
— Pela segunda metade do século 19, os tropeiros tinham como ponto de pouso a região do centro da cidade de hoje. E tinha um vasto gramado, amplo, onde eles repousavam. Essa área, então, começou a ser conhecida como "o Gramado" — conta o historiador Wanderley Cavalcante, sobre uma das hipóteses da origem do nome da cidade da serra gaúcha.
Historicamente, os tropeiros estavam à frente de futuros processos de ocupação e de povoamento, destaca Cavalcante. Eles desbravaram a região que, antes, fora habitada pelos indígenas caingangues. Tempos depois, a localidade receberia imigrantes italianos e alemães como moradores.
Neste processo, começa a história dos Augsten, que se instalaram na área antes da criação do município — que só foi emancipado de Taquara em 1954. Vindos da Alemanha, Carl Augsten e família desembarcaram no Brasil e habitaram a região da Linha Ávila Baixa, em 1876. Foram alguns dos primeiros moradores da comunidade.
Por ali, toda a família começou a trabalhar com agricultura para subsistência. Os anos foram passando, assim como as gerações e os tipos de cultura. Plantaram arroz, trigo, fumo e, nas últimas três décadas, por visão do casal César, 60 anos, e Vera Augsten, 57, a principal atividade econômica se tornou o morango. Um ponto de virada para os descendentes de alemães.
— A lembrança mais antiga que eu tenho de Gramado é de uma cidade que não tinha prédio, não tinha nada. A cidade era cheia de Fusca, Brasília, Kombi. Consigo me lembrar bem da rodoviária antiga. Hoje, mudou, modernizou. E muito rápido. As coisas evoluíram bastante — recorda Vera.
Enquanto a família exercia as suas atividades ligadas à terra, a cidade foi expandindo e se tornando, ano após ano, mais atrativa para os turistas. Isto também se refletiu no campo. A demanda por morangos cresceu e exigiu a profissionalização dos processos, visto a exigência por parte do mercado e da fiscalização — antes, era possível colher as frutas e levar para vender na estrada, para os turistas, assim como geleias artesanais.
Entra em cena a mais nova geração dos Augsten. Cássia, 33, filha de César e Vera, formada em Administração, decidiu encabeçar os negócios da família e promover mudanças. Trouxe a tecnologia, as redes sociais e uma aproximação com as exigências dos turistas. A produção foi aprimorada, a fábrica de doces ampliada e foi aberto espaço para o agroturismo.
— A Cássia, está levando o negócio para a frente e a gente acompanha. O braçal a gente tem que fazer (risos), aliado com as ideias da juventude, que são bem diferentes das que nós tínhamos. O futuro acho que é assim. E Gramado tem a tendência de crescer o turismo cada ano mais — salienta César.
As fotos guardadas por Cássia, com orgulho do seu legado, mostram desde a chegada dos Augsten em Gramado até o trabalho na terra da família. Por este motivo, ela prefere ser chamada de agricultora. Hoje, os negócios estão indo bem, crescendo e, em breve, deve deixar de ser apenas familiar, trazendo funcionários para suprir a demanda.
Os 21 hectares que pertencem à família estão preparados para o futuro. Desde a fábrica de geleias, passando por estufas mais modernas para a plantação, até a antiga casa da avó de Cássia, Lucena, transformada para atender aos turistas. Assim, a história da família virou atrativo a partir do agroturismo, em um passeio guiado.
— Nós, gramadenses, somos muito bairristas. Não tem um gramadense que não babe de orgulho pela nossa cidade. E se ela chegou ao que é hoje é por causa de histórias como a do pai e da mãe, empreendedores, comerciantes. Nascemos sabendo que precisamos ser cordiais, simpáticos — complementa Cássia.
Nos trilhos da urbanização
Em 2023, ano sem as adversidades da enchente, Gramado recebeu 8 milhões de visitantes, conforme dados da prefeitura. Um recorde. É um dos destinos mais procurados pelos turistas no Brasil e, hoje, 86% da economia do município é oriunda do setor.
Para manter o status, constantemente, estreia atrações ou reformula as existentes. Sua região central se transformou uma espécie de cidade-shopping, visando a encher os olhos de quem chega. Não à toa, Gramado está sendo vista como um importante berço para abrigar marcas internacionais, como o Hard Rock Cafe e a NBA Park.
O processo que culminou neste fenômeno de popularidade teve como ponto importante a chegada do trem, em 1919, que ligava a cidade — na época, quinto distrito de Taquara — à Porto Alegre, com a primeira estação na região da Várzea Grande. Dois anos depois, chega ao Centro, até conectar com Canela, em 1924, completando o trajeto. A ferrovia levou desenvolvimento para a região.
— Gramado é o que é por causa da ferrovia. O local onde, hoje, é o centro de Gramado, tornou-se um polo de urbanização a partir da chegada do trem, que serviu para o escoamento de produtos coloniais feitos na região — diz Wanderley Cavalcante.
