Nossa história não encontra despedida
UNIDOS DO VIRADOURO
Trecho do samba-enredo 2026
O verso do samba que embala a Unidos do Viradouro para o Carnaval 2026 no Rio de Janeiro antecipa o tom de um desfile que promete entrar para a história da escola de Niterói.
Desta vez, a homenagem não é póstuma nem distante no tempo. Será feita em vida, ao mestre de bateria Ciça, que aos 70 anos terá sua trajetória celebrada na avenida em um dos enredos mais raros do carnaval carioca.
A poucas semanas dos desfiles na Marquês de Sapucaí, Moacyr da Silva Pinto vive dias de emoção intensa. Presente em ensaios, reuniões e na rotina de montagem de alegorias e fantasias, acompanha dia a dia a construção do espetáculo que contará a própria história.
— Às vezes faltam palavras para explicar o que está acontecendo. Eu estou sendo enredo contando a minha própria história. Isso é incrível — diz Ciça em entrevista exclusiva a Zero Hora.
Além de personagem central do desfile, o mestre cumprirá na avenida sua função habitual: comandar a bateria Furacão Vermelho e Branco, que será avaliada normalmente pelos jurados.
Vibração da escola no dia do anúncio
A situação é inédita. Ele será, ao mesmo tempo, homenageado e responsável por um dos quesitos mais decisivos da competição.
— Eu sou enredo, mas também sou bateria. Tem vários quesitos que dependem de mim. Estou sendo julgado contando a minha própria história. A responsabilidade é enorme — reconhece.
Eu choro a todo momento. Quando vejo uma homenagem, quando alguém me aborda na rua. É um momento único da minha vida
MOACYR DA SILVA PINTO, O CIÇA
Mestre de bateria e enredo da Viradouro
Desde o anúncio do enredo Pra Cima, Ciça!, feito de forma surpresa na quadra da escola (veja a reação no vídeo acima), o mestre fica colado ao carnavalesco Tarcísio Zanon.
— Os campeonatos são importantes, mas o maior troféu da minha vida foi naquela quadra, quando anunciaram o enredo e todo mundo se emocionou. Aquilo não tem preço — resume.

Embora evite interferências diretas, participa das conversas, opina em detalhes pontuais e acompanha de perto a evolução dos carros, fantasias e da narrativa.
A definição de como ele surgirá no desfile — se à frente da bateria ou em um carro alegórico — segue tratada como surpresa.
Voz histórica marcou disputa de samba
A homenagem ganhou um capítulo inédito ainda na fase de escolha do samba-enredo. Uma das obras concorrentes, que depois se tornou a vencedora, chamou atenção ao trazer, entre as vozes da gravação, a de Dominguinhos do Estácio, morto em 2021 aos 79 anos.
O intérprete, um dos grandes nomes do carnaval carioca, voltou a ser ouvido por meio de inteligência artificial, em gravação autorizada pela família.
A escolha teve peso simbólico especial. Dominguinhos foi parceiro de longa data de Mestre Ciça, com quem dividiu inúmeros desfiles e histórias na avenida.
— Foi uma surpresa enorme. Quando ouvi a voz dele, me emocionei. Dominguinhos foi meu parceiro de muitos anos. Ter ele presente nesse momento é algo muito forte — comenta Ciça.
O samba oficial, cantado por Wander Pires, é assinado por Claudio Mattos, Renan Gêmeo, Rodrigo Gêmeo, Lucas Neves, Rodrigo Rolla, Ronaldo Maiatto, Bertolo, Silvio Mesquita, Marcelo Adnet e Thiago Meiners.
Trajetória que atravessa gerações
A sinopse do enredo parte de um ponto central: a Sapucaí como palco brasileiro de homenagens em vida. A Viradouro, que completa 80 anos de fundação em 2026, escolheu celebrar uma de suas próprias forças criativas.
Ciça será reverenciado como artista e personagem fundamental da história do samba moderno. O enredo percorre sua formação no bairro do Estácio, berço do samba urbano, a ascensão como mestre de bateria, a paixão pelo Vasco da Gama e as inovações rítmicas que marcaram diferentes escolas por onde passou.
Com 55 carnavais no currículo e 36 anos ininterruptos de Sapucaí, ele construiu uma das trajetórias mais respeitadas do samba.
Retorno de Juliana Paes reforça simbolismo

O desfile ganhará ainda mais peso emocional com a volta de Juliana Paes ao posto de rainha de bateria após 18 anos. A atriz esteve à frente dos ritmistas da Viradouro entre 2004 e 2007.
No último desfile dela antes do retorno, sob comando de Ciça, a bateria desfilou sobre um carro alegórico em formato de tabuleiro de xadrez, inovação que entrou para a história da Sapucaí.
Agora, aos 45 anos, Juliana reassume a coroa justamente no desfile que celebra o comandante daquela fase. A Viradouro será a terceira escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval (16 de fevereiro).

