
O mundo deveria ter acabado no início desta semana. Pelo menos segundo a previsão do pastor sul-africano Joshua Mhlakela, que disse ter recebido uma revelação em um sonho: na virada de 23 para 24 de setembro, Jesus retornaria para o chamado "arrebatamento".
A data foi anunciada em um vídeo no YouTube e, em poucos dias, se transformou em uma avalanche de postagens no TikTok. A teoria ganhou força especialmente em grupos evangélicos dos Estados Unidos, da África e da Índia, onde circularam vídeos de despedida, simulações de trombetas e até conselhos sobre como se preparar para o fim do mundo.
Nesta sexta-feira (26), a Terra continua em órbita, sem sinais de nuvens se abrindo ou de cavalos do Apocalipse cruzando os céus. Mas o episódio reacendeu uma velha curiosidade: afinal, o que é esse arrebatamento que tantas vezes ressurge como prenúncio do fim dos tempos?
Entenda a teoria do "Arrebatamento"
No vídeo, publicado no canal do YouTube CettwinzTV, o pastor sul-africano Joshua Mhlakela afirmou ter tido uma revelação divina em sonho: Jesus estaria prestes a retornar para o arrebatamento, evento em que os fiéis seriam levados aos céus, vivos ou mortos, para se encontrar com Cristo. Publicado em junho, o conteúdo já soma mais de 600 mil visualizações.
A ideia de "arrebatamento" circula há séculos entre algumas vertentes do cristianismo. O termo vem de uma passagem da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses (4:16-17), no Novo Testamento, em que o apóstolo descreve que os fiéis seriam "arrebatados nas nuvens ao encontro do Senhor nos ares".
— Esse tipo de previsão sempre existiu na história, mas precisa ser entendida no contexto. Paulo escreveu em um tempo de perseguição, em cartas muitas vezes redigidas na prisão. Era uma forma de consolo, de metáfora para dar esperança diante das dificuldades — explica Edison Hüttner, professor do programa de pós-graduação em Teologia e História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
— O arrebatamento é um fenômeno escatológico, ou seja, ligado ao "fim dos tempos" e à ideia de vida após a morte. É uma tradição antiga, desde São Paulo, mas sempre reinterpretada — detalha Hüttner.
Na interpretação de grupos evangélicos protestantes, esse seria o momento em que Jesus Cristo voltaria para levar consigo os que acreditam nele, vivos e mortos.

É daí que vem a imagem de pessoas desaparecendo de repente da Terra, deixando para trás aqueles que não seriam salvos. A interpretação também muda de religião para religião.
— Os católicos, por exemplo, não acreditam no arrebatamento dessa forma. Ninguém sabe o momento da vinda de Cristo. Podemos entender esse tipo de profecia, assim como Paulo, como uma metáfora: o desejo de que não existam mais guerras, invasões, crianças morrendo. Não necessariamente como uma previsão literal — acrescenta.
A narrativa ganhou força no século 19, com o teólogo John Nelson Darby, e depois se popularizou nos Estados Unidos, especialmente por meio da Bíblia de Scofield e, mais tarde, da série de livros e filmes Deixados para Trás. Para os fiéis, esse arrebatamento seria apenas o início de um período ainda mais turbulento: sete anos de tribulação, a ascensão do Anticristo e, por fim, a batalha final do Armagedom.
Por que esse tipo de fenômeno viraliza?
Do medo do ano 1000 ao bug do milênio e ao calendário maia em 2012, cada geração já conviveu com datas marcadas para o apocalipse. Em comum, quase sempre há um pano de fundo de crise, guerras ou catástrofes que alimentam a imaginação coletiva. Com as redes sociais, esse ciclo ganhou intensidade na circulação.
— O que faz esse tipo de conteúdo se espalhar é o choque, o espanto. As pessoas compartilham muitas vezes não por acreditar, mas porque é curioso, chama atenção e garante visibilidade dentro da rede — observa Maria Clara Aquino, professora da Escola da Indústria Criativa da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pesquisadora do Laboratório de Investigação do Ciberacontecimento.
O resultado é um ciclo em que medo, curiosidade e humor se misturam, impulsionando profecias que, embora nunca se confirmem, continuam conquistando novas plateias.
Redes sociais alimentam narrativas
Se em outros tempos o anúncio do fim do mundo podia circular de boca em boca ou pelas páginas de folhetos religiosos, hoje ele se propaga em vídeos de poucos segundos. O TikTok, em especial, se transformou em um palco para a multiplicação desse tipo de narrativas, como as profecias religiosas.
Na plataforma, usuários não apenas reproduziram a fala do pastor sul-africano que dizia ter recebido a revelação em sonho. Também criaram versões próprias: mensagens de despedida, simulações de trombetas celestiais e até roteiros de sobrevivência para os que "ficariam na Terra". Para Maria Clara, o fenômeno é típico da lógica das plataformas digitais.
