
O Rio Grande do Sul recebe, a partir desta sexta-feira (14), um evento de celebração a um lanche que tem o coração do gaúcho e já faz parte da culinária identitária do Estado: o xis. A paixão local, que se manifesta em festivais e disputas por títulos regionais, é confirmada por números, especialistas, empresários e pelo próprio público.
Via delivery, por exemplo, dados exclusivos do iFood a Zero Hora mostram que, nos últimos anos, houve uma tendência de aumento no consumo de xis no RS. Apesar de não disponibilizar os números brutos, a plataforma apontou que ocorreu um crescimento de 70% no consumo do lanche no Estado na comparação de janeiro a setembro de 2023 e o mesmo período de 2025. A elevação superou a procura por hamburguer, petisco considerado consagrado no aplicativo e que cresceu 37% no mesmo recorte temporal.
Nos espaços físicos, apesar da variedade e da busca por outros lanches, o xis se mantém como uma procura consolidada entre os clientes, conforme o setor empresarial.
— Nas casas grandes, que vendem xis, hambúrguer e outras opções, onde conseguimos comparar, o que se observa é que o xis continua sendo o favorito do gaúcho. Temos observado também um crescimento na parte de pastéis e até opções de rodízio. Mas o xis continua sendo o lanche oficial do Rio Grande do Sul, e nós somos reconhecidos lá fora por isso também — afirmou Leonardo Dorneles, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Rio Grande do Sul (Abrasel-RS).
Comida afetiva e local
Na avaliação de Francine Danigno, gestora de projetos de alimentos e bebidas do Sebrae-RS, isso ocorre porque os consumidores valorizam atualmente o que é mais tradicional e local.
— Isso já entra um pouquinho nas "megatrends", nas tendências futuristas, em que o que é artesanal, local, está muito em voga — analisa a especialista.
Também há quem tenha o tradicional sanduíche prensado como uma comida afetiva — aquela que desperta acolhimento e memórias emocionais, geralmente ligadas a momentos felizes ou com pessoas especiais.
É o caso da aposentada Ambrosina da Silva, 67 anos, que nutre o hábito de ir no mesmo xis, acompanhada de amigas e familiares, há pelo menos uma década. Segundo ela, isso já virou parte da rotina pessoal.
— Venho com a família. Às vezes com os filhos, com os netos. Fazemos um mesão e nos divertimos — conta.
Para a engenheira de produção Júlia Pierdona, 23 anos, o prato carrega consigo aconchego, apesar de apresentar menos variedade de sabores para públicos com dietas restritas.
— O xis tem uma conotação histórica e também de aconchego. Por ser gaúcha, acho que é uma questão de tradição. Mas eu percebo que o hambúrguer tem muito mais opção para vegetarianos. Eles inovam mais com sabores. Então, eu gosto mais de experimentar. Mesmo assim, acho que o xis sempre vai ter um lugar especial no coração dos gaúchos — diz.
Diferencial para atrair

O xis, que se popularizou no RS por volta dos anos 1970, é uma adaptação do cheeseburger americano, com ingredientes locais como alface, tomate e queijo, carregando o gosto do gaúcho. Em meados dos anos 2000, opções de lanches similares, como os hambúrgueres, passaram a se difundir no RS e competir com o prato, segundo Francine Danigno.
Com um mercado já consolidado e saturado, empreendedores recorreram a inovações e cardápios diferenciados para conquistar a clientela.
No bairro São Geraldo, na zona norte de Porto Alegre, o Xis Julio Paris notou essa necessidade logo que surgiu. A lancheria existente desde 2000 é conhecida por colocar cobertura de queijo nos lanches. Mesmo com 25 anos, o local ainda é procurado pelo público pelo xis distinto.
— Eles vêm aqui comigo por causa do xis com cobertura de queijo. Eles procuram muito isso, querem conhecer. O pessoal de fora, de tudo que é lado, de outras cidades, vem até aqui para conhecer, para ver como é que era esse xis — relata o proprietário Julio, 63 anos.

No caso do Gelson Lanches, que tem unidades nos bairros Tristeza, Menino Deus e Hípica, na Capital, a busca pelo diferencial aparece logo de cara: o xis é quadrado, tem cerca de 27 centímetros em cada lado e pode pesar mais de dois quilos. O lanche serve de duas a quatro pessoas.
— Tem que estar sempre inovando. Se tu parar no tempo com um cardápio pré-histórico ali, de xis triviais, que nem alguns lugares mantêm — e cada um sabe do seu negócio —, tu vai parar no tempo. A gurizada quer bastantão, quer lanche que acompanhe fritas, lanche gorduroso, cheddar, catupiry, quatro queijos — observou o sócio e proprietário, Cleison Guilherme Tolotti, 48 anos.
Xis rendeu hamburguerias
Assim como a proliferação das hamburguerias impactou, inicialmente, a comercialização de xis, parte do setor analisa um movimento contrário nos últimos anos: há a pressão da clientela para que hamburguerias incorporem o prato no cardápio.
— A febre das hamburguerias deu uma acalmada. Hoje, as marcas conhecidas surfam bem nessa antiga onda. O xis passou, na minha opinião, sem arranhões por esse "boom" das hamburguerias — avaliou Hélio Pacheco, 46 anos, sócio do Severo Garage.
Para atrair quem tem o xis como seu lanche favorito, a franquia, assim como outras empresas do setor, optou por incorporar a opção no menu há três anos. Recentemente, a rede também lançou a campanha "Xisar" para estimular o público, que ainda associa a marca apenas à produção e venda de hambúrgueres, a experimentar os xis da casa.
— Nós resolvemos apostar também nessa paixão dos gaúchos. A campanha nos mostrou que, realmente, o gaúcho gosta de xis. Além disso, também ficou claro que uma coisa não invalida a outra, ou seja, tem mercado para todos os gostos — ressaltou o empresário.