O museólogo Márcio de Carvalho complementa:
— É importante que, nesta época, já se começam a criar pousadas no centro de Gramado. Por causa das belezas naturais e da elevação, as pessoas fugiam muito do calor de Porto Alegre e vinham para cá. Tanto é que a gente chamava os turistas de veranistas, que vinham, principalmente, em dezembro e janeiro — destaca.
Ou seja, há um século, Gramado já havia começado a entregar as suas primeiras hospedagens. A região, antes de se tornar um fenômeno de procura, teve a sua economia baseada em indústrias como a moveleira, a calçadista, a do vime, entre outras. O forte crescimento econômico do distrito fez com que os moradores pleiteassem a sua emancipação.

Cidade de cinema
Quatro anos depois de virar município, as lideranças locais criaram a Festa das Hortênsias, com a intenção de desenvolver a cultura e enaltecer as belezas naturais. Foi o ponto de partida para outras festividades que abririam as portas para turistas do Brasil inteiro, como Festival de Cinema, em 1973, e o Natal Luz, em 1986 — a ferrovia foi desativada em 1963.
— O Festival de Cinema foi o primeiro evento nacional da cidade, demonstrando esta intenção turística. Da década de 1980 em diante, foi feito um movimento muito forte para consolidação da matriz econômica do turismo, com o poder público e a iniciativa privada trabalhando juntos para a construção da Gramado que conhecemos hoje. Criamos um lugar encantado — diz o secretário municipal de Turismo, Ricardo Reginato.
Este processo, segundo o secretário, levou em consideração o charme da Serra e a estética da colonização alemã e italiana na arquitetura, dando para a cidade o famoso "clima europeu". Esta imagem começou a ser trabalhada pelos empresários, que viajavam e coletavam ideias para aplicar aqui.
— Gramado já tinha essa movimentação de pessoas que vinham para cá para fugir da Capital, dos grandes centros, mas não era uma cidade turística consolidada. Na década de 1970, começamos a entender que podíamos fazer aqui, no RS, essa cidade de Serra que a gente vê nos filmes, que visitamos na Europa. Naquela ocasião, Bariloche foi benchmarking (ponto de referência) para a construção da Gramado de hoje — complementa Reginato.
Identidade
Ao passo que Gramado se expande e atrai cada vez mais marcas, incluindo algumas internacionais, existe a preocupação de manter a cidade com as suas características marcantes, oriundas do trabalho dos imigrantes que colonizaram a região. Por isso, o Plano Diretor de Gramado, de 2022, estipula elementos arquitetônicos que devem guiar as novas construções, mantendo coerência visual e preservação da identidade local.
— Existe uma preocupação no mundo inteiro com o chamado overtourism, com o excesso de turismo. Mas, em Gramado, a gente ainda não vê um movimento da sociedade civil sobre isso. Até porque, se formos voltar ao histórico, Gramado é uma cidade de imigração que não é tão antiga. Essa ocupação caracteriza a identidade da cidade. Sejam os ocupantes permanentes ou os temporários — comenta o antropólogo Felipe Comunello, professor do Departamento Interdisciplinar do Campus Litoral Norte da UFRGS.
Dessa forma, a identidade de Gramado passa pela acolhida de quem chega na cidade. Ainda assim, existe uma preocupação na qual o poder público tenta trabalhar: a criação de um sentimento de pertencimento com a população, que fica, muitas vezes, aquém do centro. A ideia, então, é levar atividades culturais para os bairros e reforçar a história da cidade para os habitantes e para quem chega. Um dos pilares para isso são os museus.
De volta aos trilhos
Uma das cápsulas do tempo é o Museu Major José Nicoletti Filho, que preserva a memória local e foi inaugurado em 2022. A casa centenária fica em um dos pontos mais visitados da cidade: a esquina da Rua Emílio Sorgetz, a famosa Rua Torta, com a Avenida Borges de Medeiros. A localização ajuda a levar um grande número de pessoas até o espaço — foram 100 mil em dois anos.
Tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal em 2009, o prédio de madeira foi moradia do primeiro subintendente de Gramado, que dá nome ao museu. Dali, o major podia observar a movimentação do trem, que chegou ao Centro em 1921. O crescimento do transporte rodoviário decretou o fim o transporte por trilhos.
Como a cidade foi se tornando cada vez mais turística, mas não tem aeroporto, a maioria dos visitantes precisa desembarcar em Porto Alegre e pegar duas horas de estrada para chegar em Gramado. A situação fez a ferrovia voltar aos planos neste ano.
Foi autorizado o desenvolvimento de um projeto de uma nova linha férrea, que ligará a Capital até Gramado — em pouco mais de uma hora. Caso a obra se concretize, a entrega está prevista para o final de 2032.
— Gramado se tornou o que é muito pela boa administração do poder público com a parceria da iniciativa privada. Além dos grandes eventos, temos uma excelente gastronomia, uma importante rede hoteleira, parques temáticos e as belezas naturais. Tudo isso, é claro, coberto pelo clima europeu. Então, é um mix de coisas que transformaram Gramado nesta potência econômica que ela é hoje — enfatiza o secretário de Cultura de Gramado, Jonas da Silva.


