
Por Robson de Freitas Pereira
Psicanalista, membro da Appoa
Porto Alegre é uma cidade singular. Às vezes, estamos refazendo um trajeto conhecido e somos surpreendidos. Outras vezes, parece que parou no tempo, tudo tão igual. Porém, mesmo essa ideia de que a cidade parou pode ser relativizada: ela depende de nosso olhar. Pois, quando menos se espera, ela nos surpreende, se modifica. Et pur si muove, parafraseando Galileu.
As coisas, a paisagem ou a nossa fisionomia se modificam quando nosso olhar consegue se movimentar. Quem nunca se espantou quando um dia, ao se mirar no espelho, enxergou marcas da passagem do tempo que ontem mesmo não estavam ali. Sempre há algo que nos é furtado da visão imediata. Esta é uma das nossas características fundamentais: estamos sempre ocupados com nossa imagem (mesmo os indiferentes) e projetando inconscientemente essa imagem na paisagem, no espaço que habitamos. Já se deram conta de que os animais, mesmo os domésticos, pets tão aculturados por nós, perdem rapidamente o interesse pelos espelhos? Nós. não. Atravessamos infância, adolescência e idade adulta fascinados pelo mistério das imagens que vemos e projetamos algo de nós. Seja nosso carro, casa ou o espaço urbano. A casa e a rua que habitamos passam, misteriosamente, a fazer parte de nossa intimidade, para o bem e para o mal.
Estes 250 anos de fundação de Porto Alegre estão sendo comemorados num momento também singular. Vivemos hoje um “quase pós-pandemia”, retomando aos poucos lugares e encontros. Tempo de recompor a presença após vivenciarmos uma cidade quase fantasma. Felizmente, podemos retornar ao convívio de parentes, amigos e estranhos que habitam a mesma pólis. Um retorno sempre acontece com incertezas e surpresas, pois o futuro não está garantido.
Nestes dois séculos e meio a cidade foi abalada em sua imagem e configuração diversas vezes. Uma delas, a enchente de 1941. Quem puder visitar a exposição sobre o fotógrafo Sioma Breitman (em cartaz no Farol Santander) poderá ver e ouvir, através da apresentação das fotos, o impacto que a invasão das águas causou na vida cotidiana. Barcos circulando pelas ruas do Centro e até na Cidade Baixa! Passada a enchente, até hoje lidamos com seus efeitos. A relação com o Guaíba, cujo pôr do sol é nosso orgulho, mas cujas margens e paisagem ficaram fora de nosso olhar por muito tempo. E o famoso Muro da Mauá, erguido para nos proteger e que hoje é objeto de questionamentos: 80 anos depois, não haveria novas tecnologias que pudessem evitar outras enchentes e não impedir o acesso ao Guaíba?
No acesso à orla, as bordas, os contornos que a cidade adquire se define a imagem que temos do lugar onde vivemos. Houve um tempo em que a população podia tomar banho e fazer piqueniques ao lado do Gasômetro. Da mesma forma, os galpões do cais, depois de desativados de suas funções portuárias, abrigaram outras atividades que permitiram o acesso da população. No início do século 21, o Fórum Social Mundial, que tinha como slogan “Um outro mundo é possível”; depois a Bienal do Mercosul e mesmo a Feira do Livro se expandiram pelo cais. Hoje, há empreendimentos como o Embarcadero e a feira de tecnologia e startups South Summit, que promete reocupar esses galpões. As discussões sobre o aproveitamento do espaço, a respeito de que tipo de ocupação deve ser privilegiado, se o convívio público ou negócios, fazem parte da vida comunitária e de um exercício democrático de cidadania.
A psicanálise insiste no fato de que nossa relação com a cidade tem uma estreita relação com nossa subjetividade. Mais do que estreita, uma interdependência que articula a intimidade psíquica e a materialidade do corpo e das construções. Alguns autores chegaram a escrever sobre a “porosidade” da cidade e mesmo sobre “o corpo encantado das ruas” para metaforizar essa articulação enigmática e evidente simultaneamente.
Apropriação e intimidade, duas faces da moeda que representa sujeito e cidade. Tema caro à psicanálise porque tem a ver com a implicação de cada um com seu lugar e história. Podemos passar a vida achando que as ruas pertencem aos outros. Sem nos autorizarmos a frequentar e nos apropriarmos de um patrimônio de valor inestimável. Não estamos nos referindo só a museus e centros culturais, mas também uma circulação apropriativa que inclui os passeios a pé, ou sair para encontrar os amigos e ouvir música ao vivo. Se cuidar desse patrimônio for tarefa exclusiva do Outro, só veremos crescer a violência urbana e a degradação de lugares que têm um valor que vai além capacidade de consumo. Sem falar que os muros ficarão cada vez mais altos.
Essa apropriação íntima da relação com a cidade tem como suporte o reconhecimento de um desejo que concerne a cada um e que começa com a constatação de que sempre há uma parte de nós que desconhecemos. Mas o mistério não se resolve ignorando o novo ou fixando velhas defesas. Há uma experiência que busca possibilitar outras respostas que não sejam a construção de novos muros ou só a sustentação dos antigos. Apostamos que o desejo é um enigma que pode abrir uma perspectiva, um sonho de futuro que, quanto mais permeável, poroso, talvez precise de menos muros como garantias. No futuro da cidade estamos todos implicados.
A Jornada
Com o tema “O lugar da instituição na formação de psicanalista”, o evento será realizado sábado que vem, dia 9, das 9h30min às 17h, em uma sala virtual com acesso via plataforma de vídeo. Participarão Ana Costa, Liz Nunes Ramos, Manuela Mattos e Sidnei Goldberg, além de Robson Freitas Pereira, que falará sobre “O amor a cidade e o desejo do psicanalista”. Outras informações no fone (51) 3333-2140, no WhatsApp (51) 9-8137-5614 (horário comercial) e em appoa.org.br.