
Kasley Killam é especialista em saúde social, conceito cunhado por ela que diz respeito à importância das relações para a saúde e o bem-estar das pessoas. Psicóloga e cientista social, com mestrado em Saúde Pública pela Universidade Harvard, ela foi duas vezes palestrante no TED Talks e colabora com o jornal The New York Times.
A pesquisadora canadense atua como consultora de empresas e tornou-se reconhecida globalmente por sua liderança inovadora em saúde social. Ela já colaborou com organizações como a Google, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA e o Fórum Econômico Mundial. Como consultora, busca contribuir para a construção de comunidades e ambientes de trabalho mais saudáveis do ponto de vista social.
Recentemente, Kasley esteve em Porto Alegre para participar do CongregaRH 2025, um dos maiores eventos de gestão e pessoas do Sul do Brasil, realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Ela concedeu a seguinte entrevista exclusiva a Zero Hora.
Leia a entrevista com Kasley Killam após o vídeo:
Você fala muito sobre saúde social. O que é esse conceito e qual é sua importância?
A saúde social é a dimensão da nossa saúde e do nosso bem-estar que vem da conexão. Se pensarmos na saúde física como algo relacionado ao corpo e na saúde mental como algo relacionado à mente, a saúde social está vinculada às nossas relações.
O meu trabalho busca disseminar esse conceito e ajudar as pessoas a compreenderem que a saúde social é tão importante quanto a nossa saúde física e mental, mesmo que não tenha recebido o reconhecimento que merece.
E qual a relação entre saúde social e saúde pública?
No mestrado na Escola de Saúde Pública de Harvard, investiguei soluções para a solidão por meio dessas lentes. Porque sabemos que a solidão é, realmente, uma crise de saúde pública. É muito comum em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil.
Há estatísticas que mostram que um em cada dois brasileiros se sente solitário regularmente, e isso tem consequências graves para a saúde. Pessoas que estão cronicamente isoladas ou solitárias correm um risco maior de desenvolver doenças. A solidão também está associada à mortalidade precoce.
Meu foco é analisar como podemos melhorar a saúde social e capacitar os indivíduos a serem mais saudáveis socialmente. E também criar as condições para a saúde social.
É aí que entra a perspectiva da saúde pública, porque precisamos reconhecer que um indivíduo é influenciado por muito mais do que apenas os seus comportamentos e atitudes, mas também pelo mundo à sua volta. Podemos criar uma sociedade mais saudável socialmente, influenciando a nossa tecnologia, o nosso sistema de saúde, a nossa educação e os nossos locais de trabalho.

Você tem falado muito sobre essa questão da tecnologia. Quais são os efeitos do uso de redes sociais na saúde social?
As redes sociais podem desencadear sentimentos de solidão. É muito fácil cair na armadilha de passar horas navegando no celular em vez de se conectar de forma significativa com as pessoas. Também estou preocupada com o uso da inteligência artificial. Pessoas no mundo todo estão recorrendo à IA para ter companhia e tratando esses sistemas como amigos, como companheiros.
Eu sou uma das muitas pessoas que defendem o uso da IA, mas que seja usada de formas que realmente apoiem as relações humanas. Me preocupa que as pessoas sintam que não têm as relações que desejam no mundo real e, por isso, recorram à IA por desespero e solidão. Então, não se trata apenas de ajudar pessoas, mas sim de criar condições para que as pessoas não se sintam assim e prevenir.
Pessoas que estão cronicamente isoladas ou solitárias correm um risco maior de desenvolver doenças.
KASLEY KILLAM
Cientista social
Como seria um uso mais adequado da IA, na sua visão?
Tenho abordado o uso da IA sob a perspectiva de um semáforo, que pode ter luz vermelha, amarela e verde.
A luz verde é quando usamos a IA para apoiar a conexão humana, por exemplo. Nesse sentido, podemos usar a IA para nos comunicarmos.
O semáforo amarelo é quando recorremos à IA como fonte de suporte emocional. Ela pode ser uma das fontes. Se temos amigos, familiares, colegas de trabalho e outras pessoas com quem temos relacionamentos e podemos contar, e a IA é mais uma dessas formas de suporte, isso é um sinal amarelo.
O sinal vermelho é quando a IA é usada para substituir a conexão humana. Quando a tecnologia representa a única fonte de suporte emocional para uma pessoa, ou quando é sua principal companhia, isso é muito perigoso. É aí que precisamos ter cuidado e entender o que está por trás disso, o que leva a pessoa a ter esse comportamento.
Enquanto indivíduos, o que podemos fazer para melhorar a saúde social?
Tem muitas coisas que podemos fazer. Eu criei uma diretriz que chamo de 5-3-1, esse é um bom caminho. É uma regra que estabelece que devemos tentar interagir com pelo menos cinco pessoas diferentes por semana, e desenvolver pelo menos três relações próximas. E devemos dedicar uma hora por dia a conexões significativas. Esse princípio é inspirado em pesquisas e em pessoas que estão prosperando por meio de conexões, para ajudar a melhorar a quantidade e a qualidade das nossas conexões.
O sinal vermelho é quando a IA é usada para substituir a conexão humana.
KASLEY KILLAM
Cientista social
Essa lógica pode ser incorporada ao ambiente de trabalho?
Podemos criar um ambiente de trabalho mais saudável socialmente criando uma cultura de comunidade.
Uma nova pesquisa publicada neste ano revelou que equipes que têm muitos rituais em conjunto — como atividades para quebrar o gelo no início das reuniões, um processo formal de integração ou uma reunião após o lançamento de um projeto — ficam mais comprometidas e engajadas. Elas acabam sendo mais eficazes no trabalho e mais felizes em suas funções. Portanto, a depender do contexto da empresa, é possível pensar em rituais e práticas conjuntas que criem um senso de comunidade nas equipes.
E como sociedade, quais são as soluções possíveis para melhorar a saúde social?
Em primeiro lugar, todos nós precisamos reconhecer que a conexão é fundamental para a nossa saúde, para a nossa felicidade, para a nossa longevidade, mas também é o propósito de estarmos vivos.
As relações trazem significado e propósito para o nosso dia a dia. E isso significa que precisamos priorizar a saúde social. Então, primeiro é preciso reconhecer isso e decidir que a saúde social é uma prioridade para mim no meu dia a dia, nas comunidades das quais faço parte, no meu trabalho, na minha escola, onde quer que seja.
E, então, é realmente necessária uma ação coletiva. É preciso que líderes de todos os setores incorporem a saúde social no trabalho que fazem, nos produtos que criam, mas também nas equipes que lideram. Assim, gradualmente, quando agirmos coletivamente dessa forma, começaremos a ver mudanças.



