
O espaço hoje ocupado por WhatsApp, Instagram, Tinder e Grindr na busca por amizades e relacionamentos recebia outros nomes anos atrás. Bate-papo UOL, mIRC, ICQ, MSN e Orkut são apenas alguns de uma internet comercial que completou 30 anos no Brasil em 2025.
Havia a necessidade de uma linha telefônica, uma vez que a conexão era discada através do modem e com som bastante característico. O telefone ficava ocupado durante a navegação, dando o tom de uma época muito diferente da internet que conhecemos (e vivemos) atualmente.

Nos bate-papos, pouco se sabia sobre quem estava do outro lado da tela. O nome do usuário ajudava a definir quais eram as intenções na rede.
— Era uma coisa muito limitada, porque você tinha um espaço muito pequeno para colocar o seu apelido. E, no apelido, meio que se colocava já uma mini descrição, uma mini bio. Tentávamos encaixar: apelido, idade e a região — lembra o youtuber Filipe Oliveira, 37 anos, sobre o início do relacionamento com Eduardo Camargo, 36.
Os dois, mais conhecidos como Fih e Edu, são os criadores do Diva Depressão, que nasceu como uma página no Facebook em 2012 e ganhou conteúdos no YouTube em 2015, onde hoje já somam mais de 3,4 milhões de inscritos, além de marcar presença em outras plataformas.
Do bate-papo ao MSN

Fih e Edu se conheceram entre 2008 e 2009 pelo bate-papo UOL. Os dois são do ABC Paulista e contam ter entrado em uma sala voltada a essa região à época.
— Para nós, que somos gays, esse espaço de conhecer as pessoas era ainda mais limitado. Então, enquanto víamos as outras pessoas se conhecendo na escola, em barzinho, em baladinha, não tínhamos muito essa possibilidade, primeiro porque éramos muito mais novos naquela época, então não tínhamos tanto uma independência de poder sair para onde quiséssemos, com dinheiro. O que sobrava para nós era esse acesso online, e tinham essas salas de bate-papo — explica Edu.
Depois dos primeiros contatos, a conversa migrou para o MSN, onde gostavam de compartilhar desenhos e um ficava de olho no horário que o outro entrava. Os dois também fizeram questão de se encontraram no Orkut.
Pessoalmente, como conta Fih, o papo do primeiro encontro não fluiu tanto quanto na internet. Mas, o match final ocorreu ainda em 2009, quando começaram o relacionamento.
- O bate-papo UOL ainda existe, com opções gratuita e paga de acesso
- Já o MSN Messenger foi encerrado em 2013
Uma comunidade de fãs no Orkut

Há duas décadas, uma porto-alegrense fã de Engenheiros do Hawaii e Humberto Gessinger sequer imaginaria que o parceiro de vida surgiria em uma comunidade de apaixonados pela banda. E mais: que seria justamente o responsável por incomodar no fórum.
— Ele era aquele cara que tocava o terror na comunidade, criava umas intrigas. Tinha e tem umas questões bem particulares dos fãs da banda que ele pegava para tirar sarro, fazer umas brincadeiras. Eu achava ele muito chato — lembra, com bom humor, a jornalista Juliane Soska, 37 anos.
O representante comercial Eriksen da Silva, 39 anos, de Guaporé, na serra gaúcha, não nega o passado. Ele criava as discussões sob um perfil falso chamado "Sem Nome Gessinger".
— Brinco até hoje que eu era detestado por 60%, 70% da comunidade — complementa, destacando que o objetivo era brincar.
Juliane e Eriksen se conheceram cara a cara em 2007, em um show da Engenheiros do Hawaii. Depois, com grupos de amigos em comum, viajaram para apresentações no Interior e pelo Brasil.

