
Mesmo com uma redução de 22% no número de gaúchos que vivem em situação de insegurança alimentar entre 2023 e 2024, ainda há 1,7 milhão de pessoas no Estado que não têm certeza do que vão comer na próxima refeição, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É por esta fatia da população que trabalha o chef Julio Ritta, 42 anos.
Nascido em Curitiba (PR), chegou ao Rio Grande do Sul aos 10 anos. Estudou Gastronomia na Argentina, cozinhou na Alemanha e na Inglaterra, rodou o Brasil comandando fogões em grandes restaurantes e voltou a Porto Alegre em 2013 para empreender no setor alimentício.
Dois anos depois, foi um dos participantes da terceira temporada do reality show Hell's Kitchen: Cozinha sob Pressão, do SBT. Aproveitou seu nome na mídia para criar, no mesmo ano, o projeto Cozinheiros do Bem — Food Fighters, que distribui marmitas para quem precisa.
Mas a iniciativa vai além: busca entregar sentimento por meio da comida, conectando o alimento com a memória afetiva. Viu que este era o seu objetivo de vida e largou os negócios para se dedicar ao trabalho social.
Nesta entrevista, Ritta relembra a sua trajetória, fala sobre desigualdade social e propõe soluções para uma sociedade mais justa.
Leia a entrevista com Julio Ritta

Quais experiências de vida te levaram à criação do Cozinheiros do Bem?
Meu primeiro melhor amigo foi um morador de rua, que foi assassinado quando eu tinha cinco anos. Ele tinha nove. Acho que aquilo despertou em mim uma revolta e uma consciência social, que também vieram por meio dos meus pais. Nasci em um berço filantrópico.
Quando fui chamado para o Hell's Kitchen, decidi fazer um projeto para chamar atenção sobre os números da fome, visto que com o 1/4 da comida que vai para o lixo conseguiríamos acabar com a fome no planeta.
O projeto foi crescendo aos poucos, conforme a minha força de vontade e das pessoas que estavam comigo. Nesses 10 anos, o Cozinheiros do Bem já entregou mais de 8 milhões de marmitas, com a preocupação de usar o alimento como ponte para levar carinho e dignidade para as pessoas.
Quantas pessoas são atendidas hoje pelo Cozinheiros do Bem?
Atingimos números astronômicos. Em Porto Alegre, assistimos mais de 90 localidades, mais 36 cidades no Interior do Estado, com parcerias com restaurantes.
Em 2024, na enchente, nos tornamos o maior abrigo da Capital, acolhendo 1,2 mil pessoas. Durante a enchente, entregamos somente aqui no Centro Humanístico Vida, onde é a nossa sede, 4,8 mil refeições diárias. Tocamos também o abrigo do Centro Olímpico, de Canoas, entregando uma média de 2 mil refeições diárias lá. Juntando com os nossos assistidos das ruas, batemos quase 10 mil refeições diárias.
Atualmente, temos mais de 300 voluntários cadastrados. Por ação, trabalham uns 15 voluntários.
É uma questão de trabalho e organização para acabar com a miséria que temos na Capital. Tenho certeza de que é muito simples e fácil organizar tudo isso.
JULIO RITTA
Chef de cozinha e criador do projeto Cozinheiros do Bem
O Cozinheiros do Bem trabalha com o conceito de comfort food. O que seria isso?
Quando começamos a entregar comida nas ruas de Porto Alegre, as pessoas falavam: "Comida para mendigo é sopa". Só que começamos a entregar comida gostosa, digna, as comfort foods ("comidas que confortam", em tradução literal), que despertam memória afetiva. É para aquele cara que está na rua poder olhar para o prato de comida e falar: "Isso me lembra a minha mãe. Quem sabe eu volto para casa hoje".
Hoje, o teu tempo é 100% para o Cozinheiros do Bem?
A minha vida é dedicada para o Cozinheiros do Bem. Tudo que acabo fazendo é para respingar no projeto. O meu talk show, o Na Lata, criei para chamar atenção, para falar sobre filantropia, sobre as boas atitudes.
Também estou gravando um álbum de rap para falar sobre o assunto. O disco vai se chamar Fome. Vou lançar em 2026. Terá 10 músicas e pretendemos, a cada mês, a partir de março, lançar um videoclipe falando sobre miséria, vulnerabilidade. Tudo o que assola a sociedade.
Como é a relação do Cozinheiros do Bem com o poder público?
O Cozinheiros do Bem nunca bateu o pé como inimigo do poder público. Só fazemos cobranças necessárias. Sempre nos colocamos à disposição do diálogo para conversar com todas as autoridades que deveriam cumprir o nosso papel.
Tudo o que temos no Cozinheiros do Bem veio da sociedade civil. Somente a nossa sede que foi entregue a nós pelo (governador do Rio Grande do Sul Eduardo) Leite em 2018. Aliás, temos um bom diálogo com o governador. Nesses 10 anos, ele foi o único político que, de alguma maneira, nos ajudou.
Me consome muito mentalmente fazer esse trabalho porque não consigo admitir que as pessoas em seus cargos no poder público não conseguem enxergar o óbvio, sendo que é uma questão de trabalho e organização para acabar com a miséria que temos na Capital. Tenho certeza de que é muito simples e fácil organizar tudo isso.
Só vamos conseguir acabar com a vulnerabilidade social (...) quando esquerda e direita se unirem em prol da sociedade.
JULIO RITTA
Chef de cozinha e criador do projeto Cozinheiros do Bem
De que forma isso poderia ser feito?
Primeiro, oferecendo um local digno para que essas pessoas possam dormir sem que tenham que sair às 5h e voltando para as ruas, como é na maioria dos abrigos.
Em segundo, utilizar esses mesmos espaços para oficinas e centros de capacitação profissional. Dentro disso, oferecendo um acompanhamento psicológico.
A partir disso, começamos a pensar em um próximo passo, que é oferecer vagas, um resgate social, que vem através da autoestima. Elas têm que ter um mínimo, uma roupa limpa, um local digno para comer.
O meu trabalho é necessário, acho maravilhoso, mas digo que felicidade mesmo eu vou ter no dia em que chegar embaixo do viaduto e não tiver ninguém na fila esperando por um prato de comida.
Dentro deste cenário, o que o Cozinheiros do Bem pretende fazer daqui para a frente?
Tomamos a decisão de expandir o trabalho e mudar o Cozinheiros do Bem. A partir deste ano, vai se chamar Coletivo Ubuntu. Estamos atrás de alguns editais para ter, por exemplo, a possibilidade de construir uma pista de skate aqui no Centro Vida, um estúdio audiovisual, um estúdio musical e uma estufa de aquaponia (técnica em que peixes e plantas são cultivados juntos).
Queremos trabalhar com arte, cultura e esporte. E o Cozinheiros do Bem vai fazer parte deste guarda-chuva. Queremos capacitar as pessoas, resgatá-las. Demos o peixe e, a partir de agora, também queremos ensinar a pescar.
Nos próximos 10 anos, nosso projeto é trabalhar para extinguir a fome em Porto Alegre, nas ruas. Vamos trabalhar com projetos, com a ideia de um ônibus de distribuição de alimentos, porque sabemos que moradores de rua não conseguem se locomover até os locais. E hoje ainda existem leis que estão tentando implementar para proibir entregas em diversos lugares, estabelecendo dia e hora.
Quais são as dificuldades no caminho dos projetos?
Estamos estudando vários editais, a nossa documentação está toda pronta, mas temos uma pendência: a cedência da nossa sede venceu. E o Centro Vida não tem o PPCI (Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio) para poder renovar os contratos com os projetos. É isso que está impedindo que possamos continuar fazendo o nosso trabalho.
Hoje, estamos (parcialmente) sem luz aqui na sede, porque invadiram aqui pela terceira vez e levaram a fiação. Estamos aguardando um posicionamento dos governos estadual, municipal e federal para que possamos ter a nossa sede devidamente repassada para o nosso nome. Só assim vamos poder participar desses editais que começam no início do ano.

