
O carro é um dos bens que mais se desvalorizam no Brasil. A queda começa já no primeiro quilômetro rodado: basta sair da concessionária para que o veículo zero passe a ser considerado usado e, automaticamente, tenha parte do preço reduzido. Mas o tempo de uso não é o único fator que pesa nessa conta.
Na avaliação de mercado, pesam outros fatores que vão desde a quilometragem até mesmo a cor escolhida pelo comprador. Segundo a Vaapty, empresa que atua na intermediação de venda de veículos, esses elementos podem reduzir em até 20% o valor final, afastando interessados e tornando a revenda mais difícil.
De acordo com especialistas, manter manutenções em dia, conservar pintura e estofamento e optar por cores mais aceitas são práticas que ajudam a preservar o preço. Já reparos estruturais, modificações fora do padrão de fábrica e quilometragem considerada alta estão entre os principais motivos de desvalorização.
O que mais derruba o valor de um carro?
Manutenção em dia é o primeiro critério avaliado na hora da revenda. Um veículo que cumpre o calendário de revisões passa mais confiança e tende a manter o preço por mais tempo. Para o fundador da Vaapty, Ycaro Azevedo, a ausência de cuidados básicos pode acelerar a perda de valor.
— As manutenções precisam estar em dia. Quando eu falo disso, se inicia nas concessionárias, onde tem o período de garantia. Tirando a parte dos desgastes naturais, que é aceitável, o problema é quando não há essa manutenção, o que desgasta o câmbio, motor, suspensão. É uma série de itens que, na hora da avaliação, serão levados em consideração — explica Azevedo.
A quilometragem também é determinante. Dois carros iguais podem ter valores diferentes apenas pelo número registrado no hodômetro. E, embora a quilometragem isolada não garanta a qualidade do veículo, o mercado brasileiro ainda usa esse dado como "linha de corte".
— Temos dois carros de 2022. Um tem 100 mil quilômetros e o outro tem 50 mil. Claro que pode ser que o carro com menos rodagem não tenha garantia, ou o de maior tenha mais manutenções. Porém, as pessoas no Brasil são muito apegadas a isso, até porque não existe um programa de depreciação de veículos. Isso assusta os compradores — observa o especialista.
Ele lembra que existem referências distintas de uso conforme o tipo de carro. Um veículo de frota costuma rodar cerca de 30 mil quilômetros por ano, enquanto um modelo popular gira em torno de 15 mil. Já em sedãs médios e carros de luxo, a expectativa de rodagem é menor, em torno de 10 mil quilômetros anuais.
O Corolla, por exemplo, para ser considerado de baixa quilometragem, precisa ter em torno de 30 mil quilômetros em três anos de uso para ser considerado de quilometragem baixa. O problema é que, mesmo quando o carro está em perfeito estado e com revisões em dia, o número sozinho pesa demais na avaliação.
Batidas e reparos estruturais
O histórico de acidentes ou batidas é outro fator na hora da avaliação. Pequenos reparos, como arranhões ou colisões de baixa monta, costumam não interferir tanto no preço. Mas quando há impacto estrutural, a desvalorização é inevitável.
— Se é uma colisão leve, com pequenos reparos, isso não impacta. Agora, se for algo que afete chassi, longarina ou coluna, aí, sim, o carro perde valor, mesmo com conserto — afirma Azevedo.
Segundo ele, a perícia cautelar, etapa comum em negociações de usados, aponta se o veículo já passou por reparos significativos. E como esses reparos são executados também pesa na avaliação.
— Quando as pessoas vão reparar o veículo, tem que levar numa boa oficina, que vai entregar uma qualidade de pintura, de reparo. Não adianta querer economizar, achando que está tendo uma economia, e perder lá na frente, reduzindo a chance de revenda — completa o especialista.
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Tem um carro e quer saber quão desvalorizado ele pode estar? Responda:
Quais cores vendem e quais afastam compradores
Vermelho vibrante, azul metálico ou até um amarelo ousado podem chamar a atenção no showroom. Mas, na prática, o gosto pessoal do comprador nem sempre combina com o que o mercado aceita. É nessa hora que a cor do carro pesa na desvalorização.
— Para não errar, é melhor optar por preto, branco, prata ou chumbo. Essas cores são as mais aceitas e garantem maior procura — aponta Azevedo.

O especialista lembra que a lógica varia conforme o segmento. Nos carros populares, as cores neutras dominam quase todas as revendas. Já em sedãs e SUVs de luxo, há mais espaço para ousar sem comprometer tanto o valor.
Em resumo: quem escolhe tons sóbrios vende mais rápido. Quem aposta em cores chamativas, como vermelho, azul vivo ou amarelo, pode enfrentar mais resistência e precisar baixar o preço para fechar negócio.
