
Virar noites diante do computador, metas inalcançáveis e chefes que confundem gestão com pressão. Essa é a realidade de muitos ambientes de trabalho que causam adoecimento. O assunto também é recorrente nas redes sociais, em relatos e debates que expõem a insatisfação e a sobrecarga de uma rotina considerada tóxica.
A psicóloga Janine Kieling Monteiro, professora dos programas de pós-graduação em Psicologia e Enfermagem da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), explica que a exposição prolongada a esse cenário pode desencadear problemas sérios de saúde.
— O sofrimento causado por um ambiente de trabalho tóxico pode levar, aos poucos, a um adoecimento mental. Isso significa que, a partir da convivência nesse tipo de ambiente, a pessoa pode acabar desenvolvendo quadros clínicos graves — afirma.
Segundo um levantamento do Infojobs, de 2024, 90% dos profissionais brasileiros já cogitaram deixar o emprego por motivos ligados à saúde mental, satisfação ou felicidade no trabalho.
Apenas no Rio Grande do Sul, foram 37.004 afastamentos do trabalho por saúde mental em 2024, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social.
Quando o trabalho adoece
A experiência da administradora Ana Paula Ramazzini ajuda a traduzir um pouco dessas estatísticas. Enquanto trabalhava em um banco, enfrentou sobrecarga em meio a mudanças organizacionais em uma nova função.
— Aconteceu comigo por volta de 2014, 2015. Na época, eu trabalhava em uma área de operações e tive um adoecimento. O período me levou a um afastamento, com acompanhamento psiquiátrico e psicológico — relata.
Prazos que avançam pela madrugada, reuniões sem objetivo claro, gestores que confundem cobrança com repressão e colegas que competem em vez de colaborar, são alguns dos sinais de que você está num ambiente tóxico.
Para a psicóloga Denise Milk, especialista em cultura organizacional, a raiz do adoecimento está no descompasso entre o que se exige e o que o trabalhador consegue entregar.
— Quando há sobrecarga de demandas acima do que é viável, em termos de recursos comportamentais, físicos e de carga horária, ocorre desgaste emocional e estresse, que impactam na produtividade do profissional e nos resultados da empresa — explica.
Liderança e "cultura familiar"
Gestores com posturas repressoras, que não valorizam o esforço dos colegas, criam, segundo Denise, um perfil de "líder da era industrial", marcado pelo controle rígido e pela pouca abertura ao diálogo.
— Acolhimento e apoio dos colegas e lideranças fortalecem a motivação. Quando isso não existe, a pessoa fica mais exposta às dificuldades do dia a dia — observa.
Outro ponto de alerta é a chamada "cultura familiar". A promessa de união, em alguns casos, pode acabar resumindo a vida do funcionário à empresa.
— Existem empresas familiares saudáveis, em que as pessoas se sentem bem e têm oportunidade de crescer. Mas há casos em que a patologia da família é transferida para a empresa e o ambiente também fica adoecido — pontua.
Assim, algumas tendências de trabalho servem de alerta:
- Exigências desproporcionais em relação à capacidade de entrega
- Metas inalcançáveis e jornadas que se estendem constantemente
- Falta de autonomia ou de espaço para diálogo
- Assédio moral ou sexual, explícito ou velado
- Clima organizacional frágil, sem apoio de colegas e líderes
Os sinais que o corpo e a mente dão
Os sinais de um ambiente de trabalho nocivo não aparecem apenas no corpo, embora esse seja, muitas vezes, o primeiro alerta. Insônia, dores de cabeça e cansaço que não passa são alguns dos sinais que surgem previamente. Se não tratados, podem ampliar para ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. Veja alguns sintomas:
Se não forem reconhecidos e tratados, esses sinais podem evoluir para quadros clínicos mais graves.
— Hoje em dia não se separa mais tanto uma coisa da outra. Muitas vezes, os sintomas que surgem são chamados de psicosomáticos, porque envolvem tanto o corpo quanto a mente. As consequências atingem também a família, com conflitos e dificuldades de convivência. E, no trabalho, refletem em mais licenças, faltas e perda de sentido em relação ao que se faz — observa Janine.
