
Nas décadas 1980 e 1990, os espaços comerciais de TV, de rádio e jornais do Rio Grande do Sul eram recheados de anúncios de lojas que vendiam móveis de Gramado. Salientando a elegância, a versatilidade e, principalmente, a durabilidade das peças, as propagandas criavam um desejo de consumo. Era questão de status ter um deles em casa.
Com o passar do tempo, este tipo de marketing foi diminuindo até, praticamente, não mais existir. Isto não quer dizer que este modelo de móvel perdeu a sua relevância. O cenário, no entanto, mudou. Se antes a economia de Gramado tinha como seu principal pilar os móveis feitos no município, hoje, o turismo tomou essa frente.
— Na época, nos anos 1980 e 1990, a indústria moveleira representava quase 80% do faturamento de Gramado, na questão de arrecadação de impostos. Hoje, representa menos de 10% da receita — salienta Felipe Werpp, presidente do Sindicato das Indústrias do Mobiliário da Região das Hortênsias (Sindmobil). — Mas, claro, é importante levar em consideração que, quatro décadas atrás, recebíamos em torno de 300 mil pessoas por ano. Hoje, são 8 milhões.
Então, apesar de as fábricas de móveis já não representam uma fatia da tão significativa para a economia da cidade, elas ainda estão presentes. Algumas se mantiveram pequenas, familiares, enquanto outras entraram na era do maquinário tecnológico e se transformaram em exportadoras, com foco em clientes de alto padrão.
Esmero e manualidade
Afastada do centro de Gramado, está a fábrica da Repalk Móveis. Fundada em 1999, a empresa familiar, liderada por Pedro Stumpf, conta hoje com seis funcionários trabalhando na confecção dos itens – cinco deles são da família.
Os móveis criados pelo pequeno empreendedor são vendidos, principalmente, em Porto Alegre. Na Capital, a família Stumpf tem duas lojas próprias, com o letreiro ressaltando que as peças são fabricadas em Gramado. Uma delas, inaugurada há poucos meses, devido à procura. O marketing de décadas atrás teve efeito, mas só ele não funcionaria.
— O diferencial é o móvel ser mais artesanal, mais trabalhado e, principalmente, ter mais madeira. Hoje em dia, os móveis têm pouca madeira. Os móveis que fazemos têm mais detalhes, são mais resistentes. São parafusados, pregados. E, principalmente, personalizados, sob medida — explica Stumpf.
O dono da Repalk Móveis destaca que fazer um guarda-roupa, por exemplo, levar uns "quatro ou cinco dias" para ser construído, uma vez que é feita peça por peça, "nada é feito em escala".
Este tipo de trabalho, em uma época de móveis seriados e padronizados – com matéria-prima como o MDF, que é confeccionado a partir de resíduos de madeira compactados e aglutinados por uma resina – ainda tem valor para quem procura por algo mais exclusivo. É o caso do mecânico Alexsander Sacin, que vem mobiliando a sua casa com os produtos oriundos da cidade:
— A minha mãe sempre teve móveis de Gramado. Então, desde criança, eu gosto. Existe um diferencial que é não fazer só o padrão. E eu sou detalhista com as coisas. Não é aquele móvel que tu chega na loja e é só uma medida, só tem aquele. Além de tudo, o material é durável, não tem problema de porta caindo. Não tem comparação — salienta Alexsander.
Claro, toda esta qualidade prometida tem o seu preço. E ele é mais alto do que os móveis padronizados, vendidos em lojas mais populares. Com o passar do tempo, muitos fabricantes assumiram a conexão com o cliente, deixando de apenas fornecer seus produtos para terceiros revenderem.
— Você produz bem menos, mas mantém o faturamento mais alto — explica o presidente do Sindmobil.
Na era da tecnologia
Se algumas fábricas se mantiveram pequenas, outras tornaram-se gigantes do setor. A Sierra Móveis é uma delas. Com um grande complexo fabril em Gramado, com 570 funcionários, a empresa exporta para o mundo todo – ao redor do planeta são 74 lojas, entre próprias e franqueadas. Mas todos os produtos são feitos na serra gaúcha.
Gestor de Exportação da loja, Alexandre Moroso destaca que a empresa, desde a sua fundação, em 1990 – no auge da popularidade dos móveis de Gramado –, já tinha como ideia atingir o público de alto padrão. Com a alta demanda, é preciso aplicar a tecnologia para entregar mais, mas a empresa não abre mão daquilo que consagrou as peças feitas na Serra: madeira de qualidade e a mão humana.
— A gente tem maquinário de alta tecnologia. Por exemplo, temos um torno CNC de última geração que agiliza, vamos dizer, o processo de usinar uma madeira. O acabamento, porém, dessa madeira é sempre feito através de um profissional. Então, nós temos um alto grau de participação do marceneiro, do artesão. Além disso, o nosso móvel possui um grau de customização altíssimo — diz Moroso.
Esta personalização das peças faz parte do projeto de entregar a experiência diferenciada para o cliente, que é no que apostam as fábricas dos móveis de Gramado. É este tipo de atividade que ajuda a valorizar o trabalho das empresas e a agregar valor ao produto final. A indústria moveleira dá emprego para 2,1 mil pessoas na cidade, de acordo com o Sindmobil.
— Por estarmos em uma região turística, temos aquilo que a grande indústria não tem, que é o atendimento personalizado. Este atendimento, este bem receber, bem atender, bem explicar, influencia positivamente para atendermos ao público alto padrão. Então, a soma entre um bom atendimento, uma localização para fechamento de negócio, que é a Gramado, e a mão humana ainda fazendo parte do pequeno ajuste, do detalhe, é o que nos diferencia — completa Werpp.




