
Na era das conexões instantâneas, os jovens brasileiros também estão plugados em uma transformação silenciosa, mas veloz, na maneira de vivenciar a fé. Mais distantes das cartilhas prontas e dos caminhos abertos pela tradição familiar, a juventude transita entre credos cada vez mais diversos e busca experiências que remetam à construção da própria identidade e ao encontro de um propósito.
Para entender o que está por trás dessas mudanças, GZH ouviu jovens que professam a fé de diferentes tradições, líderes religiosos e especialistas. O que emerge é um retrato multifacetado da espiritualidade dos jovens — aqueles que têm idade entre 15 e 29 anos, conforme define o Estatuto da Juventude —, que será publicado ao longo desta semana na série de reportagens Os Jovens e a Fé.
Reportagens da série Os Jovens e a Fé
Acompanhe as publicações:
Independência religiosa
Dados sobre religião do Censo 2022 divulgados pelo IBGE em junho apontam para uma maior diversidade de crenças na juventude brasileira. Na comparação com o Censo anterior, de 2010, o catolicismo, vertente religiosa mais tradicional do país, perdeu fiéis entre a parcela jovem da população. Enquanto isso, cresceu o número de evangélicos, de praticantes de religiões de matriz africana e de jovens que se declaram sem religião.
Para o especialista Rodrigo Coppe Caldeira, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-Minas, o cenário evidenciado pelo Censo tem relação com o avanço da tecnologia e a facilidade de acesso a novos conhecimentos, o que inclui as religiões.
— A internet possibilita que o jovem conheça outras formas de religiosidade, credos que não fazem parte da tradição familiar dele, dos quais talvez nunca tenha ouvido falar, mas que se tornam acessíveis por meio da internet. Isso leva, naturalmente, a uma maior independência religiosa. Hoje em dia, os jovens não aceitam mais a ideia de que precisam seguir a religião dos pais, por exemplo — diz.
Na prática, isso possibilita que a fé seja montada quase como um mosaico personalizado, explica Coppe:
— A forma como os jovens constroem as suas religiosidades é como uma ida a um bufê, em que você vai pegando um pouquinho de cada coisa e, quando percebe, está com aquele prato enorme e variado. É comum que haja uma miscelânea de credos, com cada indivíduo construindo a sua relação com o divino de maneira subjetiva, sem necessariamente precisar do intermédio das instituições.
Mudanças nas famílias
Conforme Regina Novaes, coordenadora acadêmica do Instituto de Estudos da Religião (ISER), há mudanças significativas também na constituição das famílias brasileiras, que se mostram cada vez mais plurirreligiosas. Essa característica influencia a fluidez com a qual os jovens constroem a própria fé, aponta a pesquisadora:
— Cada vez mais, temos famílias plurirreligiosas se constituindo. Isso cria a possibilidade de um jovem ter uma mãe católica e um pai umbandista, por exemplo. Essa mudança abre espaço também para uma maior experimentação religiosa por parte dos jovens, que muitas vezes não se restringem a somente uma vertente.
Assim, o cenário não é de negativa generalizada às religiões, que ainda são a escolha de muitos jovens na vivência da espiritualidade.
O professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Dario Paulo Barrera Rivera observa que estar inserido em uma religião, ao passo que pode trazer ao jovem a sensação de menor liberdade, também oferece a ele uma experiência comunitária por vezes crucial.
— A sociabilidade é uma necessidade primária: todo ser humano precisa sentir que faz parte de algo, e isso pode ser ainda mais efetivo durante essa fase da vida, que é muito marcada pelas incertezas e o sentimento de inadequação. As religiões vão na contramão disso, porque oferecem experiências de partilha, encontro e proximidade — avalia o pesquisador.
Em busca de propósito
Esse ponto de vista é percebido diariamente por líderes de diferentes vertentes religiosas. Pastor da Brasa Church, igreja evangélica que tem na juventude sua maior parcela de fiéis, Maurício Martins vê nos laços de amizade formados por meio da religião elementos importantes para a permanência dos jovens.
— Estar em uma igreja não é só fazer parte de uma comunidade de fé, mas de uma família. Quando alguém entra na igreja, a primeira coisa que vai ouvir é isso — afirma o pastor.
Para ele, a espiritualidade também responde a um chamado mais profundo dos jovens, que anseiam por dar sentido às suas vidas. Algo que, no entendimento do pastor, surge para muitos por meio da fé.
