
Há dezenas de caixas com corpos, cada uma devidamente catalogada. Entre prateleiras repletas de braços, pernas, troncos e cabeças, chama a atenção um recipiente transparente preenchido com pequenas mãos de bebês. Enquanto isso, os pacientes permanecem imóveis em cima de uma mesa, aguardando a operação.
Não é apenas um hospital, mas também pode ser considerada uma mecânica. Há carros aguardando consertos: alguns são miniaturas, outros funcionam por controle remoto, e há ainda os modelos elétricos. É possível encontrar robôs, monstros, dinossauros, heróis e até carrosséis, entre outros objetos.
Prestes a completar 50 anos em agosto, o Centro Técnica de Brinquedos segue recuperando sonhos e memórias da infância em Porto Alegre. Apenas duas pessoas trabalham nesta mistura de hospital e oficina mecânica, localizada no bairro Higienópolis: a recepcionista Angela Ellwanger e o proprietário Luiz Oscar Berthold.
Aos 72 anos, Luiz atua sozinho como médico-cirurgião, mecânico, técnico ou, simplesmente, restaurador de todos os brinquedos que chegam ao Centro. Ele estima consertar de 100 a 150 objetos por mês – uma média que não se compara aos cinco mil consertos registrados entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, quando ainda contava com uma equipe de reparadores.
— Só de bonecos Falcon e Barbies entravam uns 150 por dia, era muita coisa. Chegava a ter fila de gente no lado de fora esperando para consertar — recorda o proprietário.
Luiz se interessou pela área aos 17 anos. Queria trabalhar em um ramo em que a concorrência fosse ínfima e vislumbrou essa possibilidade no universo dos brinquedos. Ele concluiu o curso de Engenharia Mecânica e, em seguida, partiu para a França, onde realizou uma especialização em Psicologia Aplicada à Construção de Brinquedos. Ao longo dos anos, aliás, seguiu se atualizando e especializando nesse segmento.
É uma satisfação quando o cliente vê que o brinquedo está exatamente como era na época que o ganhou.
LUIZ OSCAR BERTHOLD
Proprietário do Centro Técnica de Brinquedos
Após retornar ao Brasil, Luiz trabalhou em diferentes empresas de entretenimento infantil até inaugurar o Centro Técnica de Brinquedos, no Centro Histórico, onde a sede funcionou por 20 anos. Há três décadas, o “hospital” ocupa parte de um prédio na Avenida Plínio Brasil Milano.
Quem reforçou o negócio foi o próprio pai de Luiz, Willy Berthold. Hoje com 98 anos e aposentado das funções no estabelecimento desde o começo dos anos 2010, ele não tinha experiência com brinquedos quando começou a trabalhar com o filho. Antes, atuava com tipografia e cartonagem. Já fez de tudo um pouco por ali: conserto, atendimento, contabilidade, entre outras atividades.
— É curioso: geralmente a profissão se passa de pai para filho. Mas no meu caso, foi de filho para pai — diverte-se.
Entre adaptações e expansões
Se houve um tempo em que o Centro acumulava milhares de clientes por mês, isso mudou com o passar das décadas. De acordo com Luiz, uma época crítica foi a ascensão das lojas de 1,99 e de produtos mais baratos e descartáveis vindos de países asiáticos, nos anos 1990. Ele conta que muitas fábricas no Brasil sentiram o baque e quebraram.
Com a procura pelo serviço diminuindo, Luiz expandiu a assistência para outros produtos, como agendas eletrônicas e câmeras digitais – hoje, ele também conserta drones. Os dois últimos funcionários que o auxiliavam nos consertos faleceram nos últimos anos, e ele nunca quis repor as vagas.
— Fiquei sozinho. Dá muito trabalho ensinar esse ofício. É uma função que essas pessoas aprenderam comigo e estiveram aqui desde o começo — explica. — Cada um consertava um tipo de brinquedo. Eram coisas muito específicas.
O preço do reparo pode variar, dependendo das peças e do trabalho exigido. Um conserto pode chegar a R$ 1,2 mil. Às vezes, o próprio técnico precisa fabricar as peças – como engrenagens ou corpo de boneca moldado em resina.
Se em outro momento Falcons e Barbies eram os brinquedos mais levados ao Centro, hoje a realidade é outra. Quando a reportagem de Zero Hora visitou o local, havia, na porta de entrada, meia dúzia de carros elétricos infantis estacionados. O número passa da dezena na parte interna do Centro. É um dos consertos mais requisitados.
Aliás, adentrar o Centro Técnica de Brinquedos é se deparar com prateleiras tomadas por caixas cheias de partes de brinquedos catalogadas – como “Tórax de Ken”, “Corpos de Barbie”, “Peças de bicicleta Bandeirante” – que compõe um generoso estoque de peças para reposição, além de produtos reparados ou à espera do conserto.
Nos fundos do Centro, há uma mesa de trabalho iluminada por luzes diretas. É ali que Luiz utiliza tesouras, pinças, alicates, diferentes formas de lupas, multímetros, entre outros equipamentos, para recuperar os brinquedos.
— Me dá uma alegria enorme cada conserto. Sou muito perfeccionista. Para mim, o brinquedo tem que sair perfeito, então procuro ver nos mínimos detalhes que ele fique 100% funcionando — garante. — É uma satisfação quando o cliente vê que o brinquedo está exatamente como era na época que o ganhou.
Brinquedos têm sentimentos
Entre alguns dos “pacientes” que a reportagem se deparou no Centro, havia dois jogos Genius, carrinhos de variados tamanhos, robôs, Batman, Ben 10 e bonecas de décadas passadas. Ainda, havia um carrossel com 280 leds, que foi enviado por um cliente que vive na França.
É comum o Centro receber brinquedos vindos de outros estados e países – especialmente bonecas. Por exemplo, além da França, Luiz lista que já vieram peças de Portugal, da Alemanha, da Turquia, entre outros.
Porém, é possível atestar que, há anos, a maior parte dos clientes que chegam ao Centro não são mais pais ou responsáveis buscando o conserto do brinquedo das crianças. Segundo Luiz, a procura que prevalece tem a ver com o valor afetivo: a nostalgia.
Para exemplificar, ele relata um Pinóquio de madeira que consertou recentemente, de um senhor de 80 anos. Ao recebê-lo, o técnico questionou se o boneco pertencia ao cliente na infância. Teve como resposta que não, na verdade, “o brinquedo era do avô do meu pai“. Logo, o bisavô do cliente.
Cada brinquedo tem um significado próprio no Centro. Há histórias envolvidas em cada reparo. É justamente isso que dá motivação para Luiz continuar realizando uma centena de consertos por mês:
— Eu já poderia estar aposentado. Só que a satisfação que tenho ao dar alegria não só para uma criança ou pessoa mais velha, de reaver aquele brinquedo que era tão importante quando ganhou. E aquilo vai ficando de geração para geração. É uma coisa que não tem preço. Brinquedos têm sentimentos.
Centro Técnica de Brinquedos
- Endereço: Av. Plínio Brasil Milano, 2.226, sala 201
- Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 13h30min às 18h
- Telefone: (51) 3361-4655


