
O Natal é uma das datas mais simbólicas do calendário. Para alguns, é tempo de viver rituais que atravessam décadas: montar a árvore, preparar a ceia, reunir a família. Para outros, é oportunidade de adaptar a celebração ao próprio ritmo, seja com encontros entre amigos, menus personalizados ou momentos de introspecção.
Mas o que significa celebrar o Natal hoje? Quais tradições ainda são preservadas? Quais vêm sendo criadas? Para conhecer diferentes experiências, Zero Hora conversou com pessoas de gerações distintas para entender como vivem a data e quais são as práticas que dão sentido às suas celebrações.
O que se observa é que o Natal continua sendo mais sobre afeto do que sobre consumo. Além disso, há algo que atravessa idades e permanece essencial: estar perto de quem importa, seja com quem compartilha laços de sangue, seja com as redes de afeto construídas ao longo do tempo.
Novas e antigas tradições
Desde pequena, a psicóloga Fernanda Pacheco, de 44 anos, via a mãe, a professora aposentada Maria Lucia Pacheco, 72, transformar cada detalhe da casa para os festejos natalinos. Essa memória moldou sua relação com a data. No caso da matriarca, as lembranças remontam à infância, quando era levada à Missa do Galo e participava de um almoço de Natal.
Há anos, a noite de confraternização ocorre na casa de Maria Lucia e reúne ritos que se perpetuam, como o tradicional amigo secreto, as rabanadas feitas por uma das tias, a presença do mesmo Papai Noel e uma oração, não como rito religioso, mas como forma de agradecer. Fernanda define a data como o "aniversário da família".
— Eu, pessoalmente, valorizo bastante a questão dos rituais, porque acho que eles dão uma ideia de identidade, de laço. Eles honram a nossa história, os antigos, as pessoas que se foram, as pessoas que estão. Muitas crianças foram chegando ao longo dos anos, então procuramos manter a magia dessa noite de Natal — reflete.
Além de manter as tradições passadas de geração em geração, Fernanda criou as suas próprias. Junto com a amiga Luciana Kaempf Gastal, começou a produzir, próximo ao Natal, biscoitos para distribuir para amigos e família.
— Usamos a receita que ela tem. Depois, fazemos pacotinhos e entregamos para as pessoas. Eu acho que é um jeito de distribuir amor — pontua Fernanda.
Ela conta que, em dezembros passados, dedicou parte do mês para explorar destinos que respiram o espírito natalino, como Nova York e a Disney, ambos nos Estados Unidos. No ano passado, para tornar a celebração mais especial, criou uma tradição divertida: comprou pijamas natalinos iguais para ela, o marido e os filhos.
Ressignificar o período
Já o síndico profissional Jeferson Martins, de 43 anos, aprendeu a ressignificar a data. Na juventude, o Natal sempre foi considerado um período especial por conta da mãe, Ana Rita, que fazia questão de decorar a casa, organizar e preparar a ceia com capricho e escolher a dedo o presente para cada um dos três filhos.
Com a morte dela, a celebração se tornou dolorosa. Foi o nascimento do filho Vicente, de 12 anos, que trouxe novo sentido a Jeferson: hoje, ele revive os rituais que a mãe amava como forma de homenageá-la:
— Ela era muito envolvida. Decorava toda a casa, passava a tarde fazendo comidinhas, pensava nos presentes. Mesmo depois que a gente ficou grande, ela não conseguia entregar um presente normalmente. Tinha que ter uma magia, um mistério. Ela era o Natal pra gente. Quando ela partiu, os seguintes foram muito pesados. Eu só voltei a ter alegria depois que nasceu meu filho. A partir daí começou a voltar a ter tudo — relata.
Agora, a comemoração natalina começa em 1º de dezembro, quando Jeferson, a esposa, Daniela, e o filho, se reúnem para decorar a casa e montar o pinheiro.
— Trinta de novembro é o aniversário do meu filho. No dia 1º de dezembro, no dia seguinte, é o dia de enfeitar a casa. Na verdade, a gente está precisando comprar uma árvore nova, porque essa que eu uso é a mesma que a minha mãe usava — conta.
Tradicionalmente, a festa ocorre na casa de Jeferson e começa no início do dia, com a preparação da ceia. À tarde, a família aparece e o cenário se transforma: primos correndo de um lado para o outro, risadas espontâneas e o cheiro dos assados. À noite, é hora da janta e do amigo secreto. Até o ano passado, Jeferson era quem se vestia de Papel Noel, mas as crianças deixaram de acreditar no bom velhinho.