— Vejo que a juventude está em busca de propósito. Os jovens já não querem viver à toa: eles querem dar sentido para suas existências. A busca por esse propósito pessoal é algo que leva muitos jovens para a igreja, na ânsia de terem um encontro real com Deus. Esse encontro é individual e sempre transformador. Depois que o jovem sente, ele não consegue mais esquecer — avalia Martins.
Diálogo com as novas gerações
Coordenador do curso de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o padre Rafael Fernandes observa que as mudanças relativas à parcela jovem da população identificadas pelo Censo acompanham o que também foi visto nas demais faixas etárias. Mas diferentemente do que ocorreu em períodos anteriores do levantamento, os dados denotam, agora, um quadro de maior estabilidade.
— Nesses últimos 10 anos, a diminuição do número de católicos, na verdade, perdeu força — enfatiza. — Projetava-se uma diminuição muito mais acelerada, aos moldes do que ocorreu na década de 1990 e início dos anos 2000, de modo que nós estaríamos em menos de 50% no país. Isso não se concretizou — diz.
O padre Rafael Fernandes vê a evangelização da juventude como um dos desafios contemporâneos da Igreja Católica, mas pondera que existe grande variedade de movimentos juvenis nessa fé, que funcionam como porta de entrada para muitos jovens.
— Além da vivência comunitária, esses movimentos oferecem a possibilidade de conhecer diferentes carismas e expressões da fé católica — comenta. — A missão da Igreja é promover esse diálogo fecundo com as novas gerações e se adaptar às demandas que ela traz, que vão muito no sentido de se entender e se encontrar.
Conexão com a ancestralidade
Tal demanda também é percebida nas religiões de matriz africana, nas quais a questão identitária tem mobilizado a nova geração. Líder do Ilê Asé Iyemonjá Omi Olodô e presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul (CPTERS), o pai de santo Bába Diba de Iyemonjá relata um aumento significativo na procura dos jovens pelo culto aos orixás. No caso da juventude negra, algo que está intimamente ligado ao fortalecimento da identidade étnica.
— O terreiro sempre foi um locus de resistência do nosso povo. A maior parte da juventude chega movida pelo desejo de se conectar com a ancestralidade e se fortalecer frente ao racismo. Hoje, mais do que nunca, as religiões de matriz africana são uma esfera de resistência para a juventude preta — afirma o pai de santo. — Aqui no Rio Grande do Sul, temos também uma busca muito grande por parte da juventude branca, que cada vez mais tem afinidade com a tradição africana — acrescenta.
Aprendizado e evolução
O pai de santo aponta para a existência de afinidades entre os valores das religiões de matriz africana e o modo de pensar da juventude contemporânea, que ele considera, de forma geral, menos conservadora e mais propensa ao progressismo político e moral.
— A gente não trabalha com o conceito de pecado, tampouco com o imaginário de céu e inferno. Nas religiões de matriz africana, existem erros e acertos, não há essa dicotomia entre o bem e o mal. A gente erra, toma consciência e corrige os nossos erros para que possamos evoluir — explica o presidente do CPTERS. — Acredito que essa perspectiva faz muito sentido para a juventude, porque a lógica é de aprendizado e evolução constantes, não de punitivismo — avalia.
Acolher e respeitar
Vice-presidente doutrinário da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, Vinícius Lousada faz uma leitura semelhante sobre o que conecta os jovens ao espiritismo — religião que tem nos mais velhos a maioria dos fiéis mas, segundo ele, também conta com uma importante e organizada parcela jovem.
— A juventude é questionadora, normalmente busca respostas para as perguntas complexas, mas não quer respostas que contrariem a inteligência. E o espiritismo, sendo uma filosofia que se propõe racional, tem atendido muito bem os jovens nessa questão — diz, explicando que a doutrina espírita tampouco prega a ideia de pecado e é aberta à diversidade. — O espiritismo parte de uma perspectiva de que a lei de Deus está escrita na consciência das criaturas. A nós cabe acolher e respeitar todas as pessoas como verdadeiros irmãos, e nutrir um sentimento fraterno. Entendemos que cada um tem a sua jornada individual e tem o que oferecer de bom, de justo e de belo para a sociedade.
Espelho retrovisor da sociedade
Para a pesquisadora do ISER Regina Novaes, a afinidade com doutrinas progressistas é verídica, mas não representa todos os jovens, que também podem se identificar com princípios mais conservadores.
— A gente tem que pensar na juventude como um espelho retrovisor da sociedade. Quer dizer, na juventude você vai ter as mesmas posições que tem na sociedade — explica. — Espera-se que os jovens sejam mais questionadores e progressistas, mas, assim como na sociedade, existe uma parcela conservadora, que vai buscar religiões dentro desse espectro — conclui.