- Cores que preservam valor: branco, preto, prata e chumbo (cinza)
- Cores que podem desvalorizar: vermelho, azul vivo, amarelo e tonalidades personalizadas
Modelos fora de linha, peças de reposição e cuidados
Nem todo carro que sai de linha perde valor de imediato. Modelos populares com rede de assistência ampla, como Uno ou Celta, continuam circulando bem no mercado de usados.
O problema é mais comum quando a montadora não garante a mesma estrutura de manutenção ou quando se trata de marcas com presença limitada no Brasil. Mesmo um carro em bom estado pode perder espaço no mercado se faltar segurança na hora da manutenção.
— O fato de sair de linha não impacta tanto na depreciação de veículos populares. O que pesa é quando o carro é de uma marca muito específica, como modelos importados ou de montadoras menores, como alguns chineses, com menos oferta de peças ou assistência técnica — explica Azevedo.
Além disso, vale ressaltar que nem sempre a desvalorização vem de grandes problemas mecânicos. Alterações estéticas ou de estrutura também pesam na avaliação, porque fogem do padrão de fábrica. O estado do interior também entra na conta.

— Uma película de proteção no estofamento vai impactar o calor interno que o carro recebe por dentro, gerando menor depreciação no estofado, na parte do painel. Uma pintura de roda não tem problema nenhum, mas uma alteração já não é bem vista. Carro rebaixado também, uma suspensão que levaria três anos para se depreciar, vai se depreciar pela metade do tempo — acrescenta Ycaro.
Por fim, estofados manchados, painéis danificados e cheiro de cigarro ou mofo são detalhes que reduzem a atratividade. Já pequenos cuidados, como usar película para proteger contra o sol, ajudam a preservar estofamento e plásticos internos.
Como manter o valor do carro?
Preservar o valor de um veículo começa primeiro com disciplina nas manutenções. Seguir o calendário do fabricante e guardar registros de cada revisão é a primeira garantia de que o carro não perderá preço além do esperado.
— É uma condição sine qua non (indispensável) para que o carro tenha direito a usufruir da garantia que as revisões sejam realizadas corretamente — destaca Douglas Goulart, gerente-geral de pós-vendas da Savar Mercedes-Benz Automóveis.
O cuidado vai além da mecânica. Pintura preservada, lavagens feitas com produtos adequados e reparos realizados em concessionárias ou oficinas de confiança evitam que pequenos danos levantem desconfiança sobre problemas maiores.
— Às vezes é só um para-choque, mas se o acabamento do reparo não ficar perfeito, o comprador pode imaginar que houve um acidente mais grave. Isso já deprecia o valor do veículo — completa Goulart.
Hábitos simples também ajudam: manter os pneus calibrados, abastecer em postos de confiança, evitar exposição prolongada ao sol e não deixar o carro sob árvores com risco de sujeira de pássaros. São cuidados que não custam caro e fazem diferença.
Como é avaliado o valor de um carro usado
Na hora de negociar um seminovo, o ponto de partida costuma ser a Tabela Fipe, que traz o preço médio praticado no Brasil. Mas esse número é apenas uma referência: a condição do veículo, sua quilometragem e até a aceitação do modelo no mercado podem colocar o valor acima ou abaixo da tabela.
— A referência é a tabela Fipe. Dependendo de quanto o mercado deseja esse carro, ele pode ter um preço acima ou não. Tudo vai depender da quilometragem e do estado de conservação — diz o gerente.
Marcas com reputação de durabilidade e confiança, tendem a manter preços mais altos justamente pela procura. Já modelos de pouca circulação ou com dificuldade de reposição de peças perdem competitividade.
Na prática, cada detalhe pesa: desde o aspecto da pintura até a regularidade das revisões. É por isso que veículos com histórico bem documentado costumam ser vendidos mais rápido e com menos margem de negociação.
O que a Tabela Fipe considera:
- Marca, modelo e ano do veículo
- Preço médio de referência para pagamento à vista
O que a Tabela Fipe não considera, mas é levado em conta pelo mercado:
- Estado de conservação
- Quilometragem
- Cor da pintura
- Acessórios instalados
- Diferenças regionais de demanda
Para que serve a Tabela Fipe:
- Base para negociações de compra e venda
- Referência em contratos de seguro
- Cálculo de financiamentos
- Cobrança do IPVA
Como consultar:
- Acesse veiculos.fipe.org.br
- Selecione o tipo de veículo (carro, moto ou caminhão)
- Escolha marca, modelo e ano
- Clique em "Pesquisar" para ver o preço médio de referência.