Ana Paula conta que viveu esse processo na prática.
— As coisas começaram a tomar uma proporção adoecida quando o corpo passou a dar sinais: cansaço extremo, perda de sono, dores de cabeça mais intensas, náuseas, vômito. Eu deitava e não conseguia dormir sem antes escrever tudo o que tinha que fazer no dia seguinte— relata.
Burnout em alta
A síndrome de burnout é um distúrbio psíquico reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e está diretamente ligada ao trabalho.
Ela se caracteriza por um estado de exaustão física e mental resultante de situações prolongadas de estresse no ambiente profissional.
Em 2024, quase 500 mil trabalhadores formais se afastaram do emprego por adoecimento psicológico.
— O burnout está relacionado a um conflito com o trabalho. A pessoa passa a ter sentimentos ruins diante de tudo que envolve a esfera profissional. O cansaço é marcante: mesmo dormindo ou descansando, ela não recupera a energia. Aparecem alterações de sono, humor, apetite e, em seguida, queda na entrega, até que não consegue mais permanecer no ambiente profissional — descreve Denise Milk.

A experiência de quem viveu o burnout ajuda a mostrar o impacto dele na prática. Ana Paula relata:
— Quem está adoecendo até percebe, mas não para. Não se sente merecedor de parar, porque acha que deve continuar. Tu fica paralisada, perde completamente a noção do que está fazendo, não entende onde está, o que está acontecendo.
Principais sintomas do burnout
- Cansaço extremo e persistente
- Alterações de sono (insônia ou excesso de sono)
- Mudanças de humor e irritabilidade
- Alterações no apetite
- Queda de produtividade e dificuldade de concentração
- Perda de interesse pelo trabalho
- Sensação de incapacidade ou inutilidade
Cobrança ou assédio?
Metas e avaliações fazem parte da rotina de qualquer ambiente de trabalho. O limite, segundo as especialistas, está na forma como essas cobranças são conduzidas e em como os conflitos são administrados.
— Exigências profissionais, críticas e avaliações fazem parte do trabalho. Isso não caracteriza assédio, a não ser que sejam feitas de forma vexatória, discriminatória ou para inferiorizar. O assédio se diferencia pela repetição e pelo caráter sistemático. Vale lembrar, porém, que o assédio sexual pode acontecer uma única vez e, ainda assim, ser considerado assédio — explica Janine.
Ela destaca ainda que divergências de opinião fazem parte do ambiente corporativo, mas a ausência de espaço para diálogo e a incapacidade de líderes em mediar conflitos podem agravar os problemas.
Por sua vez, a psicóloga Denise Milk reforça a necessidade de impor limites:
— No trabalho, precisamos estabelecer limites confortáveis e coerentes com o propósito da nossa história e da nossa caminhada. Só assim evitamos ser engolidos por culturas organizacionais adoecidas.
Onde buscar ajuda?
Reconhecer os sinais é o primeiro passo. A reação adequada, segundo especialistas, começa pelo cuidado individual.
— Psicólogos e psiquiatras avaliam a gravidade e definem os encaminhamentos. O profissional que expressa dificuldade precisa ser assistido em relação à saúde mental — orienta Denise.
Mas é válido ressaltar que essa responsabilidade não deve recair apenas sobre o trabalhador.
— Ideal é que haja relação saudável entre líder e liderado, permitindo partilha de dificuldades. Mas, quando o líder é o problema, é fundamental recorrer ao RH. Muitas empresas já têm ouvidoria ou canais de notificação de condutas inadequadas. As que não têm, precisam criar urgentemente — acrescenta.

Para Janine, muitas vezes os profissionais permanecem em ambientes nocivos por necessidade ou pela crença de que "toda empresa é assim".
— Esse tipo de cultura precisa ser enfrentado. E a mudança deve vir tanto de cima (da gestão e de lideranças) quanto entre colegas — pontua.
Por fim, a profissional recorda que a pandemia escancarou também a discussão sobre o direito à desconexão.
