
Das 12 escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro, nove levarão à Marquês de Sapucaí homenagens a personalidades históricas, culturais e políticas no Carnaval de 2026. Os enredos percorrem nomes da música, da literatura, do samba e da história brasileira, reforçando uma tendência de desfiles biográficos e narrativas centradas em figuras que marcaram o país em diferentes áreas.
Entre os temas que mais repercutiram está o da Acadêmicos de Niterói, que escolheu como enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, dedicado à trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O desfile será desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins e pelo enredista Igor Ricardo, e propõe contar a história do pernambucano que saiu do interior do Nordeste e se tornou presidente da república.
Segundo a escola, a narrativa será apresentada em cinco setores, abordando momentos centrais da vida de Lula: a infância em Pernambuco, a migração para São Paulo, o trabalho como torneiro mecânico, a liderança sindical durante a ditadura militar, a chegada à Presidência da República e as políticas sociais implementadas ao longo de seus mandatos.
A escolha, no entanto, gerou críticas e debates nas redes sociais por se tratar de um enredo político em ano eleitoral. Para o enredista Igor Ricardo, a escola tem reagido às polêmicas com tranquilidade, reforçando que o desfile não se configura como propaganda eleitoral.
— A gente vai apresentar na Marquês de Sapucaí uma história de vida. A trajetória de um nordestino, de um retirante, de um pobre que passou fome e virou presidente do Brasil. Essa história, por si só, é vencedora — afirma o pesquisador do enredo.
Ricardo reconhece que a política é elemento inevitável da narrativa, mas diz que tem distinção entre relato histórico e campanha eleitoral.
— Claro que tem política, porque a história do Lula é política. Mas não existe pedido de voto, não existe propaganda. Estamos contando uma história real, respeitando todas as regras — destaca.

A Imperatriz Leopoldinense levará para a avenida o enredo “Camaleônico”, dedicado ao cantor Ney Matogrosso. Assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira, o desfile propõe uma leitura estética e performática da carreira do artista, destacando sua capacidade de transitar entre gêneros, identidades e linguagens, além de seu papel como figura de ruptura comportamental na cultura brasileira.
A Portela seguirá pelo caminho da ancestralidade afro-brasileira ao homenagear Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio. Figura central da cultura afro-gaúcha no século 19, ele foi responsável pela consolidação do Batuque no Rio Grande do Sul.
O enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, desenvolvido por André Rodrigues, busca descentralizar as narrativas afro-brasileiras do eixo Rio–Bahia e valorizar a contribuição do Sul na formação religiosa e cultural do país.

A Mangueira levará à avenida as tradições afro-indígenas da Amazônia ao contar a história de Mestre Sacaca, referência da medicina popular e da cultura tucuju. O enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju — O Guardião da Amazônia Negra”, desenvolvido pelo carnavalesco Sidnei França, aposta em uma leitura espiritual e territorial da região amazônica.
Já a Mocidade Independente de Padre Miguel prestará homenagem à cantora Rita Lee, falecida em 2023. O enredo “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”, assinado por Renato Lage, pretende destacar a artista como símbolo de irreverência, independência criativa e transformação de comportamentos.
A Unidos do Viradouro fará uma escolha inédita ao transformar Mestre Ciça, histórico comandante da bateria Furacão Vermelho e Branco, em enredo. O desfile valoriza personagens internos da escola e celebra Ciça como baluarte do samba, educador e referência musical.
Na Unidos da Tijuca, o desfile terá como tema a escritora Carolina Maria de Jesus. O enredo, que leva o nome da autora, busca reafirmar sua identidade como intelectual e uma das principais vozes da literatura brasileira, rompendo com leituras que por décadas a reduziram à condição social.

A Unidos de Vila Isabel apostará na trajetória de Heitor dos Prazeres, multiartista, compositor e pintor fundamental para a história do samba. O enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África” propõe uma África reinventada pela imaginação negra no Brasil do século 20.
Fechando o conjunto de homenagens, o Acadêmicos do Salgueiro levará à Sapucaí um tributo à carnavalesca Rosa Magalhães, morta em 2024. O enredo, assinado por Jorge Silveira e Leonardo Antan, revisita o legado da artista que revolucionou a linguagem dos desfiles ao unir rigor histórico, imaginação e narrativa visual.
A aposta em um único personagem foi a receita do desfile da Beija-Flor de Nilópolis no Carnaval de 2025, com a homenagem a Laíla, diretor de carnaval e figura histórica da escola. O enredo, que levou a agremiação ao título, reforçou a força de narrativas centradas em trajetórias. Para 2026, a atual campeã levará para a avenida o enredo “Bembé”, em homenagem ao Bembé do Mercado, considerado a maior celebração de candomblé de rua do mundo.
Outras escolas do Grupo Especial seguem caminhos semelhantes ao apostar em manifestações culturais como eixo central dos desfiles. A Acadêmicos do Grande Rio escolheu o enredo “A Nação do Mangue”, celebrando o movimento Manguebeat, surgido em Recife, enquanto o Paraíso do Tuiuti levará à Sapucaí “Lonã Ifá Lukumí”, que aborda tradições religiosas afro-cubanas ligadas ao culto de Ifá.
As definições dos enredos indicam que o Carnaval 2026 do Grupo Especial do Rio será marcado pela diversidade de histórias e trajetórias. A pouco mais de um mês dos desfiles, a sorte está lançada para saber qual dessas narrativas conquistará a Marquês de Sapucaí no próximo Carnaval.





