
Pelúcias, bolsas, chaveiros e livros de colorir estão entre os itens temáticos de capivaras que podem ser encontrados nas prateleiras de lojas. Consideradas os maiores roedores existentes, as capivaras viraram um fenômeno até mesmo internacional nos últimos anos. Imagens se espalham pelas redes sociais trazendo o animal em diferentes contextos. Entre as crianças, a onda não demorou a chegar.
Foi assim na casa de Luna Remelinge Mendonça Castelan, oito anos. A menina começou a se interessar pelo animal há cerca de dois anos.
— Elas são fofas — explica, sobre o motivo de tanto gosto pelos bichinhos.
Luna diz que curte ver as capivaras "ficarem em cima de coisas e coisas ficarem em cima delas". Em vídeos nas redes sociais, é possível notar esse comportamento.
"Melhor amiga"
A família, que mora na zona sul de Porto Alegre, tem parentes em uma região em Santa Catarina onde há capivaras. Como conta a mãe de Luna, Bruna Elissa Remelinge, 28 anos, isso se relaciona ao gosto da filha:
— Ela (uma familiar de Bruna) mandava as fotos e eu mostrava para a Luna, e a Luna gostava. E aí, do nada, começou uma onda de capivara na internet. Eu não sei também de onde surgiu (risos). A Luna começou a se interessar, a pedir os bichinhos. Ela pediu a capivara com as roupinhas. E ganhou da dinda dela. Desde então, ela não desgruda mais e tudo que ela quer, ela quer de capivara.
A pelúcia virou a "melhor amiga" da filha, segundo o pai, Luciano Mendonça Castelan, 29 anos.
Mochila, bracelete e uma roupa de capivara fazem parte do acervo da menina, que pôde conhecer e interagir com os animais em Santa Catarina no fim do último ano. Até os pais acharam a experiência "fantástica".
Porta de entrada para a aprendizagem
Em uma instituição na zona sul da Capital, os bichinhos também "se espalharam":
— Tivemos, a partir do começo desse ano, uma onda de capivaras. Eu brinco que são "capivárias" porque são capivaras por todos os lados — comenta o diretor da escola municipal Professor Anísio Teixeira, Paulo César Garcia.
A instituição tem 1.050 alunos, do Fundamental à Educação de Jovens e Adultos (EJA), sendo uma das maiores da rede pública municipal da Capital.
Paulo diz ver crianças levando na escola desenhos para pintar, estojos, pulseiras e bonecos. Até festas de aniversário temáticas já ocorreram na instituição, lembra.
O diretor avalia que o "modismo" desta vez foi positivo porque consegue ser apropriado de forma pedagógica em diferentes áreas. Os professores usam a capivara como porta de entrada para desenvolver diferentes projetos, como um voltado à educação ambiental, à fauna e à flora da região e do Rio Grande do Sul. Nas aulas de artes, o animal virou tema de desenhos.
Paulo percebe que a onda começou por meio da internet, com opções de jogos, vídeos e produtos.
— Uma trazia um desenho e aí mostrava para as demais. Eles iam pedir, inclusive, na escola, se podiam fazer cópia, porque a criança também queria pintar, como o coleguinha estava pintando — destaca.
Um movimento semelhante foi notado por Luiz Henrique Ferrari, diretor da mantenedora da Rede Educacional Gabarito. A instituição tem 1,2 mil alunos em escolas em Porto Alegre e Canoas, do Fundamental ao Médio.
— Acho que essas viralizações sempre acontecem de tempo em tempo. Claro que agora, com o fato da internet e das redes sociais, isso reverbera mais rapidamente. Mas posso me lembrar, quando eu era pequeno, que também um roedorzinho era uma febre entre as crianças, que era o Topo Gigio. Era uma loucura absoluta, todo mundo queria fazer aniversário de Topo Gigio, era boneco, era camiseta, era mochila — ressalta Luiz.

Ele afirma ainda que, ao trazer a temática da capivara para a sala de aula, é possível trabalhar questões de geografia, ecologia e preservação, por exemplo.
— Utilizar desses recursos é ótimo, é sensacional. Utilizamos sempre quando podemos. E aí é o bom da internet, da viralização, porque hoje quando tu fala na capivara, todos conhecem como conhecem o leão — exemplifica.
Oportunidade para a família
É o jeito aparentemente dócil, calmo e sociável das capivaras que está entre as apostas da psicopedagoga e orientadora educacional Rosanita Mochini Vargas sobre os motivos deste animal fazer sucesso.
A especialista, que é vice-presidente Associação Brasileira de Psicopedagogia - Seção Rio Grande do Sul, entende que o mundo da infância hoje tende a ser acelerado, exigente, competitivo e sobrecarregado de estímulos. Há crianças com "agendas de mini executivos", como descreve, assim como aquelas que precisam adotar responsabilidades de adultos.
— Me parece que a capivara acaba representando esse outro universo, um animal mais pacato, uma convivência tranquila, que fica ali, deitadinho no sol, vai, mergulha — acrescenta.
