
Tudo precisa estar em harmonia: os olhares, os sorrisos, o ritmo. Cada gesto é desenhado com precisão, como se o corpo fosse maestro de uma sinfonia que celebra o que é ser gaúcho. É assim que o CTG Rancho da Saudade, de Cachoeirinha, construiu uma das trajetórias mais vitoriosas do Enart.
— Se me dissessem lá atrás que nós venceríamos sete Enart. Para mim, era inimaginável. O sonho era ganhar uma vez. E, pela felicidade e muito trabalho, acabamos sendo sete — lembra Emerson Ribeiro, instrutor do grupo adulto.
A história dele com o CTG começa em 1992, quando o festival ainda era o Fegarte, em Farroupilha. Em 1994, Emerson viveu sua primeira experiência no palco e, em 1997, já em Santa Cruz, estreou como instrutor da Invernada Adulta — momento em que descobriu uma profissão.
— Mais vezes ficamos de fora da festa do que propriamente participamos. Mas trazer o vice-campeonato para Cachoeirinha foi surreal. Nem passava pela minha cabeça — diz o instrutor.
Em 1998, o grupo ficou novamente fora da final. Mas o futuro guardava algo maior: a virada veio em 2004, quando o Rancho da Saudade conquistou seu primeiro título e mudou a própria história.
— Foi o nosso primeiro título. Tínhamos uma base muito forte, e essa base embalou o Rancho nos anos seguintes — explica Emerson.
Dançarino do grupo, Tiago Boca também guarda boas memórias daquele período:
— A gente queria muito ficar entre os cinco primeiros. E quando começou a premiação, do quinto para o primeiro, o ginásio inteiro começou a gritar “Rancho” antes mesmo do anúncio. Isso eu vou guardar para sempre.
Para o patrão Adriano Cabral, o instante do anúncio do título é único:
— Parece que dá um silêncio total no ginásio. Quando tu ouve o nome, é o sentimento de trabalho alcançado.
Do tablado ao espetáculo

As danças gaúchas nasceram do cotidiano da lida campeira e das influências europeias, mas no Enart ganharam outro significado.
— Todas as danças foram resgatadas por Paixão Côrtes e Barbosa Lessa — explica Emerson. — E talvez a cereja do bolo sejam as coreografias. Na final em Santa Cruz, são 20 minutos, com três danças sorteadas e duas coreografias. Vira um grande espetáculo.
E espetáculo não faltou aos sete vezes campeões, que transformaram pesquisa, ensaio e paixão em arte. Entre os temas que consagraram o Rancho da Saudade, estão:
2012 – A lenda do Negrinho do Pastoreio ganha vida no palco.
2014 – Homenagem à primeira loja de discos de vinil de Porto Alegre.
2018 – Um resgate emocionante da chula nas coreografias.
2022 – A celebração dos 50 anos do Califórnia da Canção Nativa, no mais recente título.
A rotina por trás dessas conquistas é intensa, como descreve Tiago Boca:
— Acabamos de vir de 10 ensaios em 11 dias. Tem que ter muita paixão. É vocação. Mesmo afastado da dança um dia, isso vai me acompanhar para sempre.
Emerson confirma:
— A carga horária é elevadíssima. A Invernada ensaia praticamente um dia sim, um dia não. Às vezes, tu vê que alguém não está bem, mas o mental é muito forte.
A dançarina Lilean Campaneli resume o sentimento que move o grupo:
— É basicamente o amor. Um amor gigantesco, maior do que qualquer palavra consegue explicar.

