
Uma releitura da Cinderela com gatos ao invés de humanos. A vida da boneca Barbie no Rio de Janeiro. A rotina frustrante de um picolé de chocolate. Essas e outras histórias existem graças às novelas feitas com inteligência artificial, que circulam amplamente nas redes sociais.
Publicadas em formato short, ou seja, vídeos verticais curtos, essas novelas são uma nova tendência online e somam milhões de visualizações.
Os motivos? Elas atraem cada vez mais público por conta dos enredos exóticos e podem representar um novo capítulo para a indústria audiovisual.
As primeiras novelas de IA
Em redes sociais tradicionais como o TikTok, Facebook e Instagram, perfis destinados à roteirização, produção e publicação de novelas feitas com IA não param de crescer. A cada dia, novas contas com esse propósito são criadas para disseminar o conteúdo. No entanto, as primeiras tramas foram desenvolvidas na China, ainda em 2024.

Uma das primeiras já viralizou: a novela Pé de Chinesa, que envolvia caricaturas de personalidades brasileiras famosas e foi publicada como se fosse de autoria de Glória Perez. Seu sucesso possibilitou outras produções geradas com a Inteligência Artificial.
A estagiária Bruna Caroline Nunes, 20 anos, começou a assistir a essas produções quando elas ainda cresciam nas mídias chinesas, em especial no aplicativo Xiaohongshu (conhecido em português como Pequeno Livro Vermelho).
O fator inicial que mais chamou a atenção de Bruna nessas novelas foi a dublagem "tosca", característica que acompanhou as produções mesmo quando elas migraram para outras plataformas — inclusive as estadunidenses.
— A maioria delas (as novelas chinesas) era legendada em português ou tinha dublagem de IA. E a dublagem era tão tosca que eu me apaixonei, elas eram muito melhores — conta.
Junto com a dublagem, a estagiária também comenta que o formato seriado das produções foi outro elemento que a atraiu para esse universo.
Fórmula consagrada
Uma das características das novelas de IA é a sua publicação como vídeos verticais curtos. Isso possibilita que as tramas sejam postadas em formato seriado, adaptadas às diretrizes que cada plataforma define.
Portanto, para garantir a continuidade da narrativa, as tramas criadas com IA são publicadas em uma sequência de vídeos separados que, ao todo, contam uma história completa.
O formato seriado oferece uma familiaridade ao olhar do público. Ele pode parecer uma novidade, mas já é uma "fórmula consagrada", de acordo com Roberto Tietzmann, 53 anos, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e pesquisador de cultura audiovisual digital:
— O conteúdo seriado funciona muito bem para manter as pessoas retornando. É um tipo de construção narrativa que é muito antiga, mas ao mesmo tempo sempre volta — explica.
Contudo, além do formato seriado combinado ao funcionamento algorítmico das redes, existe algo que se destaca especialmente nas produções de IA: o roteiro.
Do prompt à novela
Foi o roteiro das novelas de IA que mais chamou a atenção da professora Carmem Lúcia Pasetto, 53 anos, enquanto ela navegava pelo Facebook e Instagram. Segundo ela, o "enredo e o tipo de história" narrado pelas tramas se desenrolam de forma original.
Em alguns casos, conforme Roberto Tietzmann, esse roteiro é criado por "um modelo de linguagem", que são as IAs mais comuns: ChatGPT, Gemini e afins.
A partir de um comando (ou prompt), os modelos de linguagem podem roteirizar, produzir e gerar imagens que criem uma narrativa de novela. Porém, esses modelos ainda têm problemas para criar algo que se encaixe no chamado "bom senso", o que explica os enredos inusitados:
— Isso permite, por um lado, que essas formas de comunicação, esses produtos culturais, explorem coisas que, mesmo que de uma forma meio nonsense (sem sentido), as novelas normais não exploram — diz Tietzmann.
A forma do nonsense
A forma do "sem sentido", mencionada pelo professor, também apareceu em outras novidades tecnológicas, como a própria animação no início do século 20. Ela atrai um público que busca encontrar "exatamente aquilo que procura", mas que também pode se surpreender com o "imprevisível".
Aliados ao nonsense, os roteiros das novelas também oferecem ao espectador a "possibilidade de explorar outros universos" já existentes, de acordo com Bruna Caroline. Isso ocorre pois as histórias geradas com IA podem usar personagens já conhecidos — como a boneca Barbie — e colocá-los em outro contexto.
Para Bruna, essa característica relaciona as produções de IA às fanfics, que são histórias originais criadas por fãs, baseadas em uma obra já existente.
— (Com as novelas de IA) as fanfics ganham vida — fala.
Graças à união desses gêneros narrativos, as possibilidades de histórias que podem ser construídas com IA se amplifica. Desde uma "mistura de drama com romance", que é a preferida por Carmem, até cenários fantasiosos ou científicos, muitos exemplos são possíveis.
— Quero fazer um curta-metragem passado na Lua? Agora dá. Agora é fácil. Não preciso ir para as dunas e botar (um filtro) em preto e branco pra dizer que é a Lua, dá pra fazer um cenário de Lua mesmo — comenta Roberto.
O outro lado do entretenimento
No entanto, mesmo com tantas possibilidades à frente, ainda é preciso ter cautela e pensar nas questões éticas que uma produção de IA implica.
Se uma produção audiovisual é feita com inteligência artificial desde a etapa da roteirização até a captação de imagens, sua autoria pode ser atribuída a um ser humano? Ou, o sucesso das novelas de IA pode representar um "apagamento" dos profissionais que trabalham no meio artístico?
Para Tietzmann, a possibilidade é pequena. O professor aposta mais na futura "hibridização" do processo, que poderá unir tanto mãos humanas, quanto máquinas. Para ele, a IA assumiria um papel de sugerir ideias, mas quem selecionaria isso ainda seria um humano, o autor do conteúdo.
— A IA é muito boa em fazer volume de produção. Ela é um fermentão. Mas volume não necessariamente quer dizer mais originalidade ou aquela relação que toca o coração do artista e que vai tocar alguém da plateia — diz.
Segundo Tietzmann, o sucesso dessas histórias está nas mãos da audiência e de sua capacidade de se conectar com essas tramas inusitadas. Só o tempo dirá se elas são mais um fenômeno passageiro das redes sociais ou se vieram para ficar e mudar a indústria audiovisual de forma definitiva:
— O que vai ser? Vai depender da massa de pessoas assistindo, né? Se vai ter a Odete Roitman das novelinhas verticais — Ri o professor, referenciando a personagem icônica da novela Vale Tudo, que não foi feita com IA.
*Sob supervisão de Leonardo Sá