Rosanita pontua que essa identificação se torna uma forma lúdica de a criança expressar as emoções e buscar acolhimento meio às exigências do cotidiano. Surge uma abertura, então, para as famílias:
— Acaba sendo também uma baita oportunidade de os pais se aproximarem dos filhos e tentarem compreender, por meio do diálogo, o que a criança gosta na capivara, por que aquele bichinho chama atenção, de os pais poderem também compreender essas diversas camadas que existem. A criança, por meio do simbólico, vai buscar formas de poder dizer alguma coisa. E é muito comum que aquilo que ela busca dizer seja algo que, dentro do repertório dela, ainda não é dizível, ainda não tem palavras suficientes para poder nomear tudo o que se sente.
No entanto, há um alerta: por trás de conteúdos fofos, lúdicos e inofensivos, podem aparecer mensagens de violência, adultização, sexualização e consumismo. Por isso, entre os cuidados, a psicopedagoga reitera a importância da mediação dos adultos em relação ao que a criança vê, ouve e acessa. Ela orienta que isso seja feito com o adulto se mostrando à disposição para escutar, com curiosidade, e não com uma carga restritiva ou ruim.
A fonoaudióloga Ivelise Bernardes dos Santo, especialista na área de Psicopedagogia, argumenta que o excesso pode deixar a criança "muito fechada a uma coisa só":
— Tudo acaba empobrecendo. Pensando mais na parte fonoaudiológica, até a linguagem da criança acaba ficando uma coisa muito fechada. Então precisamos ter essa flexibilidade. Chamamos de flexibilidade cognitiva, que é eu alternar as brincadeiras, os gostos. Eu não posso ficar só numa coisa, só num assunto, isso acaba deixando a criança meio inflexível.
Demanda nas lojas
Uma rápida ida ao shopping permite encontrar itens diversos com a temática de capivara. Em uma livraria, Zero Hora localizou livros de colorir e chaveiros, com valores que variavam de R$ 30 a R$ 40.
— A partir de março, começamos a não só ter clientes procurando, mas vários distribuidores começaram a sugerir (itens temáticos) — afirma Bruno Rosa de Souza, coordenador de livraria na loja Leitura.
Em uma loja de pelúcias, a opção de capivara já teve diferentes modelos. O público que mais busca o bichinho na banca da Criamigos no BarraShoppingSul é formado por crianças entre oito e 12 anos, segundo a vendedora Camila Moura.
— Desde o ano passado, ela é realmente um fenômeno entre as crianças e ela é a preferida aqui entre os meninos principalmente — pontua Caroline Vargas, gerente da banca.
Hoje, a pelúcia disponível no local custa a partir de R$ 159,90.
Em uma loja de brinquedos próxima, a Ri Happy, a pelúcia tem preços a partir de R$ 199. Foi na época de volta às aulas que a vendedora Larissa Lucas da Fonseca Dias viu aumentar a procura por itens relacionados ao bichinho. Hoje, ela percebe que a busca já diminuiu:
— No começo do ano, todo dia pelo menos uns três clientes pediam. Hoje já são coisas básicas, tipo chaveiros e braceletes, mas antes era: "Quero a pelúcia, quero tudo".
O carisma e um alerta
No Rio Grande do Sul, a Estação Ecológica do Taim é um dos lugares de moradia das capivaras. Essa é uma unidade de conservação de proteção integral da natureza, localizada em Rio Grande e em Santa Vitória do Palmar.
No local, é possível encontrar agrupamentos de até 100 capivaras, de acordo com o biólogo Pedro Hoffmann, que atua na Estação. Para ele, a aparência e o comportamento desses animais ajudam a explicar a fama:
— Acredito que por ser um animal do que chamamos de "fofofauna", ser um mamífero com pelo, bastante carismático, não aparentemente agressivo e que tem realmente um comportamento bem amigável, acho que isso é o que mais deve destacar ela como um animal que o pessoal acaba gostando muito.
Ele reforça, porém, que a recomendação é não tocar nesses animais nem se aproximar de forma mais direta. Isso porque, apesar de dóceis, são selvagens e imprevisíveis. Pedro explica que os dentes das capivaras são fortes, feitos para cortar vegetação, então podem causar ferimentos graves. Algumas também podem conter carrapatos com bactéria que transmite febre maculosa.
Em sua pesquisa, o especialista descobriu que as capivaras têm até mesmo um papel na dispersão de sementes. Esse processo ocorre pelas fezes e também pela parte externa do corpo do animal.
— É importante preservar as capivaras e não vê-las somente como pet como acaba acontecendo na internet, que é esse lado talvez um pouco pior de ser um bicho fofo. As pessoas acabam achando que é um animal que pode ser tratado como pet, mas, na verdade, não. É um animal nativo da nossa fauna e ele é protegido por lei. Não pode ser mantido em cativeiro, a não ser em zoológicos — completa.



