
Em meio à conectividade, a telas por todos os lados e à informação constante, há jovens que vão atrás de objetos comuns de décadas atrás — ou melhor, até do século passado.
Uma pesquisa feita nos Estados Unidos, em 2023, mostrou que 60% dos entrevistados da geração Z (com até 26 anos à época) gostariam de voltar a um tempo em que todos não estavam conectados, sem acesso generalizado a redes sociais e smartphones, por exemplo.
Esse resultado é destacado pelo psicólogo social Clay Routledge, especializado em nostalgia. Como escreveu em artigo ao The New York Times: isso significa que esses jovens gostariam de voltar a um tempo em que, na maior parte, sequer existiam. Ou seja, é uma nostalgia por algo que nem viveram de fato.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a geração Z parece ter uma visão positiva sobre a vida online.
O que motiva esse retorno ao passado?
Para o professor de Administração Leonardo Nicolao, especializado em marketing e comportamento do consumidor, a tendência à retomada de produtos analógicos e simples tem se dado não só entre os jovens. No entanto, a existência desse comportamento entre consumidores tão novos chama a atenção, já que muitos não lembram da experiência de ouvir músicas em vinil ou usar câmeras antigas, por exemplo.
Na avaliação do especialista, as explicações vão para além da nostalgia. Ele menciona aspectos como:
- resposta à sobrecarga digital, ou seja, a procura de um "alívio" fora do celular e do consumo online
- desejo por autenticidade
- busca por consumo mais intencional, com maior significado e propósito, o que gera maior engajamento dos diferentes sentidos e experiência mais presente
- sensação de ser dono de algo material, capaz de expressar os gostos da pessoa
- reenquadramento e a reaceitação da cultura geek ou nerd
Zero Hora entrevistou três jovens da geração Z (que se refere aos nascidos aproximadamente entre 1995 e 2010), a fim de entender o que os leva até a nostalgia pelo analógico.
"Teria me divertido se eu tivesse nascido nessa época"

A costureira Amanda Mendonça, 26 anos, formada em Design de Moda, enxerga tudo como uma questão de equilíbrio. É o gostar de coisas do passado ao mesmo tempo em que tem as do presente. Apesar disso, ela não nega que sente uma nostalgia por uma época anterior à da sua própria vida.
— Sempre penso: "Nossa, acho que eu teria me divertido se eu tivesse nascido nessa época (risos). Eu teria me divertido bastante". Então eu sinto uma nostalgia muito grande pensando em como eu seria naquele tempo. Sei lá, anos 1980, anos 1990 em si, antes de eu nascer — afirma.
Ela lembra que, desde criança, gostava de ver fotos impressas, por exemplo. Quando cresceu, decidiu investir em câmeras polaroid e analógica.
— Quando eu tiro a foto, eu não sei se saiu boa, se saiu bonita, se a luz está legal. Eu tiro na expectativa de um dia revelar e ela estar bonita. É essa expectativa que me gera uma coisa muito boa, da espera, de vir uma coisa legal para mim — explica.
Discos de vinil também estão na coletânea dela, assim como CDs, de uma época mais digital — isso porque ela tem lembranças dos pais rodeados por discos, CDs e fitas em casa.
A paixão pelo retrô se estendeu à decoração e às roupas. Ela e a mãe, inclusive, já montaram um brechó online, incluindo peças vintage. Aliás, Amanda brinca que é apaixonada por "coisas de vó": roupas, porcelanas ou que mais tiver essa estética.
Como um ritual
Uma casa cheia de livros, discos e principalmente CDs guarda as memórias da jornalista Paola De Bettio, 25 anos. Ela conta que, do pai, já falecido, herdou "uns 200 CDs". Além de afeto, esses itens são envoltos por uma sensação de conforto:
— Acho que, no geral, todas essas coisas analógicas estão muito relacionadas como um ritual. No mundo em que vivemos, quase tudo que fazemos é baseado em tela, ou a tela do celular, ou a tela do computador. Ouvir música, ver TV, ver um filme, uma série, tirar fotos, tudo é feito num único aparelho. E acho que a nossa geração tem buscado, cada vez mais, essas coisas que produzem essa espécie de ritual.
Os álbuns de fotos tiradas pelo pai a fizeram adquirir um gosto a mais pela estética dos anos 1990. O hábito de fotografar com câmera analógica tornou-se também uma forma de se aproximar dele.
