
Um impasse envolvendo a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o movimento Aviva Universitário ganhou as redes sociais na última semana. O grupo, conhecido por promover cultos em universidades do país, realizou um evento de cunho religioso em frente ao Campus do Vale, em Porto Alegre, na noite de 12 de agosto.
Nas redes sociais, o grupo afirmou ter sido expulso da universidade e impedido de levar a iniciativa para dentro da UFRGS. Em entrevistas, representantes do Aviva Universitário também acusaram a direção da UFRGS de "discriminação religiosa".
GZH entrou em contato com o Aviva Universitário e a UFRGS para esclarecer o caso. Abaixo, confira o que diz cada uma das partes.
O que diz o Aviva Universitário
A reportagem conversou com o evangelista e influenciador goiano Lucas Teodoro, fundador do Aviva Universitário. O jovem explica que o grupo é uma organização missionária que percorre universidades do país para promover cultos e "ajudar os alunos cristãos". Segundo ele, não há vínculo com nenhuma igreja ou movimento político, e as viagens são custeadas através de doações e da venda de produtos em uma loja virtual.
Teodoro diz que o grupo entrou em contato com a UFRGS por e-mail pedindo autorização para realizar a ação no anfiteatro do Campus do Vale. Trata-se de um espaço a céu aberto, mas situado dentro do terreno da UFRGS, próximo a um dos Restaurantes Universitários.
Conforme o líder do Aviva, a resposta demorou a chegar, o que motivou novas mensagens por parte do grupo. Por fim, a universidade respondeu negando a permissão.
— Simplesmente negaram porque era um culto religioso. Explicaram que tinha que ter alguma ligação acadêmica, mas a nossa intenção era fazer apenas um culto voluntário com os alunos cristãos. A gente queria exercer a nossa fé, tirar um tempo para orar dentro da universidade. Não tem como isso ter ligação acadêmica — pontua.
O líder do Aviva afirma que o grupo tentou explicar melhor a proposta para a universidade, mas não obteve mais respostas. Segundo ele, "nunca foi a intenção fazer um grande evento na UFRGS, apenas uma reunião espontânea". Contudo, reconhece que as ações do grupo costumam reunir multidões.
— É porque todas as universidades do Brasil têm muitos cristãos. Quando a gente se reúne para expressar a fé, as pessoas querem participar.
Grupo reclama de agressividade dos seguranças
Diante da proibição do uso do anfiteatro, Teodoro explica que o grupo decidiu realizar o culto no gramado que fica situado na entrada da universidade, onde está localizado o letreiro da UFRGS, antes do portão que dá acesso ao Campus do Vale.
Conforme ele, quando os participantes começaram a se reunir, foram "expulsos pela segurança universitária". Lucas considera que a abordagem foi agressiva.
— Quando nós chegamos, tinha duas viaturas com oito seguranças esperando a gente. Nos trataram como criminosos, simplesmente disseram que a gente não poderia ficar ali. O chefe deles já chegou me puxando, falando de forma bem grosseira comigo. Eu acho que eles pensaram que íamos invadir a universidade, mas essa nunca foi a nossa intenção — afirma.
Após a abordagem, o grupo deixou o gramado da universidade e migrou para o canteiro central, localizado entre as duas faixas da Avenida Bento Gonçalves. O culto ocorreu ali e, de acordo com Teodoro, reuniu cerca de 500 estudantes.
Segundo ele, a equipe de segurança permaneceu posicionada na frente da universidade durante a realização do evento, o que fez com que se sentissem coagidos. O líder do Aviva também afirma que o grupo foi alvo de xingamentos proferidos por motoristas que passavam pela Bento Gonçalves.
— Foi algo bem humilhante, muito ruim mesmo. Algumas pessoas passaram até cuspindo na gente. Mas mesmo assim foi um momento especial, porque nada abalou a fé dos alunos — relata.
O que diz a UFRGS
A reportagem também conversou com a reitora da UFRGS, Marcia Barbosa. Ela afirma que recebeu um e-mail da organização do Aviva Universitário solicitando a utilização do anfiteatro do Campus do Vale para a realização do evento.
Segundo Marcia, o grupo não informou possuir vínculo com a universidade e formalizou o pedido somente depois de já estar divulgando o evento nas redes sociais, o que foi percebido pela reitora como "um desrespeito".
