
As denúncias de adultização e erotização precoce de crianças e adolescentes, expostas por Felca no vídeo que mobilizou o país nos últimos dias, geraram o envio de uma lei pelo governo federal ao Congresso para a regulação das big techs, bem como propostas na Câmara dos Deputados para a proteção de menores.
A resolução do problema, contudo, não depende apenas da lei: exige esforços e engajamento mais amplos em diferentes esferas da sociedade, segundo especialistas.
A lei pode estabelecer limites e penalidades, mas não consegue agir sozinha diante da velocidade com que a internet e as redes sociais funcionam, aponta Nay Macêdo, psicóloga especialista na proteção infantojuvenil na era digital.
A adultização e a erotização precoce são alimentadas por um ecossistema: plataformas que lucram com engajamento, publicidade de produtos – como skincare – que explora vulnerabilidades e uma cultura de forte base midiática que normaliza a hipersexualização e o consumismo. Por outro lado, afetam diretamente o cérebro em desenvolvimento. As exposições tendem a causar um dano maior pelo fato de a identidade ainda estar em formação.
Psicóloga especialista em infância e adolescência e autora do livro Crianças Bem Conectadas, Aline Restano salienta a importância de preservar a infância, priorizando segurança, brincadeiras e convivência com outras crianças – e não a reprodução de comportamentos e desejos do mundo adulto.
A proteção efetiva demanda a união de governo, plataformas, famílias, escolas e sociedade – não existe solução isolada. Na Austrália, já há movimentos para restringir o acesso de menores de 16 anos a redes sociais, com campanhas de conscientização e exigências técnicas às plataformas.
— É um problema que exige educação digital, mudanças de comportamento, responsabilidade coletiva e pressão social para que empresas e governos cumpram seu papel — defende Nay.
A responsabilização das plataformas
A lógica das plataformas de redes sociais é compartilhar a intimidade e a vida pessoal – e o lucro provém desse modelo, lembra Raquel Recuero, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes (Midiars). Essas ferramentas são capazes de circular rapidamente os conteúdos. Uma vez publicado, uma audiência “invisível”, além daquela esperada, tem acesso.
— E não há mais controle sobre ele, que pode ser replicado, compartilhado e utilizado para alimentar IAs e outras ferramentas — alerta.
As redes sociais precisam ser reguladas, responsabilizadas e punidas, defendem os especialistas ouvidos pela reportagem de Zero Hora. As big techs são parte fundamental da solução: deveriam fiscalizar e agir na publicação de conteúdos ilegais, bem como ter uma ação mais sistemática na educação do público, seduzido pela lógica das curtidas, pontua Raquel. É necessária, ainda, uma discussão sobre mecanismos de privacidade e direitos das crianças, conforme a professora.
O papel primário dos pais na proteção
As famílias assumem um papel primário de proteção. Isso significa conhecer as plataformas que os filhos usam, entender como funcionam e estabelecer limites claros e compatíveis com a idade, conforme Nay.
O assunto precisa estar presente no cotidiano e ser estudado pelos pais. É fundamental compreender os riscos que a internet oferece antes de liberar o acesso a qualquer dispositivo, especialmente sem supervisão.
— E sempre lembrar que os pais vão ser responsáveis também pelo comportamento do filho nas redes ou por não estar protegendo os seus filhos também — reforça Nay Macêdo.
O uso frequente de telas como “atalho” para acalmar crianças impede o desenvolvimento pleno da autorregulação emocional, explica a psicóloga. Assim, a criança passa a depender de estímulos rápidos para lidar com emoções difíceis, o que aumenta a vulnerabilidade no ambiente online e a dependência dos dispositivos na família.
Um dever de todos
A educação digital é um fator fundamental para a proteção, frisa Raquel. É preciso compreender que o conteúdo publicado deixa rastros que dificilmente podem ser totalmente apagados sem ação das próprias plataformas.
As escolas também devem abordar assuntos como redes sociais, jogos eletrônicos e cyberbullying com alunos e pais, além de estar preparadas para identificar sinais de alerta e construir um ambiente de confiança para conversas.
O tema precisa ser estudado e conhecido, ainda, pelos profissionais da saúde, conforme Aline. Além disso, mudanças de postura enquanto sociedade também são fundamentais, pontua Nay Macêdo:
— A sociedade precisa romper com a banalização da exposição e da sexualização precoce como entretenimento, o que é bastante antigo no Brasil. Isso envolve cobrar políticas públicas, denunciar conteúdos abusivos, apoiar campanhas de conscientização e repensar como consumimos e interagimos com conteúdos de crianças e adolescentes.

