
O Rio Grande do Sul vai atravessar a Marquês de Sapucaí. Não com uma delegação de sambistas, mas com sua própria história contada pela Portela, a mais tradicional escola de samba do Rio de Janeiro que, na madrugada desta segunda-feira (16), levará à avenida as especificidades da cultura negra do Estado.
Parte do que será visto na passarela do samba vem dos saberes de uma gaúcha: a historiadora Fernanda Oliveira, professora do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS, que assina o enredo da Portela para o Carnaval 2026.
A narrativa que chegará à Sapucaí – O mistério do Príncipe Bará: a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande – tem como eixo principal a história do Príncipe Custódio, africano que aportou em Porto Alegre no século XIX e se tornou uma referência religiosa, cultural e política.
O personagem será apresentado como símbolo da fé e da resistência do povo afro-gaúcho, amarrando-se a outras figuras históricas que revelam um Rio Grande do Sul plural, diferente da imagem homogênea que se projeta sobre o Estado.
— A Portela tem o compromisso de não abordar a história negra somente pela perspectiva da dor, e o que queremos é levar para a avenida a complexidade do que é ser afro-gaúcho — diz Fernanda.
A historiadora assina o enredo ao lado de três profissionais da azul e branco – João Vitor Silveira, Marcelo David Macedo e o carnavalesco André Rodrigues. Segundo ela, a equipe almeja não só transformar a imagem que o restante do país tem sobre o RS, mas oferecer à população negra do Estado uma representação do que é ser gaúcho a partir de um corpo preto.
— Os negros do Rio Grande do Sul não abrem mão da sua identidade regional, mesmo que o gauchismo historicamente tenha negado a participação do nosso povo. O nosso esforço será para devolver à população afro-gaúcha esse direito à representação — reflete a professora da UFRGS.
Apresento o que é fundamental para a representação da população negra gaúcha, aquilo que faz sentido para nós, e eles transformam em arte.
FERNANDA OLIVEIRA
Historiadora e professora da UFRGS
Em entrevista a Zero Hora, Fernanda detalha como se deu o convite para integrar a equipe da Portela e revela os bastidores da criação do enredo. Ela explica, ainda, a importância do Príncipe Custódio para a história do Rio Grande do Sul, enquanto reflete sobre o apagamento das contribuições negras no Estado.
A historiadora também comenta a polêmica em torno do apoio financeiro do Governo do RS ao Carnaval da Portela. Em junho de 2025, o Palácio Piratini comunicou que investiria no desenvolvimento do enredo a partir de um acordo de parceria institucional formalizado por meio da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH). O anúncio do aporte foi alvo de críticas e gerou pressão política, o que levou o governador a declinar da decisão.
— Vejo com muita tristeza esse episódio, pois o considero uma manifestação do mesmo racismo que a Portela está tentando desconstruir — resume a autora do enredo.

Confira a entrevista completa com Fernanda Oliveira
Como ocorreu o convite para você assinar o enredo da Portela?
Eles já vinham com um projeto de descentralizar narrativas, fugindo do eixo Sudeste e Nordeste. Nesse mapeamento, chegaram ao Rio Grande do Sul. A escola entrou em contato com o setor cultural do Estado, e fui convidada a participar do processo. A Portela organizou uma reunião com historiadores que pesquisam os diferentes grupos étnicos do RS para que cada um apresentasse a história e as características desses grupos à equipe do carnavalesco André Rodrigues. Foi uma conversa rápida, na qual falei sobre a experiência negra, buscando uma conexão com as outras culturas que formam o Estado.
Dois dias depois, o André me mandou uma mensagem pedindo para aprofundar o assunto, pois havia gostado do que ouviu. Ele me disse: "Olha, você falou por cinco minutos e nós decidimos que esse seria o enredo. Topa vir com a gente nessa aventura?". Eu aceitei, mas imaginava que seria uma espécie de consultora histórica, uma vez que não estou inserida no meio carnavalesco. Porém, o André me convidou para assinar o enredo com eles, o que foi uma grande e bonita surpresa.
Entendi como um reconhecimento generoso, já que a Portela é uma escola tradicional e com uma equipe própria de enredistas. Desde então, tem sido um exercício muito bonito de repensar a história e a imagem que foi construída sobre o Rio Grande do Sul, buscando sempre uma representação que não violente ninguém.
O enredo é descrito como uma narrativa fantástica que amarra a figura do Príncipe Custódio a outros elementos da cultura afro-gaúcha. Como tem sido para você, como historiadora, equilibrar a pesquisa histórica com a ludicidade que o carnaval permite e exige?
