
É uma tarde de sábado. Enquanto a carne assa sobre a churrasqueira, o estudante de Administração e gerente de cafeteria Ben-Hur Borraz, 29 anos, conversa com um grupo de seis amigos na sala de sua casa.
O assunto é a passagem do Evangelho de Lucas que narra o encontro de dois discípulos com Jesus ressuscitado. O trecho bíblico revela que os seguidores não conseguem reconhecer Cristo em um primeiro momento. Tomam consciência de que estão diante de seu mestre somente tempo depois, quando Ele reparte um pão.
Dividindo-se entre a sala e a churrasqueira, Ben-Hur fala aos amigos sobre as mensagens por trás da passagem bíblica, costurando a história do Novo Testamento com pensamentos de um influenciador evangélico que acompanha e reflexões que ouviu em um podcast.
O anfitrião compara o episódio ao momento de partilha que todos ali estão prestes a iniciar, apontando a necessidade de que mantenham os olhos abertos para Cristo:
— Nós também vamos partir o pão para ter uma revelação maior de quem Jesus é.
Agentes de transformação
O momento de reflexão se repete quinzenalmente, quando são realizados os encontros da célula liderada por Ben-Hur e a esposa, a publicitária Taysi Borraz, junto à Brasa Youth, braço jovem da Igreja Brasa, de vertente teológica batista. O casal se tornou evangélico há pouco mais de quatro anos, juntando-se ao grupo religioso que mais cresceu no país ao longo da última década.
No Censo de 2010, os evangélicos representavam 21,6% da população brasileira, percentual que subiu para 26,9% no levantamento de 2022. O salto foi maior entre pessoas de 15 a 29 anos, faixa etária que o Estatuto da Juventude considera jovem.
A proporção de jovens evangélicos cresceu 6,4 pontos percentuais no país, passando de 21,7% para 28,1%. O aumento também ocorreu no Rio Grande do Sul, onde o percentual mudou de 17,8% para 22,6%.
Ben-Hur acredita que o fenômeno está associado ao processo de modernização pelo qual a religião passou, com uma maior adaptação das igrejas à linguagem da juventude — como a própria Igreja Brasa, que se destaca pela retórica atrativa aos jovens. Para ele, os evangélicos "se tornaram cool".
— O crente não tem mais uma cara específica, não é mais só o homem de roupa social ou só a mulher da saia e do cabelo comprido. Temos tatuagem, usamos o tênis da moda, fazemos parte da sociedade — explica. — Mas a questão não é só fazer volume, né? Minha oração é para que esses jovens sejam agentes de transformação — pondera.
Amuleto da sorte
A visão é compartilhada pela auxiliar administrativa Raíssa Mendes, 22 anos, jovem da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Ela diz ter visto aumentar o interesse dos jovens pela religião nos últimos anos, fenômeno que também relaciona à ascensão de influenciadores digitais dedicados a propagar a fé evangélica.
Entretanto, Raíssa questiona o real comprometimento da juventude com a religiosidade.
— Acho que a maior parte dos jovens não está em busca de uma crença para realmente fazer dela o seu estilo de vida. Vejo que, para a maioria, a fé funciona como uma espécie de amuleto da sorte, um conforto para momentos específicos — justifica.
Filha de pastores da Igreja Internacional da Graça de Deus, de vertente neopentecostal, a jovem nasceu em lar evangélico e jamais se distanciou da religião. Contudo, deixou a sigla liderada pelos pais ao final da adolescência, migrando para a Igreja Adventista, que integra o grupo dos chamados evangélicos de missão.
Questionamentos e convicções
Raíssa relaciona a mudança ao amadurecimento da própria fé. O que antes era uma crença nutrida por incentivo dos pais virou convicção de vida, levando-a a buscar uma vertente religiosa que se adequasse melhor aos entendimentos que tinha acerca do Evangelho.
