Em Porto Alegre, a negritude tem se fortalecido por meio de ideias, negócios e movimentos que desafiam o apagamento e reafirmam a resistência negra. Para alguns empreendedores, criar um negócio significou mais do que abrir uma empresa: foi uma forma de se reconectar com seus ancestrais.
Foi assim com a angolana Elisa Mateus, 36 anos, formada em Geologia e fundadora do salão de beleza Tranças África, e com Luiz Roberto Bomfim Sampaio, 49 anos, formado em Direito e idealizador do Griô Burguer – dois empreendedores negros que, diante de desafios pessoais, sentiram a necessidade de criar espaços e devolver ao povo negro o protagonismo de suas próprias histórias.
Elisa veio para o Brasil ainda criança, aos 12 anos, acompanhando o pai, que havia recebido uma bolsa de estudos na UFRGS. Em Porto Alegre, aos 16 anos, teve a ideia de começar a fazer tranças.
— Não tínhamos nenhum dinheiro para investir no nosso negócio, mas tínhamos muita coragem. Pegamos um papelão, escrevemos “Faz-se tranças” e penduramos na parede da nossa casa. Compramos folha A4, dois marca-textos, laranja e amarelo, e fizemos os nossos cartões de visita, mesmo à mão — conta Elisa.
Com o aumento da clientela, o improviso dentro de casa logo se tornou inviável. Os atendimentos aconteciam no próprio quarto, e era comum ver uma cliente esperando na sala de estar enquanto outra era atendida.
A mãe de Elisa enxergou ali a oportunidade de abrir um salão afro. A ideia se concretizou com a abertura do estabelecimento em 2007, num contexto em que o cabelo crespo ainda enfrentava resistência e preconceito.
— Muitos apelidos pejorativos giravam em torno das tranças. O cabelo afro ainda não era tão bem aceito do jeito que é hoje. Então pensamos para que o nosso salão desse certo, teríamos que ensinar as mulheres negras aqui do Sul a gostarem do seu cabelo tanto quanto a gente gostava. Nosso trabalho sempre foi sobre reaprender a amar o cabelo, a textura e a identidade — relembra Elisa.
O Tranças África tornou-se um espaço de encontro e valorização da autoestima. Hoje, além de comandar o salão, Elisa ministra cursos e lançou uma linha própria de cosméticos desenvolvida especialmente para cabelos trançados e cacheados.
— Nossos produtos são feitos por nós e para nós. É um ato de amor e de reparação — ressalta Elisa.
No sabor da ancestralidade
Assim como as tranças entrelaçam histórias, a Griô Burguer também nasceu para reunir memórias e reafirmar identidades. Luiz Roberto Bomfim Sampaio deixou a estabilidade do serviço público para seguir um sonho ancestral:
— A ideia do Griô veio de uma inquietude. Queria usar minha bagagem de vida para construir um lugar onde o povo negro fosse protagonista. O nome veio como algo ancestral e divino. Representa muito da nossa cultura e da nossa força.
"Griô" é um termo que se refere aos contadores de histórias africanas, guardiões da memória coletiva. No cardápio, os hambúrgueres levam nomes de personalidades negras – de Mandela a Dandara, de Mahin a Malcolm X –, como forma de homenagear quem abriu os caminhos.
Mas o simbolismo vai além do menu. O ambiente foi pensado para acolher o corpo e a identidade negra: nas paredes, fotografias e referências à cultura afro-brasileira; na trilha sonora, uma mistura de samba, rap e sons africanos; nas conversas, debates sobre cultura, política e ancestralidade.
— As conexões, a gente coloca a nossa expertise, o nosso espaço, sempre à disposição de diversos coletivos, pesquisadores, pessoas que estão fazendo a sua transformação, e a gente coloca isso num panelão, num caldeirão, para que se transforme em algo coletivo — completa Luiz.
Entre as tranças que cruzam gerações e os sabores que contam histórias, há um ponto em comum: o desejo de resgatar e celebrar a ancestralidade negra com orgulho.
Elisa e o fundador do Griô são parte de uma geração de empreendedores que não apenas abrem portas, mas reconstruíram pontes com o passado.
Cada trançado, cada receita, cada gesto é também um lembrete: a resistência é viva, bela e coletiva.