Tem sido um desafio. O meu trabalho tem sido esse exercício de negociação: eu apresento o que é próprio da ciência histórica, aquilo que tem compromisso com as fontes documentais e de memória, e nós vamos negociando o que é possível entre a história e a arte, que é o que comanda a narrativa carnavalesca. Porém, existem elementos que nós, historiadores, consideramos inegociáveis na narrativa. Um desses elementos é a singularidade do batuque gaúcho, muito diferente do candomblé, de onde vem a maior parte das referências da equipe da Portela.
O que nos mantém em confluência é o projeto maior que a escola tem de descentralizar as narrativas sobre as experiências negras no Brasil. Há um compromisso com o real, mesmo que ele seja transformado em uma narrativa fantástica. A escola traz as ideias artísticas e eu analiso, converso com outros especialistas – porque não sou detentora de todo o saber –, e dou um retorno aos colegas. Digamos que eu apresento o que é fundamental para a representação da população negra gaúcha, aquilo que faz sentido para nós, e eles transformam em arte.
Uma comitiva da Portela veio ao Rio Grande do Sul para uma imersão. Você acompanhou essas visitas? O que mais surpreendeu ou impactou a equipe a respeito da cultura afro-gaúcha?
O que mais os surpreendeu foi, efetivamente, a existência de uma cultura afro-gaúcha. O primeiro grande impacto foi a descoberta das especificidades do batuque. Fomos na casa do Pai Alfredo de Xangô, uma liderança muito respeitada, e o carnavalesco perguntou qual era a diferença entre o batuque e o candomblé. Pai Alfredo, que é tamboreiro, mostrou as diferenças que existem no próprio batuque, com os toques de cada nação que compõe a religião. Depois, fomos ao terreiro do Bába Diba de Iyemonjá, e o carnavalesco chegou à conclusão de que o batuque é muito diferente, que não dá para tomar o candomblé como referência. Toda a equipe percebeu que estavam entrando em um universo singular, com outras saudações, rituais e denominações.
Um segundo grande impacto, mais recente, ocorreu durante o Acampamento Farroupilha. A Squel, lendária porta-bandeira da Portela, foi ao Parque Harmonia e me disse: "Eu nunca imaginei que chegaria no RS e veria essa quantidade de gente preta circulando por todos os lugares". Ela ficou surpresa ao ver que as pessoas negras não estão apenas nos terreiros, que elas fazem parte da cultura gaúcha e participam ativamente de eventos como o Acampamento Farroupilha. Tem sido muito bonito vê-los descobrindo esse Rio Grande do Sul plural, diferente da narrativa única que a mídia muitas vezes projeta.
Hoje, nós também já vemos CTGs incluindo representações da cultura negra em suas apresentações no Enart, o que não ocorria há anos. Ou seja, a historiografia vem mudando essas narrativas, que já começam a ser incorporadas pela sociedade.
FERNANDA OLIVEIRA
Historiadora e professora da UFRGS
O enredo tem no Príncipe Custódio um eixo importante. Poderia explicar quem ele foi e por que é um personagem representativo da história negra do Estado?
Custódio é um africano que chega ao RS por volta de 1870 como um homem negro livre e jovem. Isso é especial, porque a maioria dos africanos que chegavam aqui nessa época, além de serem escravizados, já tinham mais idade. Ele entra no Brasil por Salvador e depois chega ao RS, vindo se estabelecer em Porto Alegre. Não é possível afirmar que ele seja filho de um rei ou membro direto de uma realeza, mas sabemos que vem de uma linhagem africana aristocrata.
É provável que ele tenha recebido a alcunha de "príncipe" por conta do grande conhecimento que tinha sobre a cura de doenças, apesar de jovem. Outra possibilidade é a sua participação em irmandades religiosas como a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Negros, que tinha cargos de rei, rainha e príncipe. Mas o fato é que ele foi reconhecido como um príncipe pela população de Porto Alegre e teve um papel fundamental na unificação do batuque, agregando as culturas das nações africanas que existiam aqui.
Custódio foi o responsável por fazer do batuque, antes visto de forma pejorativa, uma religião organizada. Ele incentiva a população a se apropriar dessa alcunha de "batuqueiro" e passa a promover a cura através da religião. Isso faz com que ele conquiste enorme influência, inclusive com lideranças políticas como Júlio de Castilhos. Ele morreu em 1935, e seu cortejo fúnebre foi noticiado nos jornais da época pela grande presença de pessoas, o que demonstra sua importância para a sociedade gaúcha. A partir de sua morte, começam a surgir as lendas, e sua figura se torna um símbolo de resistência e defesa do batuque.