— Da mesma forma que o jornalismo sensacionalista cria títulos apelativos, as redes exploram elementos que despertam curiosidade, muitas vezes até a violência. Isso gera conversação, comentários. E não é um comportamento novo, já existia antes das redes sociais. O que acontece hoje é que ele ganha um alcance muito maior, porque as pessoas compartilham e isso acaba circulando em outros ambientes — afirma Maria Clara Aquino.
Além disso, ela destaca que o papel dos algoritmos é de catalisador: quanto mais interações recebe, mais o conteúdo é entregue a novos públicos, reforçando o ciclo:
— O algoritmo vai aprendendo, na verdade, "emburrecendo" com esse tipo de comportamento. Ele dá prioridade ao que gera mais engajamento, e isso acaba deixando temas mais importantes com menos visibilidade.
— Até porque, por ser um tema que envolve religião, há mais probabilidade de muitas pessoas se envolverem. Compartilham, fazem esse conteúdo circular. O algoritmo entende que tu quer aquilo, mesmo que talvez não queiras. E hoje temos TikTok, Instagram, Twitter, ferramentas que entregam conteúdos que reforçam determinadas bolhas e fazem com que tu não vejas outras coisas — acrescenta.
Mundo já "acabou" outras vezes
A cada geração, não faltam datas marcadas para o fim. No ano 1000, interpretações de evangelhos apócrifos alimentaram a crença de que toda a cristandade chegaria ao fim com o novo milênio. Já em 1666, a peste e o incêndio que devastaram Londres reforçaram a superstição em torno do número da besta.
No século 19, uma fraude envolvendo uma galinha que teria botado ovos supostamente gravados com a frase "Cristo está chegando" espalhou pânico na Inglaterra. Em 1910, foi a vez da cauda do clássico cometa Halley: cientistas temiam que o gás tóxico cianeto pudesse envenenar a atmosfera terrestre.
O século 20 também trouxe seus "apocalipses": o bug do milênio mobilizou governos e empresas na virada para 2000, com temores de quedas de aviões e explosões nucleares. Em 2008, a estreia do acelerador de partículas LHC foi acusada de poder gerar buracos negros.
Em uma das mais recentes, em 2012, o calendário maia alimentou previsões catastróficas, a ponto de virar filme em Hollywood, interpretado por John Cusack. A teoria afirmava que o mundo iria acabar em 21 de dezembro daquele ano. No fim, foi apenas mais um dia como qualquer outro.
Afinal, o mundo vai acabar?

Do ponto de vista bíblico, a resposta é um mistério. A expectativa do fim sempre existiu, mas não há calendário possível para cravar quando e se ele ocorrerá.
— Ver essa ideia de arrebatamento apenas como uma verdade absoluta pode alimentar fanatismos e extremismos. Se um próximo arrebatamento anunciado não acontecer, como já ocorreu em outras vezes, é interessante observar qual será a reação de quem fez a profecia. Esses ciclos de previsão e frustração também fazem parte da história do cristianismo — opina Edison Hüttner.
Na leitura dos especialistas, o que se vê hoje é menos uma contagem regressiva para o fim do mundo e mais um reflexo de como a sociedade lida com crises. Guerras, mudanças climáticas e frustrações econômicas tornam o terreno fértil para interpretações apocalípticas, e as redes sociais ajudam justamente a amplificar esse cenário.
— É uma mistura da disputa pelo domínio da narrativa. Tem quem acredite de fato e recircule o conteúdo por convicção. E tem quem compartilhe pela piada. Mas, no fim, ambos ajudam a dar força para a mesma história — avalia Maria Clara.
Relembre outros momentos em que o mundo quase "acabou"
- Ano 1000: interpretações de evangelhos apócrifos levaram fiéis a acreditar que a cristandade teria prazo de validade.
- 1666: a peste e o grande incêndio de Londres alimentaram o pavor do "número da besta", o 666. O fogo destruiu 80% da cidade, mas não trouxe o apocalipse.
- 1806: uma galinha em Leeds, na Inglaterra, teria botado ovos com a inscrição "Cristo está chegando". Era uma farsa de Mary Bateman, que reinseria ovos com a frase escrita.
- 1910: a cauda do cometa Halley continha cianeto, e houve temor de envenenamento da atmosfera.
- 2000: o bug do milênio gerou pânico sobre falhas em computadores, com medo de queda de aviões e até de explosões nucleares.
- 2008: um acelerador de partículas LHC, em Genebra, foi acusado de criar buracos negros capazes de engolir o planeta.
- 2012: o calendário maia inspirou previsões de apocalipse em 21 de dezembro. Virou até filme de Hollywood.
- 2017: teorias em sites conspiratórios diziam que o "Planeta X" ou "Nibiru" colidiria com a Terra. A Nasa precisou publicar notas para desmentir.




