
Em meio a jornadas de trabalho que beiram as 10 horas diárias e dezenas de quilômetros rodados, motoristas de aplicativo ainda precisam cuidar para não gastar muito nos postos de combustíveis. A resposta para economizar gasolina não está em um único segredo, mas em um conjunto de escolhas: direção consciente, manutenção preventiva, planejamento das corridas e, muitas vezes, a busca por alternativas ao tanque tradicional.
Segundo um levantamento da plataforma GigU, que monitora a renda e os custos dos trabalhadores por app no Brasil, cerca de 92% dos motoristas estão endividados. Em 68% dos casos, essas dívidas comprometem despesas básicas, como alimentação, aluguel e contas domésticas.
Em Porto Alegre, segundo a plataforma, a média de ganhos gira em torno de R$ 3,5 mil, e quase 30% dos motoristas utilizam veículos alugados, o que reduz ainda mais a margem de lucro. O gasto mensal com gasolina chega a R$ 2,2 mil.
Dirigir com pressa sai caro
A forma de conduzir o carro é o primeiro passo para a economia, e talvez o mais negligenciado por quem está começando na profissão. A pressa, que parece inevitável diante das metas do dia, costuma sair caro na bomba.
— O ideal seria sempre o motorista conduzir com o pé mais leve possível, mantendo ali algo próximo aos 2.000 giros, 2.500 giros no máximo, para obter um consumo melhor do carro. Quanto menos esforço o carro fizer, menor tende a ser o consumo — destaca Rodrigo Viegas, criador de conteúdo do canal AutoCerto, focado em orientação automotiva.
Rodrigo explica que o segredo está no equilíbrio: nada de forçar o motor com acelerações bruscas ou manter o giro nas alturas, especialmente no trânsito urbano.
— Às vezes, você está a 60 km/h, mas em quinta marcha, com giro baixo, vai economizar mais. Até por isso na estrada o consumo costuma ser melhor do que em ruas mais movimentadas, porque ele mantém uma velocidade constante numa marcha alta e o giro mais baixo — completa.
O ar-condicionado é outro "vilão" escondido, principalmente nas paradas longas ou em congestionamentos — situação comum em grandes cidades. Para Rodrigo, o segredo está em usar o sistema quando realmente necessário e saber que, quanto mais for exigido do motor, maior será o consumo. O peso do carro também importa:
— Quanto mais peso estiver carregando, mais força o motor vai precisar fazer e mais combustível vai ser injetado na câmara de combustão. Já o ar-condicionado, ele acaba roubando um pouco de potência do motor e influenciando, principalmente no trânsito mais parado — acrescenta.
Saber a hora e o lugar de rodar
Para além dos hábitos do dia a dia, economizar não é apenas dirigir direito: tem a ver também com inteligência de operação. Isso porque, muitos motoristas, especialmente os iniciantes, ainda acham que basta ficar na rua o máximo possível para lucrar.
Mas o segredo, segundo Cleiton Muller, motorista de aplicativo com mais de 40 mil seguidores no canal Uber Renda Extra, está em identificar os horários de maior movimento e as regiões mais lucrativas da cidade.
— O ideal é escolher os melhores horários, das 5h da manhã até as 9h e das 16h às 20h, que são horários de pico. E evitar trabalhar das 9h até as 11h, que são horários de baixa demanda. Também é válido ficar de olho em postos com aplicativos de desconto, porque tem vários lugares que conseguem até R$ 1 de desconto na gasolina — conta ele.
Outro erro recorrente é o de aceitar qualquer corrida. O motorista deveria pensar como gestor: analisar o destino, evitar trajetos para bairros sem movimento e planejar a volta.
— Sair aceitando qualquer corrida é um erro recorrente. O ideal é escolher bem as corridas que você vai, evitar ir para lugares afastados, sem demanda, porque vai exigir que você volte batendo lata. No final das contas, vai desgastar o carro e ter um maior consumo de gasolina — reforça.
