
Um pirulito pode ajudar alguém a largar o cigarro eletrônico? A pergunta, que parece improvável, surgiu nas redes sociais depois que a influenciadora Antonela Braga, 16 anos, anunciou a criação de uma marca de doces sem açúcar.
Batizada de Ticky, a empresa estreou com pirulitos sabor algodão-doce, vendidos em kits de quatro pacotes por R$ 56. Cada embalagem traz quatro unidades, o que faz o preço chegar a R$ 3,50 por pirulito.
O lançamento foi além da imagem de moda e lifestyle que Antonela costuma exibir nas redes. A influenciadora apresentou o doce como uma alternativa ao cigarro eletrônico, hábito em alta entre adolescentes e jovens adultos.
— Queria criar algo legal, que pudesse até substituir hábitos ruins, como cigarro eletrônico. É divertido, gostoso e não faz mal à saúde como outros produtos — disse Antonela em vídeo publicado no Instagram.
— Hoje em dia, infelizmente, está muito em alta o cigarro eletrônico. Muitas pessoas, de diferentes idades, consomem e utilizam o cigarro eletrônico, o vape. A gente pensou: cara, vamos criar uma coisa legal, que seja descolado, que as pessoas conseguem ficar usando o tempo inteiro, não vai ficar fazendo mal à saúde e vai ser super divertido — disse Antonela em vídeo publicado nas redes sociais.
O pirulito da Ticky
O produto foi divulgado com forte apelo visual e linguagem voltada à geração Z, com "cabinho rosa" e sabor algodão-doce, em versão zero açúcar. A proposta, segundo Antonela, é justamente atingir um público jovem que busca algo "diferente" e acessível.
— Eu consigo atingir todo o meu público, ou pelo menos a maioria deles, porque é um produto de R$ 3,50, eu não estou vendendo uma calça jeans de R$ 600 — disse em vídeo publicado nas redes sociais.
A marca define o doce como "a bala zero açúcar mais cool e deliciosa que você já provou". A composição, porém, também traz polêmica: entre os ingredientes estão isomalte, stevia e o dióxido de titânio, corante proibido na União Europeia desde 2022, após estudos apontarem riscos a longo prazo, mas ainda permitido no Brasil.
O que acontece no cérebro de quem fuma?
Na prática, um pirulito sem açúcar funcionaria da mesma forma que outros substitutos orais, como balas ou pastilhas: ocupa a boca e as mãos e pode dar a sensação de alívio momentâneo da fissura.
Porém, sobre ajudar ou não quem fuma, é preciso antes entender como o cigarro atua no organismo. O pneumologista Luiz Carlos Corrêa da Silva, da Santa Casa de Porto Alegre, detalha a ação da nicotina.
— Esses receptores se acostumam com a nicotina. Isso provoca a formação de dopamina, noradrenalina e outras substâncias ligadas ao prazer. Quando o fumante para, esses receptores "pedem" mais nicotina via corrente sanguínea. É isso que gera a fissura pelo cigarro — detalha.
Segundo ele, o efeito é tão intenso que não pode ser neutralizado por soluções improvisadas.
— Ele pode auxiliar se a pessoa estiver previamente convencida que isso será possível, mas não há nenhum mecanismo, nem farmacológico, nem químico, que faça com que ela deixe de fumar. Talvez usando o pirulito 24 horas por dia, ela se entretenha e não use o cigarro, mas não dá para contar com isso.
O médico acrescenta que não há respaldo científico para a proposta.
— Que eu tenha conhecimento da literatura, não há nenhuma evidência científica. Não se testou, principalmente contra placebo ou contra algum tratamento já validado — afirma Corrêa da Silva.
O ritual e a fissura oral
A dependência não se resume apenas ao efeito da nicotina no corpo. O psiquiatra Leandro de Moraes Garbossa lembra que o gesto de fumar tem papel decisivo no vício.