A Portela tem tradição de conectar enredos históricos ao presente. De que forma as histórias do Príncipe Custódio e de outras figuras que serão abordadas, como o Negrinho do Pastoreio, estão ligadas ao que o povo afro-gaúcho vive hoje?
A ideia é pensar essas histórias como um ciclo que se reinicia na sociedade gaúcha atual, olhando para as possibilidades de vida da nossa juventude negra, que é potente e está produzindo coisas maravilhosas.
O setor mais contemporâneo do desfile começa nos anos 1970, com a fundação do Grupo Palmares, em Porto Alegre, e a criação do 20 de novembro como Dia da Consciência Negra – uma data que muitos desconhecem ter nascido aqui. O enredo chega à atualidade quando o orixá Bará, que foi assentado no Mercado Público de Porto Alegre pelo Príncipe Custódio, entrega a chave dos caminhos ao Negrinho do Pastoreio, para que ele possa viver a sua vida sem se esconder ou ser escondido.
Com essa simbologia, a Portela quer dissipar a névoa que cobre as experiências negras no sul do Brasil. O objetivo é conectar esses elementos para refletir sobre um futuro de vida para a juventude negra, não de morte. É olhar para as nossas crianças a partir de figuras que, no passado, também se preocuparam com elas.
Destinar recursos a um Carnaval que aborda a história negra do Estado seria uma forma de combater o racismo e mostrar que somos um povo bem mais plural do que a narrativa única que construíram sobre nós.
FERNANDA OLIVEIRA
Historiadora e professora da UFRGS
Temos muitos desses personagens negros históricos que, apesar de importantes, são pouco difundidos no Rio Grande do Sul. Por que as contribuições negras são negligenciadas pela historiografia oficial do Estado?
A resposta mais direta é o racismo estrutural que atravessa o Brasil. O país nega a construção feita por grupos racializados, como indígenas e negros, e isso se reflete em todas as áreas, incluindo a produção de conhecimento. Historicamente, o poder de escrever a história esteve concentrado em mãos brancas. Com a entrada de estudantes negros nas universidades, através do Sistema de Cotas, isso felizmente está mudando. As cotas alteraram as perguntas que são feitas em sala de aula e o olhar que se constrói sobre a história.
Até os anos 1980, por exemplo, a ideia dominante era que a escravidão não havia sido forte no Rio Grande do Sul. Hoje, considerando todo o conhecimento que construímos sobre o que foram as charqueadas e a própria Revolução Farroupilha, parece absurdo pensar isso. Hoje, nós também já vemos CTGs incluindo representações da cultura negra em suas apresentações no Enart, o que não ocorria há anos atrás. Ou seja, a historiografia vem mudando essas narrativas, que já começam a ser incorporadas pela sociedade.
Ainda assim, há uma elite que se incomoda com a valorização das trajetórias negras, e o conflito existe. Lidamos com um racismo intenso, que se manifesta no apagamento das nossas contribuições históricas. Há uma narrativa falsa, mas dominante, de que o Rio Grande do Sul foi construído apenas por imigrantes europeus. Isso apaga a presença de todos os outros povos que já estavam aqui e foram fundamentais para a construção do Estado. A nossa luta não é para negar a importância de nenhum grupo, mas para reconhecer a complexidade e a pluralidade da nossa história.
A sinopse do enredo fala em combater, justamente, essa imagem equivocada que o Brasil tem do Rio Grande do Sul. Vocês projetam que, a partir do desfile, será construída uma nova versão do Estado?
Não tenho dúvidas. A Marquês de Sapucaí é o maior palco de enunciação que existe, pois o Carnaval é a maior festa do mundo. Nossa segurança vem do fato de que as fantasias e todos os elementos estão sendo construídos a partir de uma narrativa de presença negra no Rio Grande do Sul. O desfile vai comunicar visualmente uma história de protagonismo e resistência que o restante do país desconhece. Nossa expectativa é que ele seja forte o suficiente para pluralizar a visão que se tem sobre o Rio Grande do Sul.
Ele (Custódio) foi reconhecido como um príncipe pela população de Porto Alegre e teve um papel fundamental na unificação do batuque, agregando as culturas das nações africanas que existiam aqui.