"Precisamos relembrar o verdadeiro significado do Natal"
Com quatro filhos, 10 netos e quatro bisnetos, a noite de Natal é sempre movimentada na casa da aposentada Irismar Tavares, 74 anos. Nem sempre todos conseguem estar presentes, mas, ao longo dos anos, ela busca cultivar o que considera o verdadeiro significado da data: união, amor e gratidão. Para ela, os valores refletem a celebração do nascimento de Jesus Cristo.
— Eu tenho muito respeito por ele (Jesus Cristo). Então, a gente deveria pensar um pouquinho mais no que é o Natal. Não se festeja o Natal para as empresas ganharem dinheiro, para nós ganharmos presentes. Festejamos o Natal porque é aniversário da pessoa mais importante que já existiu nesse mundo, né? — declara.
Este ano, a celebração será na casa de uma de suas filhas. Por isso, optou por não montar um pinheiro, mas manteve a tradição de colocar uma guirlanda na sua porta e montar um presépio. Apaixonada por artesanato, Irismar encontrou uma nova forma de compartilhar o gosto pelo Natal com os bisnetos: juntos, começaram a criar peças para a data.
— Eu gosto muito de artesanato e eles costumam pintar quadros junto comigo. E agora, há um mês e meio, mais ou menos, todas as quartas-feiras nós fazemos um arranjinho de Natal. Eles fizeram e levaram para casa para pendurar na árvore deles.
A aposentada, que atuou por anos como educadora financeira, mantém outras tradições, como: presentear os netos com dinheiro e reservar um momento de introspecção:
— Faltando alguns dias para o ano acabar, eu começo a fazer uma comparação com a minha idade e com o tempo que eu tenho ainda pela frente. Quantos Natais, quantas entradas, encerramentos de ano eu ainda vou ter? Depois de uma certa idade, nessas ocasiões, a gente começa a fazer uma reflexão. O que passou e o que poderá ainda vir? — reflete.
E a geração Z?
O Natal da estudante de Direito Maria Helena Fontella, de 20 anos, será no Litoral Norte gaúcho, na casa da mãe, junto a ela, os irmãos e a avó. Para eles, a data é vista como uma oportunidade de reencontro durante o ano, uma vez que moram distantes uns dos outros.
— É o momento que a gente realmente fica mais unido, que a gente se vê, a gente coloca conversa em dia. Porque cada um mora em uma cidade, sabe? Então, é o tempo que a gente tem pra poder ter essa ligação de novo, esse contato — conta Maria Helena.
Por lá, parte do Natal foge do roteiro tradicional: a troca de presentes não é prioridade e a ceia clássica dá lugar a pratos escolhidos pelo gosto da família. Maria Helena, por exemplo, parou de comer carne. Dessa forma, o cardápio se reinventa a cada ano. Outro aspecto é que a preparação é coletiva.
O espírito natalino já fazia parte da rotina da jovem desde o início de dezembro. Morando em uma residência estudantil em Porto Alegre, participou da iniciativa dos colegas, que decoraram os espaços comuns para dar um ar festivo ao ambiente:
— A gente comprou uma árvore de Natal ano passado. Ficou bem legal porque é uma casa mais antiga, tem lareira, a gente colocou luzinhas na volta e montou a árvore em cima, pequenininha. É para não passar o período em branco, porque tem pessoas que vêm de outras cidades e que acabam não conseguindo voltar.
Parte da experiência da jovem corrobora com os resultados da pesquisa "Natal da Gen Z", conduzida pelo InstitutoZ, especializado em estudos de comportamento e consumo dos nascidos entre meados de 1997 e 2010. Em vez de seguir símbolos tradicionais, eles valorizam encontros simples, celebrações colaborativas. Com mais afeto e pertencimento, e menos formalidades e rituais.
Isso não significa que outras gerações não compartilhem momentos ou pensamentos semelhantes; a diferença é que, entre os mais jovens, há uma tendência maior de ressignificar esses costumes. Nesse sentido, a antropóloga cultural e social Paula Neves Cisneiros, do InstitutoZ, destaca:
— O que é relevante para a geração Z é ver que não existe só uma maneira de comemorar o Natal, que esse Natal é múltiplo, são muitos e todos eles são válidos. Tem as tradições que já existem, mas também tem esse espaço de criação de suas próprias tradições.
*Sob supervisão de Juliana Lisboa