Hoje, muitos aplicativos de navegação e gestão financeira facilitam esse cálculo. Ferramentas como o Waze, que aponta rotas mais curtas, e apps, como o RebU e o próprio GigU, que calculam o ganho por quilômetro rodado, ajudam o motorista a fugir das tais "corridas ruins".
— A Uber, hoje, está botando tarifas baixas e ficando com 30% a 40% das taxas, então vale manter um aplicativo para calcular os ganhos e pegar corridas melhores, que paguem acima de R$ 1,50 a R$ 2 o quilômetro — finaliza.
Revisar o carro evita desperdício
Por mais que seja essencial seguir hábitos inteligentes e cuidar da rota, não adianta de nada se o veículo não estiver funcionando adequadamente. Por isso, manter atenção à saúde do carro é fundamental, mantendo uma avaliação periódica.
— Os injetores, filtros do ar do motor, filtro de combustível, óleo, geometria, balanceamento, calibragem dos pneus. Tudo influencia no consumo. Um pneu murcho, por exemplo, já aumenta o gasto — resume Gustavo Magano de Almeida, Chefe de Oficina na Savar Toyota Porto Alegre.
Nos postos de combustíveis, a tentação do preço baixo também é uma armadilha frequente para os motoristas. Por isso, Almeida ressalta que abastecer em qualquer lugar pode comprometer não só o rendimento, mas também a vida útil do motor.
— Muitas vezes o pessoal procura o valor mais baixo, mas nem sempre o combustível vai ser de qualidade. Isso faz total diferença para o consumo. Se você abastece num posto e vê que o carro faz menos média, é sinal de problema. Agora, se fez mais média, é bom sinal — alerta Gustavo.
Por isso, acompanhar sistematicamente a média de consumo do veículo não é exagero: é um método prático de monitorar a qualidade do que vai para o tanque e prevenir prejuízos silenciosos.
— Quem acompanha a média e faz o cálculo, percebe que com um combustível de maior qualidade, o carro se torna mais econômico — acrescenta.
GNV e híbridos: alternativas para quem roda muito
Por fim, para quem roda acima de 200 quilômetros por dia, soluções alternativas como o GNV e os carros híbridos têm chamado a atenção dos motoristas.
A decisão, porém, exige planejamento, adaptação e pesquisa. Gustavo explica que o GNV pode ser um aliado da economia, mas demanda cuidados extras que muitos motoristas só descobrem depois de já ter feito a conversão.
— O GNV até compensa, mas exige manutenção mais rigorosa. Velas, sistema de injeção, tudo tem que estar em dia. É preciso fazer revisões mais frequentes, trocar peças em intervalos menores, antes da instalação, tudo tem que colocar na balança.
Os carros híbridos, por sua vez, têm chamado a atenção de quem busca praticidade sem abdicar do conforto ou da autonomia.
— É interessante. Pois entrega economia, autonomia e não depende de tomada, diferente dos elétricos. Para a nossa realidade de hoje, de transição, eu vejo o híbrido como uma boa opção. Até pela qualidade do carro, que não tem custos, nem grandes manutenções, como é o caso do Corolla — termina.
10 dicas para economizar como motorista de aplicativo
Combinando direção eficiente, planejamento e manutenção, é possível economizar combustível mesmo em longas jornadas. A seguir, confira 10 dicas para poupar no dia a dia:
- Dirija com suavidade, evitando arrancadas bruscas
- Mantenha o giro do motor entre 2.000 e 2.500 rpm
- Use o ar-condicionado com moderação, especialmente no trânsito parado
- Calibre os pneus semanalmente e mantenha o alinhamento em dia;
- Evite peso desnecessário no porta-malas
- Abasteça no mesmo posto de confiança
- Observe a média de consumo do carro a cada abastecimento
- Trabalhe nos horários de pico e em regiões com maior fluxo
- Use apps de rota e cálculo de ganhos por quilômetro
- Considere GNV ou carro híbrido se a quilometragem diária for alta.
*Produção: Murilo Rodrigues