— Acho que sempre fui uma pessoa meio nostálgica e que isso acabou se agravando, com certeza, pela história da minha vida, pelo fato também de ter perdido meu pai muito cedo e essas coisas todas estarem sempre muito presentes na vida dele. Então, de alguma forma, essa nostalgia é uma nostalgia em relação à vida dele — destaca.
Apesar do apreço por um mundo que pouco conhecia o digital, Paola diz ser usuária frequente das redes sociais e da internet, não abandonando as facilidades que a tecnologia lhe dá no cotidiano.
"Eu não queria ter vivido nos anos 90"

Já na casa do estudante de Engenharia de Produção Pedro Fayet Lorenzon Vecchi, 23 anos, o retrô ganha vida em jogos de tabuleiro. O jovem explica que a parte tátil dos componentes e a visão que é possível ter da mesa estão entre os pontos que o atraem para o formato físico. Mas o principal está na interação com as pessoas:
— Quando tu está num videogame ou computador, tu está perto da internet, tu pode acessar o celular ou outra coisa. Então, tu está ali, mas não 100%.
Pedro também gosta de histórias em quadrinhos. As publicações físicas chamam mais a atenção pela possibilidade de manuseio, pelo cheiro do papel e pelo tamanho adequado para leitura. Ele reforça: a publicação é melhor consumida na forma em que foi pensada para ser consumida.
O estudante conta que esses interesses surgiram desde a infância, com incentivo do pai, que é dono de editora de livros.
É com os irmãos de 17 e 22 anos e com a irmã de 10 anos que Pedro costuma jogar, ou ainda com grupos de amigos.
Ainda que nutra um gosto por esse mundo mais físico, Pedro diz não sentir nostalgia por uma época anterior a de sua geração.
— O Chat GPT é maravilhoso. Eu adoro a internet, principalmente essa parte de informação. É muito bom ter acesso a filmes, séries ou quadrinhos digitais, é muito prático poder ler no celular porque tu pode estar numa fila de banco e daí abre ali e consegue ler um capítulo, é muito prático. Eu não queria ter vivido nos anos 1990, não — conclui.
O apreço pelas máquinas de escrever
Do outro lado da busca por itens mais analógicos, estão profissionais como o pelotense Cláudio Ben-Hur de Arruda. Aos 81 anos, ele diz ser um dos poucos profissionais ainda em atividade na restauração de máquinas de escrever. Após 60 anos na área, ele mantém a rotina, por amor e para complemento da renda, mesmo após a aposentadoria.
Ele conta que o setor perdeu espaço com o avanço da tecnologia. Ainda assim, ressalta que muitos dos clientes são jovens, principalmente estudantes universitários.
— Eu tenho um sobrinho, por exemplo, que ele adora (máquinas de escrever). Esses jovens são muito educados. Muitos gostam de ter a máquina no escritório, ali do lado do computador, como parte da decoração. Já fiz algumas que ficaram impecáveis — relata.
Para o restaurador, uma das maiores satisfações da vida é o reconhecimento dos clientes:
— Eu adoro pegar uma máquina toda feia e deixar ela novinha. Quando o dono vem buscar e vê o resultado, dá uma satisfação. Eu não sou vaidoso, mas nessas horas a gente fica orgulhoso.
Ben-Hur iniciou a carreira na antiga agência da Olivetti, em Pelotas, em 1963.
— Eu trabalhava antes em uma firma de pneus, nada a ver com o ramo. Fui admitido num sábado de manhã e logo me mandaram para São Paulo, para fazer um curso. Eu não conhecia nem Porto Alegre ainda — lembra.
O primeiro curso durou 45 dias. Depois, vieram outros treinamentos em São Paulo, voltados a máquinas somadoras e calculadoras mecânicas. Trabalhou em Montenegro, como subgerente da Olivetti, e, anos mais tarde, abriu uma pequena empresa em Pelotas com o irmão, dentro da área. O negócio foi fechado há 18 anos, com a possibilidade de falência.
Ben-Hur não possui mais uma oficina, mas continua atendendo clientes, em ritmo mais calmo. Mesmo sem a demanda de outros tempos e com ferramentas e peças de reposição cada vez mais escassas, o pelotense segue garantindo que as máquinas continuem em funcionamento.