— Foi uma questão de interpretação bíblica. Não concordo com a visão de que Deus precisa enriquecer as pessoas. Para mim, essa não deveria ser a motivação para a fé. Passei a questionar o porquê de falarmos tanto sobre dinheiro se o dinheiro nunca foi o foco da vida de Cristo — detalha a jovem, referindo-se à Teologia da Prosperidade, doutrina pregada pelo movimento neopentecostal.
— Com o tempo, comecei a me incomodar também com a forma de orar, a forma de comunicar o Evangelho. Entendi que não sou uma pessoa neopentecostal, por isso aquela linguagem me soava estranha. Mas tenho muito carinho e respeito, jamais vou cuspir no prato que comi. Até porque meus pais continuam lá — acrescenta Raíssa.

Mergulho nas drogas
Ben-Hur também nasceu em um lar neopentecostal. Filho de fiéis da Assembleia de Deus, o jovem participou ativamente da igreja até os 13 anos de idade, quando acabou se desligando da religião.
— Costumo dizer que se eu nascesse em uma família espírita, eu seria espírita. Se nascesse em uma família umbandista, seria umbandista, porque nessa fase da minha vida o que pesava era a tradição familiar. Meu real encontro com Cristo veio somente depois — analisa.
Paralelamente à saída da igreja, que atribui a uma "crise de fé", Ben-Hur teve sua primeira experiência com as drogas. A porta de entrada foi a maconha. O uso evoluiu para vício, e ele passou a depender também da cocaína.
— Lembro que nem pensava em Deus nesse período, Ele já não era uma figura que fazia parte da minha vida — recorda.
O acolhimento que faltava
Entre os 13 e os 21 anos, o jovem teve três internações em clínicas de reabilitação. Na última delas, voltou a tentar se comunicar com Deus.
— Estava no fundo do poço e fiz a oração mais sincera que conseguia, pedindo uma transformação na minha vida. Foi a primeira vez que busquei Deus sem a influência de terceiros, a primeira vez que abri a Bíblia por vontade própria, sem intervenção do pastor ou da família. Ali começou a minha verdadeira relação com Deus — diz Ben-Hur.
Já fora da reabilitação, o estudante voltou a frequentar a Assembleia de Deus, mas não conseguiu se manter totalmente longe das drogas e deixou a igreja novamente. Ben-Hur lembra que passou por idas e vindas na drogadição até abril de 2021, ano em que ele e a esposa, então namorada, ingressaram na Igreja Brasa.
— Não gosto de dizer que uma igreja é melhor ou pior do que as outras, pois todas têm os seus problemas e as suas qualidades, mas foi na Brasa que eu encontrei o acolhimento de que precisava. Cheguei como uma pessoa que estava disposta a aprender a viver o Evangelho e nunca fui rotulado pela vida que levava — reflete.
Deus em todas as coisas
Hoje, o jovem diz viver aquilo que define como "fé holística". Acredita que Deus está em todos os momentos de sua vida, assim como em todas as coisas:
— Cuidar da casa, da minha família, do meu trabalho, de mim, tudo isso inclui Deus. Ele não está somente no culto do sábado ou no culto da segunda-feira, Ele está em tudo.
Como líder de célula, Ben-Hur prepara pregações para os encontros quinzenais do grupo de oração. Também vai ao culto duas vezes por semana e participa das obras sociais da Igreja Brasa.
Nas redes sociais, o jovem compartilha conteúdos sobre a religião. Também publica sobre corrida, esporte que começou a praticar ainda à época da sua conversão.
Vejo as redes sociais como um veículo de propagação do Evangelho. Sempre busco levar mensagens de amor, de esperança e de fé, porque acredito que pode influenciar as pessoas.
BEN-HUR BORRAZ, 29 ANOS
Estudante de Administração e gerente de cafeteria
A importância do sábado
Já Raíssa vive a fé de maneira offline, mas também acredita que a religião perpassa todas as esferas de sua vida. A jovem concilia o trabalho administrativo em uma clínica médica adventista com os estudos para concursos públicos. Apesar da rotina corrida, diz priorizar na agenda momentos para estar na igreja e exercitar a fé.