Os dois criaram uma amizade, mantida com conversas pelo MSN. E, em 2009, começaram a namorar em pleno Planeta Atlântida.
Eles moram em Cachoeirinha, na Região Metropolitana, e têm uma filha de 10 anos — como é de se imaginar: também fã de Humberto Gessinger.
- O Orkut foi oficialmente descontinuado em 2014
Confusão com nickname

Ainda antes de Orkut, MSN e bate-papo UOL, um serviço de conversas em tempo real fazia sucesso: o mIRC. Os usuários usavam o símbolo # (hoje, hashtag, antigamente, sustenido) para se juntar a canais e conversar sobre tópicos diversos. A plataforma segue operando. E, há quase 20 anos, fez parte da história de um casal de Rio Grande, no sul do Estado.
Aos risos, a microempreendedora Marina Suita Almeida, 33 anos, relata a primeira interação com o marido, o servidor público Diego Anastacio Almeida, 39:
— Ele me chamou, mas achando que era outra menina.
A confusão se deu pelo apelido que Marina usava na plataforma, Nina. O "erro", no fim das contas, virou conversa e encontros.
Os dois já tinham se visto, brevemente, em reuniões de jovens na cidade. Contudo, o primeiro encontro oficial ocorreu na Praia do Cassino.
"Oi, quer teclar?"

Os encontros derivados do mIRC tinham até apelido: "IRContros". Buscar amores na internet da época seguia um passo a passo:
— Começava tudo com "oi, quer teclar?". Se a pessoa dizia "sim", já era meio caminho andado porque aí tinha que desenrolar depois — explica Diego.
— Porque tu te atraía pelo nickname, não tinha nem foto na época. Tu olhava o nickname das pessoas e chamava para ver se seria interessante de conversar — completa Marina.
Essa é uma diferença que notam em relação aos dias atuais, quando as primeiras impressões costumam surgir a partir da aparência física.
— Tinha que ser bom de lábia mesmo, podia até ser feio, mas se fosse bom de lábia... — brinca Diego, aos risos.
Ele e Marina estão juntos desde 2006 e têm um filho de 11 anos.
O finado ICQ

Na lista de serviços pioneiros de mensagens instantâneas, também está o ICQ. A plataforma, famosa por um som de "uh-oh", deixou de operar em 2024. Foi por meio desse serviço que uma artesã gaúcha e um escritor e artista visual mineiro morador de São Paulo mantinham contato. Essa história, porém, começou no bate-papo BOL.
Rejane Marazini, 57 anos, e Paulo Lai Werneck, 63, contam que o primeiro contato ocorreu em uma sala de amizade em 2002. Ainda que o propósito fosse esse, havia apenas quem aproveitasse a conversa para falar vulgaridades. Em meio a isso, no entanto, uma mensagem chamou a atenção.
— Eu coloquei: "Quem quer fazer amizade?". Aí ele respondeu: "Eu quero" — lembra Rejane.
Do bate-papo, eles migraram para o ICQ. Ali, começou uma amizade, que, após, se transformou em flerte. Os dois trocaram fotos por e-mail e pelos Correios.

As limitações da escrita fizeram com que se comprometessem a manter a honestidade e a clareza.
— Era só teclar, então não sabíamos o tom da voz e era mais fácil de dar algum mal-entendido até por sermos de regiões diferentes. Aqui no Rio Grande do Sul, tem expressões que lá eles não entendem direito, então sempre combinamos de nos falar de forma bem clara — detalha Rejane.
Pessoalmente, os dois se conheceram em Porto Alegre. Paulo também foi a Itaqui, cidade natal de Rejane. Eles mantiveram o relacionamento a distância por um tempo, principalmente com o uso do ICQ. Depois, moraram juntos no Estado de São Paulo e, mais recentemente, fixaram residência na capital gaúcha.
- O link disponível para acesso ao bate-papo BOL não funciona mais. Zero Hora foi atrás da empresa responsável em busca de mais detalhes, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem
🤔 Dá para voltar ao passado?
- Sobre os primórdios da internet, Fotolog, Kibe Loco e charges.com.br também foram alguns dos nomes citados pelos entrevistados
- Uma forma de relembrar o passado é por meio do Wayback Machine (web.archive.org). A plataforma funciona quase como uma "máquina do tempo": é possível inserir o link de um site e navegar por versões antigas dele
- De acordo com o Wayback Machine, o acervo digital tem hoje mais de 916 bilhões de páginas da web