FERNANDA OLIVEIRA
Historiadora e professora da UFRGS
Um elemento da história negra do RS é a religiosidade de matriz africana. Não somente pela existência do batuque, mas também por sermos o Estado com a maior proporção de praticantes dessas religiões no país. Qual papel a fé teve e ainda tem para as experiências negras no Estado?
É um papel incontornável. Quando olhamos para a história, vemos que a fé possibilitou a existência dos negros como membros de uma sociedade. Eram nas festas religiosas que os negros saíam às ruas e experimentavam possibilidades de liberdade. Essa fé também é um ponto de encontro com o outro, pois a maior parte dos praticantes do batuque não são pessoas negras.
No entanto, todos os batuqueiros sofrem com o racismo religioso, porque o que o motiva é a origem negra da religião. Se as pessoas saem para a rua com os seus paramentos, as suas roupas de santo e as suas guias expostas, elas sofrem racismo religioso, ainda que sejam brancas. Então, a religião também é um elo que une experiências de pretos e brancos no Rio Grande do Sul. O nosso desafio é levar essa unidade para fora dos terreiros. A religião oferece a receita de uma convivência plural, que a sociedade do entorno ainda relega.
O Carnaval, além de festa, é uma manifestação identitária do povo negro. Como você percebe a relação do Rio Grande do Sul com essa expressão?
A relação é intensa. O Carnaval não nasce como uma festa negra, mas os negros foram se apropriando dele. A partir dos anos 1930, quando as grandes sociedades da elite branca se afastaram do Carnaval por conta de crises econômicas, os negros ocuparam as ruas com os seus cortejos. Desde então, o Carnaval ganhou essa identidade. Na década de 1940, com o surgimento das escolas de samba, ele se tornou uma festa negra por excelência.
O RS tem uma tradição muito forte nesse sentido. O Carnaval de Pelotas, nos anos 1980, foi considerado o terceiro maior do país. Esse cenário mudou porque não houve investimento no Carnaval, que precisa de dinheiro para existir.
O Carnaval do Rio de Janeiro é suntuoso porque há um investimento igualmente suntuoso por parte da prefeitura. Vale frisar que investir no Carnaval é responsabilidade dos governos locais, porque as pessoas confundem quem patrocina o quê. No RS, ainda que haja pouco investimento das prefeituras, o Carnaval se mantém constante e pulsante. A comunidade que o faz é muito forte, por isso ele resiste e desenvolve inúmeros projetos, contornando as adversidades.
O Carnaval nunca foi só uma festa: é o trabalho de muitas pessoas, movimenta a economia e oferece possibilidades reais de futuro para as crianças e os jovens da periferia, que encontram nos projetos sociais das escolas de samba oportunidades de formação artística.

Houve recentemente uma polêmica em torno do apoio financeiro do Governo do RS ao Carnaval da Portela. O governador anunciou um aporte de recursos para o desfile, mas após o acirramento de um debate focado nos custos, ele declinou. Como você enxerga esse episódio? E como ele foi recebido pela equipe responsável pelo enredo?
Para mim, o aporte seria natural, pois o Carnaval será uma grande vitrine para o Estado, poderia incentivar o turismo e a economia. Além disso, esse aporte possibilitaria que os gaúchos participassem do desfile da Portela, o que faria dele uma manifestação efetiva da presença negra no RS. Esse era o desejo da Portela: levar a população para o desfile, ter lideranças do batuque passando pela Sapucaí, ter os jovens negros gaúchos construindo junto esse Carnaval. Naturalmente, a Portela recebeu a notícia dessa negativa com surpresa, mas ela nunca deixou de fazer o seu Carnaval. A escola seguirá buscando outros recursos e certamente fará um desfile memorável.
O que eu acho triste, como gaúcha, é nós deixarmos de participar disso por uma motivação rasa. O que explica a decisão é o racismo persistente e a falta de letramento político das pessoas sobre como a distribuição dos recursos públicos funciona. Verbas de cultura, saúde e educação são distintas; não se tira de uma área para colocar na outra. O governo não deixaria de investir na reconstrução pós-enchente para destinar dinheiro à Portela, por exemplo.
Enfim, é lastimável que a leitura que se faz sobre os investimentos públicos seja tão rasa. O RS já apoiou financeiramente enredos que abordaram outros aspectos da cultura gaúcha e não houve a mesma polêmica. Destinar recursos a um Carnaval que aborda a história negra do Estado seria uma forma de combater o racismo e mostrar que somos um povo bem mais plural do que a narrativa única que construíram sobre nós.