— São duas vias, a nicotina e o ritual. Os momentos do dia que estão associados ao hábito que criam uma memória corporal e de prazer muito forte. É quase automático. Muitos pacientes dizem: "Quando vejo, já acendi o cigarro". Isso mostra que não é só a nicotina, mas também o hábito repetido dezenas de vezes por dia — explica.
Nessa lógica, ocupar a boca com balas, chicletes ou pirulitos pode oferecer apenas um alívio momentâneo, um apoio, mas não resolve sozinho.
Ele cita também a estratégia da goma de nicotina que, neste caso, ajuda a distrair o paciente ao mesmo tempo que trata.
— Muitos pacientes relatam que segurar uma caneta ou mastigar algo nos momentos de fissura fez diferença. É o que a gente chama de técnicas de manejo comportamental. Não são só paliativos, mas recursos auxiliares que quebram aquele estado automático de fumar — diz Garbossa.
O que a medicina recomenda para parar de fumar?
Apesar da curiosidade em torno do pirulito, os médicos reforçam que o tratamento do tabagismo já tem métodos validados. Garbossa cita três pilares principais: reposição de nicotina (adesivos, gomas e pastilhas), medicamentos que reduzem a fissura e o prazer associado e terapia cognitivo-comportamental.
Corrêa da Silva destaca ainda outras quatro etapas que organizam o processo: motivação, preparação, definição de um "dia D" e manutenção para evitar tragadas ocasionais.
— É preciso avaliar os gatilhos de cada paciente, usar adesivos ou medicamentos quando necessário e, principalmente, evitar recaídas. A dependência química não permite "só uma tragadinha". Isso pode levar ao retorno do padrão anterior — alerta.
Além disso, vale o alerta: substituir o cigarro por outro hábito não planejado pode trazer efeitos colaterais. Isso porque existem casos de pacientes que, por exemplo, passam a comer doces compulsivamente após largar o cigarro, ressalta Garbossa.
— O cigarro preenchia uma função emocional. Por isso, o tratamento precisa ir além: entender o que o cigarro significava e ajudar a construir formas mais saudáveis de lidar com ansiedade, solidão ou estresse. É preciso abrir espaço para lidar com isso de outras formas e também tratar a causa do vício, não apenas o vício em si — acrescenta.
Malefícios do cigarro
O impacto do cigarro, seja o comum ou o vape, no organismo, costuma aparecer após anos de consumo, mas as consequências podem ser graves e irreversíveis. Entre os principais riscos estão:
- Doenças pulmonares crônicas, como bronquite crônica e enfisema
- Câncer de pulmão e de outros órgãos afetados pela fumaça
- Problemas cardiovasculares, incluindo infarto e AVC
- Complicações circulatórias, como maior risco de trombose
— Se parar de fumar, tanto bronquite crônica como enfisema podem diminuir sintomas, se é que já existem. Mas depois que o câncer acontecer, isso não tem mais volta — alerta Corrêa da Silva.
Por isso, mesmo quem larga o cigarro precisa manter acompanhamento.
— Temos indicado para fumante ou ex-fumante até 15, 20 anos após parar de fumar, fazer exames de imagem, principalmente tomografia, uma vez por ano, para detectar pequenos nódulos que são tratáveis e curáveis. O melhor mesmo é não fumar nunca — finaliza.
Quem é Antonela Braga
Natural do Rio de Janeiro, Antonela Braga, 16 anos, tem mais de 3 milhões de seguidores no Instagram e 8 milhões no TikTok. Produz conteúdo de moda, beleza e estilo de vida, mas ganhou notoriedade também por polêmicas.
Recentemente, se envolveu em um desentendimento com a influenciadora Duda Guerra, namorada de Benício Huck, filho de Luciano Huck e Angélica, após pedir para seguir o jovem em uma conta privada no Instagram.
Além disso, voltou ao centro das atenções com o lançamento da marca Ticky e com os preparativos de sua festa de 16 anos, marcada para 5 de setembro, com cerca de 500 convidados.
*Produção: Murilo Rodrigues


