
A Portela vai atravessar a Marquês de Sapucaí na madrugada desta segunda-feira (16) com um samba-enredo que homenageia a religiosidade, a cultura e a resistência negra no Rio Grande do Sul. O entoar escolhido por uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro é assinado por Valtinho Botafogo.
O desfile na avenida terá como tema O mistério do Príncipe Bará: a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande. A narrativa conta a história do Príncipe Custódio, africano que aportou em Porto Alegre no século 19 e se tornou uma referência religiosa, cultural e política.
Com o verso "Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar", o samba é assinado em parceria com os compositores Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena.
Vindo do Benin, na África, Custódio Joaquim Almeida viveu em Porto Alegre no início do século 20. Referência cultural e religiosa não apenas para a comunidade negra, mas também para líderes políticos locais, foi um dos mais excêntricos e influentes personagens de seu tempo.
Em Porto Alegre, registra-se que viveu uma vida cercada de luxo. Vestia-se de modo refinado, tinha cavalos no prestigiado Prado Independência, embrião do Jockey Club, e recebia a alcunha de "príncipe" por seus ares de nobreza. Mas sua imponência foi muito além do campo material.
O príncipe negro foi o responsável por deixar assentamentos de orixás, ou seja, pontos que representam a ligação da realidade com forças sobrenaturais, em Porto Alegre. O mais conhecido é o do Bará do Mercado Público, no centro da Capital.
Em entrevista a Zero Hora, a historiadora Fernanda Oliveira, professora do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS, que assina o enredo da Portela para o Carnaval 2026 ao lado de três profissionais da agremiação azul e branco, detalhou os bastidores da criação do samba-enredo.
Ela destacou que oPríncipe teve papel fundamental na unificação do batuque, agregando as culturas das nações africanas existentes na época. Para a pesquisadora, a escolha pelo personagem revela um Rio Grande do Sul plural.
— Custódio foi o responsável por fazer do batuque, antes visto de forma pejorativa, uma religião organizada. Ele incentiva a população a se apropriar dessa alcunha de "batuqueiro" e passa a promover a cura através da religião — disse.
