.
Volmir considerou tirar o carro da pista antes, mas achou que o recuo da calçada não seria suficiente. Por isso, assim que viu um espaço maior, direcionou o veículo, em uma cena que chama a atenção na filmagem de câmeras de segurança (veja acima).
Foi a salvação. Claro, Deus em primeiro lugar. Mas foi essa a reação. Eu senti a morte muito perto.
VOLMIR DA SILVA BORGES
Supervisor de produção, 49 anos

O casal relata ter saído em choque do carro. Ainda hoje, Andrea consegue ouvir o barulho das ferragens e ver a escuridão da lona.
No acidente, o carro teve um dos vidros quebrados, mas eles saíram sem ferimentos. Na definição de Volmir, nasceram de novo.
Ao relembrar o caso, eles destacam sentir gratidão pela vida. Se para 2025 a palavra escolhida pelos dois foi gratidão, para 2026 é esperança. Andrea explica os planos:
— Aproveitar muito a vida, agradecer, fazer aquilo de que gostamos. Gostamos muito de viajar e viajamos bastante. É uma coisa que pretendemos continuar, porque isso (o acidente) não vai nos impedir de viajar aqui, de carro ou de avião. São coisas que acontecem na vida, mas temos que estar sempre atentos, a terceiros também, principalmente no trânsito.
Conforme apurado por Zero Hora à época do acidente, o caminhoneiro, que não teve o nome divulgado pelas autoridades, sofreu ferimentos leves e recebeu atendimento médico.

Ajuda é bem-vinda
O psicólogo Gustavo Ramos esclarece que é normal sentir estresse, ansiedade e dificuldade de concentração ou retomar memórias nos primeiros dias após uma situação traumática. O sinal de alerta surge quando essas reações tornam-se intensas, não passam e começam a afetar o dia a dia. Nesses casos, a orientação é buscar ajuda profissional.
De todo modo, o especialista ressalta:
— O normal é sofrermos com uma situação traumática e o bom é poder contar com pessoas que dão suporte, na família, amigos e, se possível, um suporte formal. Psicoterapia é sempre indicado.
"Me devolveram minha vida"

A história da analista financeira Fernanda de Araujo Braz, 44 anos, de Gravataí, tem um capítulo à parte marcado por desesperança e uma perda de si própria. Sem saber, ela sofria com neuralgia do trigêmeo, uma condição neurológica conhecida como a "pior dor do mundo". Até chegar ao diagnóstico e a uma cirurgia, o caminho foi longo.
Em 2023, a dor se assemelhava a uma enxaqueca, até irradiar para a região maxilar, levantando suspeitas de problema de dente. Fernanda chegou a fazer tratamento dentário. Quando a dor voltava, a analista recorria aos medicamentos.
— Chegou a um ponto em que nenhum remédio para dor resolvia mais, e a dor não era mais como no início. Parecia um choque elétrico — lembra, descrevendo também como uma "contração no rosto".
O quadro se intensificou em 2025, com crises mais frequentes, ocasionando até mesmo desmaios e vômitos. Em uma das ocasiões, veio o diagnóstico.
Cirurgia retirou a causa da dor
Conviver com a doença fez a analista ter dificuldades até mesmo para conversar, compartilhar as refeições com a família e dormir. Tomar banho também virou problema, porque a diferença de temperatura entre o rosto e a água desencadeava dor. A situação, como detalha Fernanda, gerou um quadro depressivo.
No fim deste ano, uma crise intensa fez com que parasse na Santa Casa de Porto Alegre. Ficou internada por cerca de 10 dias até que, em 9 de dezembro, uma terça-feira, passou por uma cirurgia.
Hoje, eu consigo ver que eles (a equipe médica) me devolveram a minha vida, que eu não tinha mais, porque eu não conseguia mais conviver com a minha família.
FERNANDA DE ARAUJO BRAZ
Analista financeira, 44 anos
Segundo o responsável pelo procedimento, Paulo Worm, chefe do serviço de neurologia da Santa Casa, na cirurgia o vaso sanguíneo que encosta ou pulsa sobre o nervo trigêmeo é afastado, retirando a causa da dor.

Fernanda, que ainda está em período de recuperação, diz fisicamente não sentir mais dores.
Com a certeza de que ganhou uma nova oportunidade de vida, para 2026 ela não quer mais ter pressa, abraçar o mundo sozinha e cuidar de todos, menos de si própria. Quer, sim, viver em tranquilidade com a família e aproveitar cada segundo. A fé passou a ter outro significado e o sorriso no rosto voltou.
— É uma doença séria, que anula a vida das pessoas, social e emocional, totalmente. Vou comemorar meu aniversário em dezembro (data da cirurgia) e vou comemorar em julho — destaca, em meio a lágrimas.
Enquanto a palavra de 2025 para ela foi resiliência, a de 2026 se resume a quatro letras: vida.
Lembrar da gentileza
Para quem enfrentou uma situação traumática, o psicólogo Gustavo Ramos recomenda, na hora de pensar em planos para 2026, marcar as metas com gentileza. Ou seja, entender como ajudar a si próprio, como melhorar e como se sentir mais cuidado no novo ano. Isso pode levar a uma reaproximação com amigos, por exemplo, ou à busca por mais atividades de que se gosta.
— Se tem algum aprendizado que pode ser positivo, é que possamos enxergar que somos vulneráveis e que precisamos de gentileza e de suporte para funcionar bem — completa.





