
— São Pedro é amigo das gays — comemoravam os animados participantes da 18ª Parada de Luta LGBT+.
Isso porque a previsão do tempo, durante a semana, apontava que este domingo (13) seria feio e de chuva. Mas foi ao contrário. Os arco-íris que se abriram nas bandeiras de quem estava no Parque Farroupilha, a Redenção, mandaram para longe qualquer nuvem carregada que pairasse sobre Porto Alegre. O sol apareceu e a temperatura foi agradável, com os termômetros atingindo 20ºC.
A concentração começou na Redenção ao meio-dia e a previsão é que os sete trios elétricos partissem em comitiva até a Usina do Gasômetro às 15h, puxando o público que lá estava — mas atrasou. A organização do evento projeta que ao menos 50 mil pessoas tenham participado da Parada, que havia sido adiada por conta das chuvas que pairavam sobre o Estado — a data inicial era 29 de junho.
O casal Gabriel Corrêa Silveira, 23 anos, e Jean Pedro Nunes da Silva, 19, ambos de Porto Alegre e, atualmente, desempregados, estavam de mãos dadas e olhando com admiração para cima do trio elétrico, aplaudindo cada reivindicação feita pelos líderes do evento. A dupla, enrolada em bandeiras coloridas, acredita que as mudanças ocorrem assim: ocupando os espaços, para que haja a naturalização de suas presenças na sociedade.
— Estar aqui é uma forma de mostrar que a gente existe, que não é uma fase, que é uma coisa que existe dentro da gente. É importante para mostrar que a gente é dono dos nossos direitos, que a gente luta pelos nossos direitos, que a gente não está aqui à toa — destaca Gabriel.
O seu companheiro, Jean Pedro, faz coro, mas vai além:
— Estamos aqui para mostrar o nosso orgulho por nós mesmos, nos amar por quem nós somos, por quem a gente ama. Nos orgulhamos por nossa existência.
Também com uma bandeira amarrada no pescoço, tal qual uma super-heroína usando uma capa, a cartomante Eduarda Soares, 19, e a sua namorada, a estudante Maria Eduarda Baptista, 19, repararam que mais gente se agregou ao movimento nesta 18ª edição da Parada LGBT+. Esta já é a quinta vez que as duas participam do evento.
— É um movimento político. A nossa comunidade ainda sofre muito preconceito. Então, esse evento é muito importante para as pessoas serem quem são, poderem estar ocupando as ruas em Porto Alegre — destaca Maria Eduarda.
— Este é único momento do ano em que, por exemplo, tu podes sair de casa com uma bandeira sem muito medo. A gente pode se beijar, se abraçar, ter afeto na rua, e isso é muito importante. E, além de tudo, é um dos poucos períodos em que tu tens um entretenimento na rua, porque cada vez está ficando mais entediante e difícil. É orgulho, é uma luta, mas é uma comemoração também — complementa Eduarda.
As lutas
Além da celebração e do orgulho LGBT+, a 18ª Parada de Luta também levanta outras pautas importantes para a comunidade, como a redução da jornada de trabalho, a diversidade, os direitos a saúde, moradia e educação, além do combate a LGBTfobia. O evento é organizado pelo ativista, advogado e apresentador Roberto Seintenfus.
Durante a concentração, houve homenagem em memória da apresentadora da Parada, Sylvinha Brasil, cujo troféu foi dado aos apoiadores da diversidade sexual. A premiação foi entregue pelos ativistas e apresentadores Gaio Fontella, psicanalista, e Vagner Oliveira, advogado especialista em direito homoafetivo.
— Neste ano, a gente coloca em pauta a questão do fim da escala 6x1 que, para nós, é muito importante. Primeiro, porque muitos LGBT's não podem nem estar aqui hoje porque trabalham em uma escala 6x1. Em vários mercados, seja telemarketing, supermercados e outros, na ponta, quem está lá, na sua grande maioria, é a comunidade LGBT — enfatiza Roberto.
E, de fato, as reivindicações foram abraçadas por quem ali estava. A Parada de Luta saiu da Avenida Setembrina, ao lado da Redenção, às 15h40min, com uma multidão acompanhando os sete caminhões. Entre os cartazes carregados pelos participantes, estavam as reinvindicações que eram pauta do evento, mas, também, com os dizeres: "Crianças trans existem" e "fora Trump".
— Esse é um momento de visibilidade, de mostrar que realmente a gente existe. É um momento de festa, mas é um momento de libertação. A gente está aqui hoje para mostrar que faltam legislações para defender a gente. É tão difícil estar em um país mata LGBT's. Então, hoje, é para comemorar estar vivo e a resistência de todos nós — diz Vagner Olivera, com a mais brilhante das roupas do evento.

Percurso
Durante o trajeto, que levou 1h45min da Redenção até a Usina do Gasômetro, o público cantou e comemorou o tempo inteiro, tomando de refrigerante a quentão, carregando leques com as cores do arco-íris. De cima dos trios, os animadores clamavam:
— Saiam das calçadas. Hoje é dia de tomarmos as ruas da cidade.
Puxando os trios, parte da bateria da escola de samba Imperadores do Samba fazia um samba cheio de energia. E, em cada caminhão, músicas diferentes animavam os participantes — indo de Brasil, eternizada na voz de Gal Costa e que é abertura de Vale Tudo, Voando pro Pará, de Joelma, até a clássica I Will Survive, de Gloria Gaynor. Das janelas dos prédios, os porto-alegrenses acenavam e faziam dancinhas, animados.
Todo o trajeto foi percorrido sem nenhum tipo de ocorrência, com segurança, respeito por quem encontrava o grupo pelas ruas e alegria. Abraços, beijos e mãos dadas eram comuns. Só amor pelas ruas.
Os trios chegaram na Usina do Gasômetro às 17h25min, levando uma multidão para se encontrar com que já estava às margens do Guaíba, fazendo festa. No total, foram 40 atrações musicais confirmadas.





