
Da batida do tambor às rimas do hip-hop, a cultura negra segue mostrando sua força e resistência. E é cada vez maior o número de projetos culturais que resgatam e dão voz à expressão, à memória e à identidade negra no Rio Grande do Sul.
Na segunda reportagem do Especial Raízes, no Mês da Consciência Negra, conheça dois deles: o Coletivo Bronx, em Porto Alegre, e o Centro Cultural Odara, em Pelotas.
Movimento cultural potente
Em 2016, dois jovens da periferia porto-alegrense decidiram que queriam mais do que tocar nas festas da cidade. Eles buscavam criar o próprio espaço – com liberdade para definir o som, a estética e, principalmente, trazer o protagonismo negro para a Capital. Com esta pegada nasceu o Coletivo Bronx, fundado por Clara Soares e Rhuan Santos.
— A gente queria um espaço que fosse produzido por nós, tivesse o nosso rosto, a nossa energia, com protagonismo preto e LGBT+, porque os eventos que existiam usavam a cultura negra, mas eram produzidos por pessoas brancas — relembra Clara.
O que começou como uma festa entre amigos se tornou um movimento cultural potente. Hoje, o coletivo promove workshops, palestras, rodas de conversa e festivais itinerantes, sempre ocupando novos espaços da cidade.
— O nosso coletivo é um espaço que dá oportunidade para artistas realmente iniciantes, que podem ter sua primeira oportunidade de tocar e performar no Bronx. Além de todo o movimento com o público, também é o ponto de partida para outros artistas, DJs e inspiração para outros produtores — destaca Clara.

Nas primeiras edições, o Coletivo vendia pulseiras de papel em frente à prefeitura de Porto Alegre. Não havia patrocínio nem plataformas digitais para vendas online. Tudo era feito à mão e, ainda assim, a cada evento o público crescia.
— As pessoas começaram a enxergar estar dentro do Bronx como um ato político, de forma natural, sem que a gente, de certa forma, precisasse impor isso — relembra Clara.
Com nove anos de atuação, o Bronx se consolidou como referência na cena cultural afro-gaúcha. O coletivo, que integrou por três anos a curadoria do Rap in Cena — um dos maiores festivais de hip-hop do país —, dá agora um novo passo.
Em comemoração à trajetória, o grupo realiza neste mês o Festival O Bronx 9 Anos, com 48 horas de cultura e música preta. Além de shows e DJs, o evento terá feiras, rodas de conversa e apresentações de dança, reunindo artistas locais e convidados do Rio de Janeiro.
Segundo os integrantes do Bronx, a busca por editais e políticas de incentivo têm sido uma das estratégias para fortalecer o coletivo.
— Com o edital Decola Hip-Hop, a gente fez um workshop na Escola Protásio Alves. Também realizamos um workshop de DJs, e teve tanta procura que vamos abrir uma segunda turma agora, durante o festival. As pessoas querem conhecer a cultura hip-hop, querem ter oportunidade de se inserir — conta Rhuan.
Para Mariana Ribeiro, produtora do grupo, a força do Bronx está na coletividade.
— Nada se faz sozinho. O Bronx mostra que é possível construir cultura e democratizar o acesso mesmo sem grandes recursos. Isso também é resistência — destaca. — Quando a gente vê, principalmente jovens pretos e periféricos, fazendo parte de algo tão grande, não só mudando a nossa vida, mas transformando todo um cenário cultural que promove democratização, pertencimento e empoderamento, isso nos impulsiona a seguir — acrescenta.
A diversidade é a parte mais importante do coletivo. As ações do Bronx buscam unir diferentes públicos em torno da arte e do respeito às diferenças. Clara reforça esse caráter inclusivo:
— O Bronx tem esse protagonismo preto e LGBT+, mas a nossa festa é para todo mundo, para quem respeita as diferenças, a cultura hip-hop, as questões de gênero e, acima de tudo, ama a música negra.
A resistência negra no sul gaúcho
Para além dos movimentos culturais que crescem em Porto Alegre, a resistência negra também está presente no sul do Estado. Em Pelotas, um dos movimentos mais potentes é o Centro Cultural Odara, que há 25 anos se tornou um dos principais espaços de valorização da cultura negra.
O coletivo nasceu do som do tambor, mais precisamente do sopapo, instrumento símbolo da cultura afro-gaúcha, e da vontade de manter viva a memória e a força ancestral que ecoam desse ritmo.
A história do Odara começa com o Festival Cabobu, realizado em 1999 e idealizado pelo músico, compositor e percussionista pelotense Giba Giba, figura essencial da cultura afro-gaúcha. Foi ele quem trouxe à tona a importância do tambor de sopapo e da identidade negra na região.
— Em 1999, o Giba queria dar visibilidade a essa herança e mostrar que Pelotas tem uma história afrodescendente potente, que precisa ser contada — relembra Maritza Flores, fundadora do Odara.
Naquela época, para abrir o festival, foi pensado em uma apresentação de dança, além de oficinas de ritmistas. Assim, nasceu o Odara, como um desdobramento desse movimento.
— No início, realizamos as oficinas dentro do Colégio Municipal Pelotense fazendo as oficinas de dança afro e oficinas de confecção do tambor de sopapo. Isso mexeu muito com toda uma comunidade — recorda Maritza.
Odara, em iorubá, significa beleza e encantamento. Vinte e cinco anos depois, essa é a essência que mantém o coletivo com projetos que unem cultura, educação e consciência racial. Um dos principais é o Odara na Escola 20 o Ano Inteiro, que vai percorrer quatro escolas da cidade ao longo de 2025.
Atualmente, o Odara desenvolve a partir de uma emenda parlamentar, uma formação pedagógica e cultural que começou em maio e segue até dezembro. As atividades ocorrem dentro do clube negro da cidade duas vezes por semana, com quatro turmas.
A iniciativa é voltada à formação étnico-racial, unindo dança, percussão e conteúdos teóricos sobre educação étnico-racial. Participam professores da rede básica, alunos das licenciaturas da Universidade Federal de Pelotas e fazedores de cultura da cidade.
Além disso, o Odara está na linha de frente da Marcha Sirley Amaro, que ocorre no dia 20 de novembro, em homenagem à ancestralidade e à luta do povo negro em Pelotas.
— Os nossos passos vêm de longe, de muitas lutas. Esse enfrentamento que temos hoje, vem de uma potência e de um trabalho anterior, que continua com a nossa intelectualidade negra. A vanguarda da escrita, da intelectualidade do Brasil é a intelectualidade negra. São os nossos escritores e escritoras pretos e pretas. E isso nos potencializa — afirma Maritza.
Priscila Couto, que participou como dançarina do Festival Cabobu quando pequena e hoje integra a equipe do Odara, reforça os ideias do movimento:
— Mais da metade da minha vida eu sou Odara. Com as nossas formações, queremos levar percussão, formação cultural e debates sobre identidade e ancestralidade para dentro dos espaços. É uma forma de fazer o 20 de Novembro acontecer todos os meses.
* Produção: Ana Júlia Santos