No e-mail de resposta, que foi compartilhado por Marcia com a reportagem, ela nega a solicitação de uso da área com a seguinte justificativa:
"Os espaços da UFRGS em sua maioria são destinados a eventos acadêmicos ou festivos co-organizados pelas distintas instâncias da UFRGS, sejam docentes, discentes ou técnico administrativos em educação que, neste processo, se tornam responsáveis em garantir que os eventos estejam dentro das nossas normas acadêmicas. Este não parece ser o caso, pois o evento não veio com a chancela de nenhuma das nossas unidades acadêmicas, portanto o espaço pretendido não poderá ser usado."
Conforme Marcia, a justificativa dada ao Aviva Universitário "foi a resposta que daria para qualquer evento que busca a universidade".
— Um evento dentro da UFRGS é um evento da UFRGS, então, precisa ter alguma ligação com a universidade, seja um projeto de extensão, um projeto de pesquisa, um diretório acadêmico ou até mesmo um servidor. É assim com todos os eventos realizados dentro da UFRGS. Porque, se acontece alguma coisa fora do esperado, a responsabilidade é nossa —ressalta.
No e-mail em que concretiza a negativa de uso do espaço, a reitora oferece duas outras alternativas ao grupo: alugar e/ou concorrer aos editais de ocupação do Salão de Atos da UFRGS ou do Centro Cultural da UFRGS. De acordo com Marcia, este é o procedimento padrão para eventos que não possuem vínculo com nenhuma instância da universidade.
Reitora nega intolerância religiosa
A reitora afirma que a negativa não teve qualquer ligação com a religião professada pelo grupo e nega que a UFRGS tenha praticado intolerância religiosa.
— Estão falando por aí como se fosse uma coisa específica com a religião, mas a minha resposta foi a mesma dada a qualquer organização de evento: "uma unidade tem que se responsabilizar ou vocês tem que concorrer aos editais de ocupação". Não estou nem respondendo sobre isso nas redes sociais porque me recuso a dar palco. Como sou presente (nas redes), as pessoas vêm me atacar.
Segundo Marcia, a UFRGS não proíbe a realização de eventos de cunho religioso:
— Eu interpreto a religião como um aspecto da cultura. A questão é que os trâmites precisam ser seguidos. Se eles tivessem engajado algum projeto de extensão ou de pesquisa, conseguido o apoio de alguma unidade ou concorrido nos editais de ocupação, como manda o protocolo da universidade, o evento aconteceria sem problemas. A UFRGS está sempre aberta ao diálogo, mas temos regras que precisam valer para todas as pessoas.
Chefe de segurança diz que abordagem foi cordial
Procurado pela reportagem, Mozarte Simões, chefe da Coordenadoria de Segurança da UFRGS, negou que a equipe tenha atuado de maneira agressiva.
Segundo o servidor, o contato com o líder do Aviva Universitário ocorreu na entrada do Campus do Vale, próximo ao letreiro da UFRGS. Simões diz ter explicado que o evento não poderia ocorrer naquela área, pois o trecho faz parte do terreno da universidade, e que o líder do grupo respondeu de forma amistosa.
— Ele me perguntou se poderiam fazer o evento no canteiro central (na frente da universidade, entre as duas faixas da Av. Bento Gonçalves), e eu disse que com certeza. Inclusive, como eles ficariam no meio da rua, combinamos que nossa equipe ficaria posicionada para garantir a segurança. Eles fizeram o evento lá no canteiro, nós ficamos do outro lado da rua, e não houve problema. Até perguntaram se poderiam orar por nós, e dissemos que sim. Quando o evento terminou, ainda nos cumprimentaram e nos agradeceram — detalha.
Simões afirma que a equipe de segurança ficou posicionada no terreno da universidade e não interferiu no andamento do culto, que ele estima ter contado com a participação de 150 pessoas. Também diz que toda a movimentação foi registrada pelas câmeras da universidade.
— Em nenhum momento pegamos ninguém pelo braço. Eu não sei por que eles falaram isso. Quando fiquei sabendo, estranhei, porque realmente foi muito pacífico. Inclusive, todos eles foram muito educados — destaca.