Isso porque, com o home office, alguns limites se perderam e muitos trabalhadores passaram a ser acionados fora do horário de trabalho, em feriados ou até em férias.
— Isso trouxe uma sobrecarga ainda maior, especialmente para mulheres, que acumulavam cuidados da casa e da família com o trabalho. Hoje, garantir momentos de descanso e vida fora do ambiente profissional é uma necessidade de saúde mental — ressalta Janine.
O que diz a lei
A Constituição Federal assegura que todo trabalhador tem direito de exercer suas funções em condições que preservem a saúde física e mental.
— A nossa Carta Magna estabelece claramente que o trabalhador tem assegurado o direito à diminuição dos perigos relacionados à sua atividade profissional através de regulamentações sanitárias e de segurança — afirma Raimar Rodrigues Machado, conselheiro estadual e presidente da Comissão da Advocacia Trabalhista da OAB/RS.
Uma das situações mais comuns em um ambiente tóxico de trabalho é o abuso psicológico, que, segundo ele, é mais frequente do que se imagina. Entre os exemplos mais comuns estão:
- Afastar intencionalmente alguém das atividades coletivas
- Distribuir tarefas de forma desproporcional
- Promover avaliações destrutivas constantes
- Ridicularizar colegas diante de outros
Além da proteção constitucional, citada por Raimar, a legislação também passou por mudanças recentes:
- NR-1: atualizada em 2024, com vigência a partir de 26 de maio de 2025, determinou que todas as empresas devem incluir riscos psicossociais em seus programas de prevenção.
- Lei nº 14.831/2024: criou o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, concedido a organizações que adotam políticas efetivas de promoção do bem-estar dos colaboradores.
- Lei nº 14.457/2022: modificou a antiga Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Assédio (CIPA) para incluir a prevenção do abuso. Empresas são obrigadas a oferecer canais de denúncia, realizar capacitações anuais sobre igualdade e diversidade e estabelecer diretrizes claras de conduta
Raimar recomenda ainda que trabalhadores documentem datas, mensagens e testemunhas, busquem apoio psicológico e utilizem canais internos da empresa.
Se não houver resposta, o caminho é recorrer ao sindicato, ao Ministério Público do Trabalho (MPT) ou à Justiça do Trabalho.
— Nenhum trabalhador precisa aceitar passivamente um ambiente que prejudique sua dignidade ou saúde. A legislação brasileira oferece um conjunto robusto de proteções — reforça.
O temor de represálias, destaca o advogado, é compreensível, mas a lei prevê salvaguardas. Hoje já é possível buscar estabilidade provisória em caso de afastamento por problemas de saúde relacionados ao abuso, contar com proteção de órgãos como o próprio MPT e sindicatos ou solicitar rescisão indireta, se houver retaliação direta.
Como se preparar para pedir demissão
Sair de um emprego tóxico nem sempre é uma decisão simples. Para além das questões emocionais e de saúde, há outro fator que pesa muito: a segurança financeira.
— O primeiro ponto para que a gente possa ter liberdade de escolha, para viabilizar essa transição de um ambiente que não está fazendo bem, é começar a se organizar financeiramente — explica planejadora financeira Fernanda.
Segundo ela, a recomendação é construir uma reserva que cubra de seis meses a um ano de gastos básicos, dependendo da perspectiva de recolocação.
— Quanto maior o nível de estresse, maior a chance de buscar compensação nas compras. Isso aumenta a probabilidade de dívidas sem planejamento e de dificuldade em poupar — destaca Fernanda.
Quem tem uma renda menor ou até mesmo instável pode criar uma reserva, ainda que pequena. A dica, nestes casos, é definir uma meta mensal factível: 5%, 7% ou 10% da renda, e aproveitar os meses melhores para guardar um valor maior.
— O essencial é criar o hábito de poupar na maioria dos meses, mesmo que em pequenas quantias. Esse movimento faz diferença lá na frente e dá condições de enfrentar uma transição com menos riscos — finaliza.