Qual é o perfil de quem vive nas ruas de Porto Alegre hoje?
Em 2018, encomendei dois levantamentos de institutos de pesquisas diferentes. As duas bateram em uma mesma média: mais de 70% da população em situação de rua está nesta situação por desilusão afetiva/amorosa. E é óbvio que depois que tu vais morar na rua, é praticamente impossível viver de uma forma careta, lúcida.
Só vamos conseguir acabar com a vulnerabilidade social, não só de Porto Alegre, mas do Brasil inteiro, quando esquerda e direita se unirem em prol da sociedade.
Falaste que o teu sonho era chegar embaixo do viaduto e não ter ninguém para receber um prato de comida. Nesses 10 anos, viste algum indício de que isso pode acontecer?
Me lembro que, em 2018, se falava em 1,8 mil pessoas em situação de rua (em Porto Alegre). E, naquela época, na pesquisa que encomendei, já bateram 7 mil. Infelizmente, nesses 10 anos, vejo os números aumentando, principalmente de crianças e idosos, assim como mulheres nas ruas.
Muitas vezes, tem uma pessoa embaixo da nossa marquise e reclamamos que ela está urinando, sujando, mas ela só está lá porque foi abandonada pela sociedade. Não é só culpa do poder público. É culpa também da falta de olhar humano e de amor da própria sociedade.
Só em 2025 quatro pessoas morreram de frio no inverno de Porto Alegre. Uma cidade que se diz referência, potência, orgulho do povo gaúcho.
JULIO RITTA
Chef de cozinha e criador do projeto Cozinheiros do Bem
E tem quem defenda que não é para ajudar moradores de rua, porque aí eles não vão embora.
Vi direto as pessoas falando: "Agora que eles não saem da rua, porque tem comida boa." Quer dizer que os sonhos da vida de um ser humano vão por água abaixo e só um prato de comida vai satisfazer? Que não tem problema não ter um chuveiro, não ter um travesseiro, passar calor ou frio.

Como foram as comemorações dos 10 anos do Cozinheiros do Bem?
Infelizmente, 2025 foi o pior ano de arrecadação de doações do Cozinheiros do Bem. Encontrei uma maneira de chamar atenção fazendo o maior carreteiro do mundo para a população em situação de rua e trouxemos o show do Edi Rock dos Racionais.
Mas eu gostaria que o meu trabalho não precisasse ser diário. E isso seria possível se mais pessoas se mobilizassem.
Por que achas que 2025 foi o ano com mais dificuldade de doação?
Infelizmente, o Estado está quebrado depois da enchente de 2024. E parece que as pessoas pensam que agora não precisam mais ajudar, sendo que muitos dos que foram para os abrigos durante a enchente eram pessoas que perderam suas casas. Mas quem não tinha casa continuou sem.
O cansaço psicológico e a enxurrada de notícias tristes foram muito grandes, fazendo com que todo mundo acabe virando a cara para o que não é agradável aos olhos.





