
Em meio ao toque de tambores tradicionais do batuque gaúcho, a rainha Diambi Kabatusuila, líder do povo Bakwa Luntu do reino Luba, da República Democrática do Congo, foi recebida na noite da última quinta-feira (13) no Ilê Asé Iyemonjá Omi Olodô, em Porto Alegre.
O encontro integrou a agenda que a soberana cumpre no Brasil, para dialogar com lideranças políticas, culturais e religiosas de diferentes estados brasileiros. Na quarta (12), ela já havia participado de evento na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Na quinta, diante de um salão repleto de filhos de santo e sacerdotes das religiões de matriz africana, a rainha destacou o significado de visitar um terreiro no Sul do Brasil pela primeira vez.
— Estar aqui é como reencontrar a família. É recuperar esse contato e reconhecer a força, o poder e a resistência que vocês construíram aqui, mesmo nas piores condições — disse.
A rainha afirmou que o Brasil preservou aspectos da cultura africana mesmo diante da violência histórica da escravidão e das perseguições às religiões de matriz africana. Ao ouvir o toque dos tambores do Ilê, disse reconhecer elementos comuns às tradições de seu povo.
— As danças, os cantos, os toques do tambor… tudo ressoa como em África. É como se nossas mães ancestrais estivessem tocando juntas. Presto minha reverência aos primeiros africanos que chegaram aqui, tirados das suas famílias, trazidos pelo mar em condições que nem mesmo os animais conhecem. E ainda assim, eles conseguiram criar um reino africano nesse país — refletiu.

Ao ouvir relatos do público presente acerca do racismo que atravessa as experiências negras no Rio Grande do Sul, a rainha afirmou que a ancestralidade africana é o fundamento da humanidade.
— Todo ser humano é africano, não importa a cor da sua pele. A Àfrica é a mãe de toda a humanidade — declarou.
Em um dos momentos mais marcantes da noite, a rainha sentou-se sobre o trono ocupado pelo sacerdote do Ilê, Babá Diba de Iyemonjá, também presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul (CPTERS).
O babalorixá destacou a importância simbólica da presença da rainha em um terreiro de batuque — religião cunhada no Estado que tem suas particilaridades ainda desconhecidas pelo restante do Brasil.
— Para nós, é o reconhecimento do nosso pequeno território de África aqui no Rio Grande do Sul como legítimo.
O sacerdote também ressaltou a representatividade proporcionada pelo encontro. Ele destacou o momento como uma ferramenta de empoderamento para a comunidade do terreiro, especialmente as crianças, que crescerão com o entendimento de que são descendentes de rainhas e reis.
Diante disso, a rainha dirigiu-se ao público:
— Toda vez que cada um de vocês olha no espelho, também vê um rei ou uma rainha. Eu sou somente quem usa a coroa.
Quem é Diambi Kabatusuila
Diambi Kabatusuila é líder do povo Bakwa Luntu, da região central de Kasaï, parte do antigo Império Luba, na República Democrática do Congo. Na tradição de sua cultura, ela é reconhecida como uma mulher-rei.
Desde a sua coroação, em 2016, ela tem percorrido diversos países, incluindo o Brasil, para promover a reconexão de africanos em diáspora com sua história e identidade.