Desde que se converteu ao adventismo, Raíssa também passou a guardar o sábado.
— Para nós, este é um dia santo. Não trabalhamos, não estudamos, não fazemos compras. É um dia em que ficamos dedicados à família e ao nosso lado espiritual — detalha.
O sabatismo é um dos preceitos da Igreja Adventista. Raíssa explica que o resguardo começa ao pôr-do-sol de sexta-feira e segue até o domingo, quando as atividades podem ser retomadas.
Segundo a jovem, a prática impõe alguns desafios à rotina, porque "a sociedade não está preparada para lidar com os sabatistas". Como exemplo, ela relata já ter enfrentado dificuldades para recuperar aulas a que não poderia assistir por conta do preceito religioso, alegando despreparo de professores e instituições.
Bilhete encontrado na mesa
Porém, Raíssa não relaciona o episódio a algum tipo de preconceito. A única ocasião em que ela se sentiu verdadeiramente julgada por conta da religião ocorreu anos atrás, quando ainda congregava na Igreja da Graça.
A jovem foi atacada por meio de um bilhete deixado sobre sua mesa por um colega do Ensino Médio. A mensagem dizia que os pais dela, que são pastores, deveriam "parar de roubar o dinheiro das pessoas".
— Foi uma situação que me chateou muito. Sei que isso acontece em algumas igrejas, mas existem pessoas sinceras e que fazem as coisas da forma correta. Os meus pais são comprometidos com a missão que eles têm. Para mim, foi muito difícil vê-los pagar o pato por causa de gente mal intencionada que faz parte desse meio — desabafa.
Sensação de pertencimento
Raíssa relata encontrar em Deus a sabedoria necessária para lidar com os momentos difíceis. A fé faz com que seja alguém melhor, ela diz.
Às vezes, eu só quero explodir, resolver do jeito mais fácil, mas lembro que preciso viver aquilo que eu prego. A religião é o ponto de equilíbrio da minha vida, o que me leva a olhar com mais calma para as situações e a melhorar como pessoa.
RAÍSSA MENDES, 22 ANOS
Auxiliar administrativa
Para a jovem, a religião e a juventude não são coisas conflitantes. Pelo contrário: Raíssa sente que estar inserida em uma instituição religiosa traz uma sensação de pertencimento importante, que ajuda a enfrentar os altos e baixos desta fase da vida.
Ben-Hur concorda. Para o fiel da Igreja Brasa, é totalmente possível ser evangélico sem deixar de ser jovem.
— Existem princípios que são inegociáveis para o crente, mas a gente não vive em outro mundo. Eu posso ter amigos que professam outras fés, posso ir a uma festa, posso me divertir. Porém, tem coisas que não faço porque sei que não me convém — explica o jovem, relatando que parou de beber há cerca de seis meses.
Deus e pecado

Ben-Hur relata que a religião não proíbe o consumo de álcool e que bebia de maneira esporádica desde a sua conversão, mas sentiu um "chamado" para que cortasse totalmente o álcool de sua vida.
O processo não tem sido tão fácil, mas fazer a vontade de Deus é prioridade, ele diz:
— Gosto de tomar uma cerveja, gosto de comer uma comida e harmonizar com um vinho, mas a minha relação com Deus é muito mais importante do que isso. Ele sabe quem eu sou e sabe do meu passado. Se Ele me mostra que algo não vai me fazer bem, eu preciso entender.
Ben-Hur declara ser "radical" com a própria fé. O jovem concorda que a juventude costuma ser associada a visões mais progressistas, mas se considera um conservador e diz que procura olhar para as questões contemporâneas pela ótica da religião.
Entende que a homossexualidade é um pecado, por exemplo, mas pontua que todos são filhos de Deus:
— Uma pessoa que é homossexual vai precisar lutar contra esse pecado, assim como eu, que sou hétero, tenho os meus pecados e luto contra eles. Esse discurso é visto como conservador, mas existem princípios na fé. Não é possível viver uma prática ativa de pecado e dizer que é cristão, entende?




