
Caminhar pelas ruas centrais de Gramado, na Serra, é estar em contato com vários pedacinhos do Brasil — e, com sorte, de outros países também. A cidade conta, anualmente, com uma média de 8 milhões de turistas, vindos de diversos lugares. Isso gera um grande encontro de sotaques.
Paulistas e gaúchos já são públicos conhecidos e formam maioria dos visitantes — no período do Festival de Cinema de Gramado, representaram, respectivamente, 28% e 23% das reservas, segundo o Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes da Serra Gaúcha (SindTur). Entretanto, um público vindo de regiões mais quentes quer provar como é viver com temperaturas baixas, podendo vestir casacos grossos, botas e toucas.
Demonstrando este interesse, a família Domingos deixou os 24ºC de Pernambuco – temperatura média do Estado em agosto – para se aventurar no frio gaúcho pela oitava vez. É o destino preferido do trio formado por Nelson, 36, contador; Amanda, 35, empresária; e Bento, oito, estudante.
— Vir para Gramado é como viajar para fora do país — diz Amanda. — Nenhum outro lugar tem tantas coisas diferentes para você conhecer.
Nelson compartilha a visão da esposa sobre as muitas atrações oferecidas:
— Se você passar 10 dias aqui, você não repete nada durante os 10 dias — complementa. — Além disso, o clima da cidade é ótimo, o pessoal é hospitaleiro. A nossa atração favorita é o frio. Como a gente está no Nordeste, com muito calor, a gente vem para, realmente, pegar o frio.
De Ferrari aos parques
A carioca Raquel Andrade Lourenço, 38, empreendedora, o esposo André Mattos, 42, motorista de equipamento pesado, e mais um grupo de amigos decidiram encarar a gelada Gramado. Compraram roupas quentes para a aventura, visto que, no Rio de Janeiro, é considerado frio quando os termômetros batem 23ºC. No dia da entrevista, na cidade gaúcha, fazia 5ºC.
— As minhas mãos estão congelando — brinca Raquel, mesmo com luvas. — Nós nunca andamos com touca, luva, cachecol, calça térmica. Vamos voltar e essas roupas vão ficar guardadas (risos).
André, por sua vez, estava encantado com uma Ferrari estacionada em frente ao Palácio dos Festivais. Fez fotos e vídeos para guardar e mostrar para os amigos no retorno da viagem. Mas, além do carro, estava entusiasmado com a cidade como um todo:
— Tem muita beleza, a cidade é muito chique, limpa, organizada. E isso é muito bom. Apesar de ser surreal o frio, tudo é muito agradável, as pessoas são educadas. Você se sente bem.
O casal escolheu Gramado devido ao impacto nas redes sociais, visto que ambos viam muitas fotos de amigos curtindo a serra gaúcha. Também levaram em conta os custos. Para a dupla, os preços eram aceitáveis para que pudessem passar alguns dias turistando — quatro, no total.
Mesmo com o pé lesionado, utilizando uma bota ortopédica, devido a um acidente de moto em terras cariocas, Raquel estava empolgada para esquiar no Snowland:
— Vou descer na neve nem que seja sentada (risos).
De manta do Galo
Fazendo fotos ao lado do termômetro que fica no terreno da Paróquia São Pedro estava o casal mineiro Vicente Ferreira de Oliveira, 57, bancário aposentado, e Maria Luíza Oliveira, 53, dona de casa, com uma temperatura próxima do 0ºC e esfregando as mãos, a dupla foi questionada pela reportagem se estava "encarangada".
— O que é isso? (risos) — questionou Vicente.
— É quando você vai se encolhendo, de frio — respondeu Maria Luíza, demonstrando conhecimento do vocabulário gaúcho.
O bancário aposentado estava com uma touca na cabeça, para se proteger do frio, e com uma manta do Atlético-MG enrolada no pescoço — a peça não era do agrado da esposa, que queria esconder o item para a hora da foto.
— Estou adorando tudo. Na verdade, a ideia de vir foi minha, porque eu queria conhecer Gramado. Aqui, é totalmente diferente da minha cidade. Tem uma arquitetura lindíssima — conta Maria Luíza.
— É tudo diferente, tudo muito bonito. Esse estilo europeu chama muito atenção. E existe uma organização enorme. O trânsito é sem sinal. Fui dirigir aqui ontem e tive que entender como funciona. Mas deu tudo certo. Queremos voltar, agora, em um mês mais quente, para visitar as vinícolas com as parreiras cheias — diz Vicente.
A famosa neve
O redator Ítalo Passos, 31, acompanhado de amigos e familiares, viajou para Gramado no final de julho de 2021. No segundo dos cinco dias em que o grupo ficaria na cidade, veio a neve — mesmo sob desconfiança dos moradores de Caucaia, no Ceará.
— Quando chegamos em Gramado, estava bem frio, ventando bastante. A previsão era de que iria nevar no dia seguinte, mas a gente não estava botando fé de que seria muita neve. E, então, no segundo dia, começou a cair uns flocos à tarde, no finalzinho da tarde. Achamos que seria só aquilo. Só que, um pouco mais tarde, a gente foi dar um rolê no centro de Gramado e começou a nevar muito, a ponto da rua ficar branca — relata Ítalo.
Ítalo lembra que achou Gramado uma cidade simpática, pensada para receber os turistas, tentando entregar uma experiência "europeia" dentro do Brasil. O que melhorou a estadia, já privilegiada com a neve, foram os valores das refeições. Para ele, os preços foram acessíveis, o que permitiu que atingisse seu principal objetivo na Serra: se esbaldar na culinária local.
— Pensei que seria tudo muito caro, mas não. Existem locais bem acessíveis e com comida excelente. Visitamos os principais pontos da cidade, vimos a neve, demos vários checks na nossa lista, mas o que mais fizemos em Gramado, foi comer e comer, porque a comida é, realmente, é muito boa.





