
As denúncias apontadas por Felca no vídeo sobre adultização e erotização precoce de crianças e adolescentes, que repercutiu no país nesta semana, reforçam a importância de proteger crianças e adolescentes de perigos e exposições na internet.
Os cuidados nas redes sociais e na web devem ser mais um assunto básico no desenvolvimento de crianças e adolescentes, assim como a introdução alimentar, defende Aline Restano, psicóloga especialista em infância e adolescência e autora do livro Crianças Bem Conectadas.
A proteção começa com presença e diálogo contínuo para prepará-los para reconhecer e evitar riscos, acrescenta Nay Macêdo, psicóloga especialista na proteção infantojuvenil na era digital.
A conversa deve iniciar antes dos filhos terem acesso a internet, propondo reflexões sobre comportamentos e perigos. Na vida online, a autonomia dos pequenos também deve ser conquistada com preparo e supervisão.
De acordo com as psicólogas e delegados ouvidos por Zero Hora, as recomendações e medidas preventivas são:
- Adiar ao máximo o uso do celular (depois dos 14 anos) e o acesso a redes sociais (depois dos 16), incluindo mensagens instantâneas, para desenvolver mais a maturidade
- Liberar dispositivos de forma gradual e supervisionada
- Cadastrar os filhos nas redes sociais com a idade correta e configurar a privacidade
- Habilitar o controle parental em aplicativos e dispositivos e configurar alertas de segurança
- Monitorar o que crianças e adolescentes fazem na internet, nas redes sociais e nos jogos
- Ensinar a identificar comportamentos predatórios e mensagens de cunho sexual – mesmo aquelas disfarçadas de “diversão” em músicas, animações, games, humor ou publicidade
- Educar para a proteção digital: incentivar o senso crítico sobre pedidos de fotos, convites de estranhos, desafios virtuais, fornecimento de informações pessoais, entre outros
- Oferecer experiências presenciais, brincadeiras e conversas sem distrações
É preciso ficar atento com quem os filhos se relacionam no ambiente virtual, alerta o delegado Eibert Moreira Neto, diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos:
— Especialmente nesses aplicativos que são voltados para a utilização infantil e já há comprovação que também são usados por adultos para cooptar crianças para fins de exploração sexual.
Os pais devem alertar a criança sobre os riscos de postar fotos ou vídeos íntimos, mesmo que pareçam “inocentes”, que possam ser mal interpretados ou utilizados, recomenda o delegado Raul Vier, diretor da Divisão Especial da Criança e do Adolescente (Deca).
Monitorar não é invadir a privacidade, é exercer cuidado, salienta Nay. Se os pais perceberem que não conseguirão monitorar de modo frequente, vale repensar se é o momento de liberar o acesso aos dispositivos – mesmo para um “joguinho”.
— Bastam alguns minutos sem supervisão para que algo irreversível aconteça: seja contato com um predador, exposição a conteúdo nocivo que às vezes surgem até em banners de propagandas ou compartilhamento de imagens que saem do controle — alerta a psicóloga.
Também é fundamental não confiar completamente em aplicativos de monitoramento – os adultos precisam ser a barreira que filtra riscos e ensina a navegar de forma ética e segura.
Como evitar exposição dos filhos
Os pais devem evitar publicar fotos dos filhos em suas próprias redes e optar por contas fechadas, recomenda Aline Restano. Também é aconselhado aceitar apenas amigos próximos, e não contas comerciais ou relações profissionais.
Outro alerta é jamais postar vídeos e fotos das crianças que a exponham de alguma forma – sem pensar só na erotização, mas também em vídeos vexatórios que no futuro podem gerar constrangimento. Se for muito importante compartilhar, o ideal é utilizar recursos que permitam restringir o conteúdo a pessoas específicas.
Isso porque, mesmo em páginas privadas, o risco não é zero. Grande parte das agressões contra crianças e adolescentes parte de conhecidos, e, em muitos casos, pessoas comuns, acima de qualquer suspeita, armazenam imagens indevidamente.
Além disso, o direito de imagem é pessoal: pertence à criança, não aos adultos – nem à escola. Elas têm direito à privacidade, a construir a própria identidade digital quando tiverem maturidade e não têm discernimento para consentir com o uso.
Publicar imagens é uma decisão de alto impacto. O objetivo não é promover medo ou culpa, mas alertar, frisa Nay Macêdo.
Por que a solução para a "adultização" na internet não depende apenas de lei? Entenda o papel dos pais e da sociedade na outra parte desta reportagem.
O que fazer em caso de perigo
Em caso de conteúdos problemáticos envolvendo crianças, a orientação é não compartilhar (nem para “denunciar”) nas redes sociais e denunciar imediatamente à polícia, às plataformas e à SaferNet, conforme Vier. Também é importante registrar informações para auxiliar na investigação.
Em situações nas quais os pais suspeitam que o filho esteja passando por alguma exposição ou cyberbullying, é importante conferir as atividades e conversas online.
Em caso de exposição, deve-se interromper imediatamente o uso da plataforma onde ocorreu o contato inadequado e conversar com a criança de forma calma e acolhedora. É importante guardar provas para a polícia e denunciar, além de adotar medidas de prevenção para evitar novas ocorrências, acrescenta o delegado.
Sinais de alerta
- Mudanças repentinas de comportamento ou humor
- Isolamento social ou perda de interesse por atividades habituais
- Uso excessivo e secreto de celular, tablet ou computador
- Redução do desempenho escolar
- Troca repentina do vocabulário (termos ou gírias fora do contexto da idade)
- Agressividade incomum ou alterações na rotina (ex.: troca do dia pela noite)
- Interesse por conteúdos inapropriados, como violência extrema ou de cunho sexual.
Como denunciar:
- Polícia Civil
- Delegacia Online: delegaciaonline.rs.gov.br
- Disque 100 (Brasília)
- Disque 181 (Secretaria de Segurança Pública)
- WhatsApp para Denúncias da Polícia Civil: (51) 98444-0606




