
As escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro vivem um novo desafio na preparação para o Carnaval 2026. A Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) promoveu mudanças no sistema de julgamento que impactam diretamente a apresentação dos desfiles na Marquês de Sapucaí. Entre as principais novidades estão a adoção das chamadas cabines “espelhadas” e uma atualização na forma de avaliar os quesitos.
Pela primeira vez, duas cabines de jurados serão posicionadas uma de frente para a outra, nos setores 6 e 7 da Sapucaí. A mudança obriga as escolas a pensarem apresentações de comissão de frente e, sobretudo, do casal de mestre-sala e porta-bandeira em 360 graus, contemplando jurados em lados opostos da pista.
Historicamente, os casais sempre se preocuparam em não ficar de costas para a cabine julgadora. Com o novo formato, coreografias e deslocamentos precisam ser ainda mais precisos, sem perder leitura técnica nem impacto visual.
A expectativa da Liesa é tornar os desfiles mais fluidos, com menos interrupções e maior dinamismo, além de ampliar a experiência do público ao longo da avenida.
Um samba-enredo menos “engessado”
Outra mudança importante está no entendimento do quesito samba-enredo. Embora produções biográficas e narrativas sigam centrais, a avaliação passa a valorizar também a funcionalidade do samba na avenida, e não apenas o detalhamento do desfile em cada setor.
Para o historiador, escritor e compositor Luiz Antônio Simas, essa lógica já vinha sendo questionada nos bastidores do Carnaval.
— Não é que o antigo regulamento exigisse que o samba contasse ala por ala, ponto a ponto, o desfile. Mas isso acabou virando quase uma jurisprudência — afirma o pesquisador, que também é um dos compositores do samba-enredo do Paraíso do Tuití em 2026.
Segundo Simas, a mudança reconhece o samba-enredo como obra artística, e não apenas como um “manual cantado” do desfile.
— O desfile é uma obra de arte. O samba precisa funcionar na avenida, criar conexão com o cortejo, e não apenas descrever cada detalhe do que está passando — cita.
Em 2026, o quesito samba-enredo será avaliado a partir de três subquesitos:
- Desenvolvimento do enredo (3,6 a 4 pontos)
- Riqueza poética/melódica (3,6 a 4 pontos)
- Funcionalidade (1,8 a 2 pontos)
O corpo de julgadores será formado por Alfredo Del-Penho, Alessandro Ventura, Vandelir Camilo, Christiano Abelardo, Elidio Fernandes Junior e Leonardo Santana.
Mais jurados na pista, mesma quantidade de notas válidas
Outra alteração prevista para 2026 é o aumento no número de jurados. A Liesa ampliou de 36 para 54 os julgadores, passando de quatro para seis jurados por quesito. Apesar disso, a quantidade de notas válidas seguirá a mesma: na Quarta-Feira de Cinzas, durante a apuração, haverá um sorteio para definir quais jurados terão suas notas computadas.
Para Simas, o processo faz parte da própria natureza do Carnaval.
— O desfile é um espetáculo que se constrói na tentativa, no acerto e no erro. É no dia que a gente descobre se funcionou ou não — explica.
Com as mudanças, as escolas entram na reta final de preparação diante de um novo cenário técnico e estético. A avenida passa a exigir não apenas criatividade e emoção, mas também adaptação às novas regras do julgamento.




