
Esta reportagem foi produzida por Manuela Martins, aluna de Jornalismo na PUCRS e uma dos cinco vencedoras da edição 2025 do projeto Primeira Pauta RBS
Sentada em uma cadeira vermelha, em uma sala com paredes cobertas por espelhos, Pamela Scarlett troca o par de tênis por saltos altos. Da mochila, retira um batom da mesma cor que o esmalte de suas unhas: vermelho.
Aproxima-se do próprio reflexo, abre a tampa do objeto e o desliza lentamente pelos lábios, que agora se tingem de uma cor intensa, viva – fazendo jus ao seu segundo nome. Pamela Scarlett Vanigli Flem é uma mulher trans de 30 anos e, desde 2016, se prepara para fazer uma cirurgia de afirmação de gênero.
Gaúcha de Porto Alegre, Pamela trabalha na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) e quer cursar Ciências Sociais. Nascida surda, se comunica por meio da Língua Brasileira de Sinais. Desde criança, sentia que algo dentro dela pedia para nascer. Havia um incômodo, um silêncio duplo: o da surdez e de um corpo que não acompanhava seus pensamentos.
Na infância, faltavam sinais para compreender o que sentia. O acesso à informação chegou tarde, e o silêncio ao redor gerou dúvidas.
— Lembro de um dia em que eu estava com a minha avó, e eu perguntei: "Vó, por que meu corpo não é igual ao das minhas primas? E ao da minha mãe também?". Eu tinha nove anos quando fiz essa pergunta, e ela não soube o que me responder. Eu era pequena ainda, mas ali comecei a entender que meu corpo não estava de acordo com a minha cabeça — lembra Pamela.
Em 2016, ela estava com depressão, vivendo um dos períodos mais difíceis da sua vida. Foi nas sessões de terapia que uma esperança surgiu. A psicóloga percebeu algo que Pamela ainda não conseguia nomear: sua identidade era feminina. A profissional lhe apresentou o PROTIG, Programa Transdisciplinar de Identidade de Gênero do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, referência nacional no atendimento a pessoas trans.
Ela entrou para a fila no mesmo ano e esperou quatro anos até ser chamada. Quando esse momento chegou, em 2020, a pandemia interrompeu o sonho. Foram mais quatro anos de espera até conseguir retomar o processo, em 2024. Desde então, Pamela voltou aos atendimentos com a equipe do Clínicas. Segue na fila, sem data marcada para a cirurgia de afirmação de gênero.
— Já estou esperando há oito anos. É muito tempo. Dá ansiedade, muitas emoções misturadas. Quero muito essa liberdade — desabafa.
No Hospital de Clínicas, o PROTIG oferece um acompanhamento multiprofissional a pessoas trans que buscam acolhimento, escuta e reconhecimento não apenas do gênero, mas da própria existência. Da primeira consulta à cirurgia, em média o processo no Clínicas leva de cinco a seis anos. Coordenadora do programa, a psiquiatra Maria Inês Lobato explica que o tratamento não pode dar margem para arrependimento.
— Ninguém pode se arrepender de operar ou de iniciar a hormonização. Por isso, atendemos um subgrupo de pessoas que desejam a transição cirúrgica e precisam ter uma visão realista sobre o que esperar — conta Maria.
Segundo o urologista Patric Machado Tavares, a cirurgia é apenas uma das etapas.
— O Ministério da Saúde estabelece critérios por portaria. É preciso ter pelo menos 21 anos, um ano de acompanhamento psicológico e clínico, estar em transição hormonal e não apresentar contraindicações médicas ou psiquiátricas. Mas o mais importante é compreender o que é sucesso — explica Patric.
Não é só a genitália. É a possibilidade de a pessoa viver em paz com o próprio corpo
PATRIC MACHADO TAVARES
Urologista do Hospital de Clínicas
A poucos metros do Clínicas, a professora Alê Primo dá aulas no curso de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande Do Sul (UFRGS). Aos 56 anos, ela viveu a transição de gênero de outra forma. Alê não associa sua liberdade à cirurgia de afirmação de gênero.

— A redesignação é uma decisão séria e um sonho para muitas pessoas. Pessoalmente, me sinto completa com as cirurgias estéticas que fiz. É como uma mulher cis que coloca ou retira silicone: busca bem-estar. Há quem diga que mudar o corpo é “ir contra o que Deus criou”. Mas todos nós somos ciborgues, usamos próteses dentárias, obturações, óculos. Tudo isso são modificações — diz Alê.
Ela iniciou a transição aos 51 anos, em meio à pandemia. Entre o fim de um casamento e o confinamento, o mundo parou de forma brusca.
— A gente vive reclamando de burnout e tudo. E aí, de repente, de uma hora pra outra, dá uma freada. Se o carro vem a cem por hora e dá uma freada, por inércia tu segue, e por isso que pode dar um acidente. E a nossa vida deu uma freada muito brusca.
O acidente, no caso de Alê, foi interno. O corpo e a identidade, antes contidos por convenções, colidiram com a vontade de existir de verdade. Foi nesse momento que ela procurou uma psicóloga especializada em gênero, e ouviu algo que nunca esqueceu: “A tua transição é uma questão de saúde mental”.
— Aquilo me assustou. Nunca pensei em ouvir. Mas ela disse: “Se tu não transicionar, isso vai te fazer muito mal. Já está te fazendo mal, e vai piorar" — relembra Alê.
Depois de cinco décadas vivendo como um homem branco de 1m84cm de altura, de classe média, professor universitário e com muitos privilégios, Alê começou sua transição. Ainda na pandemia, ela encaminhou um e-mail para todos os seus colegas de trabalho com o título “Sou trans”. Todos responderam com afeto e compreensão.
Hoje, Alê enxerga o processo como um renascimento. Depois de transicionar, ela tatuou em seu pulso direito duas borboletas.
— A borboleta representa a transformação. No início, ainda com o cabelo curto, usei a metáfora do casulo. A lagarta é feia, dá medo. Mas todo mundo ama a borboleta. E a transição é isso: uma metamorfose. Mas a borboleta não é completamente diferente da lagarta. Ela é borboleta porque foi lagarta. Então, eu não acho que nasci no corpo errado. Nasci no corpo certo — afirma.
Pamela e Alê caminham por estradas diferentes, mas buscam o mesmo horizonte: o de existir com plenitude. Para Alê, a liberdade já floresceu. Para Pamela, ainda está se desenhando — mas cada consulta, cada conversa e cada batom vermelho são pequenos ensaios de um recomeço.
— A primeira coisa que vou fazer após a cirurgia é ir à praia de biquini, algo que hoje não me sinto confortável em usar — suspira Pamela, com a paciência de quem constrói a si mesma todos os dias.


