
Há quase 10 anos, a vida de uma família no interior de São Paulo não é mais a mesma. Em 2016, Glaucia Andressa dos Santos Gomes, aos 27 anos, decidiu "adotar" uma idosa. Maria Cotinha dos Santos Gomes, a Cota, está hoje com 73 anos — conforme estimado por médicos e por histórias que circulavam no Hospital Beneficência Portuguesa de Araraquara (SP).
As duas se conheceram na instituição, em 2010. Glaucia trabalhava como copeira e auxiliar de cozinha. Já Cota vivia no hospital desde que apareceu por lá, ainda criança. Quando a instituição foi à falência, a idosa foi levada para um abrigo. Glaucia tomou, então, uma decisão: Cota moraria com ela.
Como está a família
Por volta de 2018, o caso começou a ganhar maior repercussão após Glaucia buscar ajuda nas redes sociais para conseguir fazer os documentos de Cota, que sequer tinha um nome registrado.
A história da família viralizou. Um canal no YouTube chamado Histórias de Terapia fez um minidocumentário com o relato de Glaucia, em 2020 (veja abaixo). Hoje, o conteúdo já tem mais de 1,4 milhão de visualizações. De tempos em tempos, o vídeo é compartilhado por diferentes perfis nas redes sociais e gera curiosidade entre os usuários a fim de saber como está a família.
Glaucia, hoje com 36 anos, conta a Zero Hora como está a filha mais velha:
— A Cota está com saúde para dar e para vender, mas não vai vender para ninguém (risos). Ela está muito bem, graças a Deus. A Cota mudou da água para o vinho. Ela era muito estressada, convivia em um ambiente estressante, que era o hospital. Quem estava lá eram só pessoas que trabalhavam e pessoas doentes, então ela adquiria toda aquela energia baixa. Hoje ela está bem, dá risada, sorri, você não vê ela braba mais, coisa que era normal ver ela lá no hospital.
Há cerca de dois anos, Glaucia sofreu um acidente de trânsito e quem a ajudou nos cuidados durante a recuperação foi Cota.
— Ali eu vi que nada é por acaso. Deus usou eu e ela para uma cuidar da outra. Nós estamos bem, né, Cota? Tu está bem? — pergunta Glaucia à Cota.
— Tá bem — murmura a idosa.
Assista ao vídeo que popularizou a história da família:
Conheça a história
Embora idosa, Cota tem comportamentos semelhantes ao de uma criança. Ela não consegue se comunicar de forma plena, mas, por meio de gestos e alguns sons, faz Glaucia entender o que quer dizer.
Cota morava no Hospital Beneficência Portuguesa de Araraquara (SP) desde que apareceu por lá pela primeira vez. Glaucia explica que a história que circulava na instituição era de que Cota, quando tinha por volta de 10 anos, foi atropelada em uma rodovia, junto a uma criança menor, que acabou não resistindo aos ferimentos. Cota chegou com diversas lesões ao hospital e por lá ficou desde então.
Em 2016, após a instituição declarar falência, Cota foi levada para um abrigo. Glaucia decidiu ir atrás.
— Ela me viu e começou a chorar, porque estava assustada, não estava com as coisas dela. Ela estava em um lugar em que ela não conhecia ninguém — lembra.
Foi ali que Glaucia prometeu que tiraria Cota do abrigo em três dias.
— Eu resolvi levar a Cota para a minha casa, achando que o hospital ia voltar, que eu ia ter meu emprego de volta e a Cota ia ter o cantinho dela de volta, porque a vida dela era o hospital. A Cota morava ali desde quando era pequena — acrescenta.

Não foi o que aconteceu. Mas, mesmo desempregada e com uma bebê de um ano e meio para cuidar, Glaucia decidiu que a idosa deveria morar com ela.
— Eu agi com a emoção, eu não pensei nas dificuldades. Simplesmente eu peguei ela e levei para casa. Aí, de repente, eu já estava me vendo como mãe dela — reforça.
Glaucia diz nunca esquecer o dia em que a cama, o guarda-roupa e as bonecas de Cota chegaram à casa dela. A felicidade da agora filha mais velha ficou gravada na memória.
Embora com saúde, a família fica atenta ao histórico da idosa. Cotinha tem um problema no coração, mas Glaucia ressalta que o médico informou não ser necessário remédio no momento. E, devido ao pulmão frágil, qualquer gripe é capaz de se tornar uma pneumonia na idosa. Em relação à mobilidade, ela tem dificuldades para andar por ter ficado com uma perna torta após quebrar um osso e não passar pela devida recuperação.
A rotina
A família é mais caseira, como descreve Glaucia. Ela, a filha Emilly dos Santos Hermínio, 11 anos, e Cota conseguem passear quando a organização e as finanças permitem.
No dia a dia, a idosa tem gostado de pintar desenhos — e Emilly curte esse passatempo junto a ela. O quarto de Cota é cheio de bonecas, segundo Glaucia.
Os momentos em família e eventuais pedidos de ajuda são compartilhados nas redes sociais (no Instagram, @glaucias2santos_e_familia).
— Quando a Cota fica doente, eu coloco (nas redes), e as pessoas me ajudam — pontua Glaucia.
O nome
No hospital, a então menina que havia sofrido um acidente começou a ser chamada de Cota ou Cotinha — um apelido para Maria, segundo Glaucia, que foi atrás da Justiça para fazer os documentos da idosa. Desde 2018, o nome está registrado: Maria Cotinha dos Santos Gomes, mantendo o apelido e ganhando o sobrenome de Glaucia.
Embora, na certidão, o nome de Glaucia não entre na parte específica de "mãe", o sentimento existente entre as duas é de mãe e filha.
Glaucia acredita que, ao ver Emilly a chamando de "mãe", Cota tenha associado e aprendido a chamar também. Ela lembra de um momento que marcou a relação das duas: quando Cota foi abrir uma torneira e a água disparou. Naquele momento, ela pediu pela "mãe". Para Glaucia, ali ficou nítida a confiança de Cota nela.
Do outro lado, o sentimento de maternidade em Glaucia surgiu quando ela viu que Cota estava sozinha, diante do fechamento do hospital:
— Ninguém ligava para saber se ela estava bem. Eu acho que ali foi criando o verdadeiro amor de mãe para filha. Eu não vejo a minha vida sem elas. A minha vida é por elas: é pela Emilly e pela Cota.
Seria possível uma adoção?
Especialista em direito de família, a advogada Mariana Petersen Chaves explica que hoje ainda não há um regramento jurídico para uma adoção aos moldes de como seria no caso de Glaucia e Maria Cotinha.
— A adoção de pessoas maiores é regida pelo Código Civil e tem alguns requisitos bem importantes. Dentre eles, a diferença de idade entre a mãe do adotante e o adotado, mas sempre com a ideia de que essa mãe precisa ser mais velha do que a filha — esclarece.
Segundo a advogada, existem projetos de lei em andamento que poderiam levar à alternativa da chamada senexão. Nesta modalidade, a ideia é agregar o idoso aos cuidados da convivência familiar.
No caso de Cota, ainda de acordo com a especialista, uma possibilidade para tentativa de adoção seria a comprovação das características mentais da idosa, que são muito semelhantes a de uma criança.
Mariana ressalta que, ao se tornar filha, Cota teria direitos alimentares, previdenciários e de herança, por exemplo. Glaucia, por sua vez, responderia pela vida civil de Cota, tendo todas as consequências jurídicas que pai e mãe têm como obrigações.




