
Caracterizadas pela dilatação das veias das pernas, as varizes estão entre os problemas de saúde mais comuns entre os idosos.
Segundo estimativa da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), cerca de 70% das pessoas com mais de 70 anos convive com a condição. Ainda assim, muitos pacientes deixam de procurar tratamento por acreditarem que, na terceira idade, já não é mais possível operar.
Entretanto, conforme o cirurgião vascular Claudio Nhuch, vice-diretor de defesa profissional da SBACV, esse entendimento ficou no passado.
Ele explica que, antigamente, evitava-se tratar idosos porque a única opção era a cirurgia tradicional, que exige anestesia geral e repouso prolongado. Mas o tratamento para varizes avançou nos últimos anos, com tecnologias e técnicas minimamente invasivas.
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Além disso, segundo o especialista, a idade já não é o único fator a ser considerado na avaliação das alternativas terapêuticas.
— Precisamos entender o que é ser idoso hoje. Temos pessoas de 70, 80 e até 90 anos extremamente saudáveis e ativas. Levamos muito mais em consideração a condição física e clínica do paciente do que a idade cronológica, de modo que um idoso saudável pode ser submetido até mesmo ao tratamento cirúrgico — comenta.
O que são varizes?
As varizes são a manifestação visível da doença venosa crônica, uma alteração do sistema circulatório que prejudica o transporte do sangue ao coração.
Segundo o cirurgião vascular Oscar Rockenbach, do Hospital São Lucas da PUCRS, chamamos de varizes os vasos sanguíneos superficiais que ficam dilatados e tortuosos em razão da doença.
Além do efeito estético — uma vez que as veias ficam visíveis sob a pele —, essa condição pode trazer incômodos e impactar a qualidade de vida.
— Grande parte dos pacientes apresenta sensação de peso nas pernas, dor, inchaço e coceira. Com o tempo, podem surgir alterações na cor da pele, flebites superficiais (caroços endurecidos causados pela inflamação das veias varicosas) e úlceras varicosas (feridas associadas a varizes antigas não tratadas, que se formam geralmente na região do tornozelo) — explica Rockenbach.
Entre os principais fatores de risco estão histórico familiar, obesidade ou sobrepeso, sedentarismo, hábito de ficar em pé ou sentado durante muito tempo e envelhecimento – o que explica a alta prevalência da doença entre os idosos.
De acordo com Rockenbach, isso ocorre porque o colágeno presente nas paredes das veias naturalmente se torna menos resistente. Conforme a idade avança, favorece sua dilatação. Nhuch acrescenta que a perda de massa muscular característica do envelhecimento também contribui para a piora do quadro.

Quais as melhores opções de tratamento?
- Endolaser
O cirurgião vascular Claudio Nhuch explica que o "padrão ouro" do tratamento é o endolaser, uma técnica minimamente invasiva que permite "secar" os vasos varicosos sem a necessidade de grandes cortes ou intervenções.
O procedimento consiste na inserção de uma fibra óptica ultrafina nas veias doentes por meio de um pequeno furo na pele. O material emite um laser que fecha e seca a variz por dentro, sem que as veias precisem ser retiradas. Depois, o próprio organismo absorve o vaso.
— O endolaser é feito apenas com anestesia local. O paciente pode retomar sua rotina quase imediatamente. É necessário utilizar meias de compressão e evitar esforço intenso por alguns dias, mas não é preciso fazer repouso, o que reduz os riscos de trombose e o tempo de recuperação — detalha Nhuch.
- Escleroterapia com espuma densa
É indicada para o tratamento de varizes menores. Nesta técnica, uma substância espumosa, à base de polidocanol, é injetada diretamente nas veias doentes, promovendo seu fechamento.
Conforme Nhuch, a escleroterapia é ainda mais simples que o endolaser e costuma ser realizada no próprio consultório, sem precisar nem mesmo de anestesia local — embora, para pacientes mais sensíveis, possa ser utilizado algum anestésico tópico.
A recuperação prevê o uso de meias, mas sem maiores restrições.
- Cirurgia convencional
A cirurgia convencional envolve uma conduta mais invasiva e, por isso, tem um pós-operatório delicado. No procedimento, o cirurgião retira as veias doentes de dentro da perna, puxando-as através de cortes feitos, geralmente, nos tornozelos e nas virilhas.
A operação envolve anestesia geral ou raquianestesia (a injeção é feita nas costas e o paciente permanece acordado, mas sem sensibilidade nos membros inferiores).

Devido às incisões, é necessário levar pontos e usar faixas nas pernas durante os primeiros dias, além de meias de compressão. O repouso relativo também é indicado por um período mais longo, de uma a duas semanas, dependendo da dimensão do procedimento realizado.
Rockenbach explica que a ideia de que os idosos não podem fazer cirurgia de varizes está relacionada, justamente, ao pós-operatório mais complicado e à necessidade de anestesia. Entretanto, segundo ele, somente a idade não desabilita o paciente ao procedimento.
As técnicas minimamente invasivas são preferíveis para quem tem mais de 60 anos, mas os idosos com condições clínicas adequadas podem realizar também a cirurgia convencional.
— Cada caso deve ser avaliado de forma individual. O importante é deixar claro que ser idoso não impede o tratamento. O cirurgião vascular vai avaliar as condições clínicas do paciente para escolher entre laser, espuma ou cirurgia — diz Rockenbach
Acesso ainda é desafio
Apesar do avanço nas alternativas de tratamento, o acesso ainda é um desafio para boa parte da população. Isso porque no Sistema Único de Saúde (SUS) somente estão disponíveis a cirurgia convencional e a escleroterapia com espuma densa, que não consegue tratar varizes maiores.
O endolaser – melhor opção para idosos que apresentam varizes importantes e não podem passar pela cirurgia – não está disponível na rede pública e não faz parte da cobertura obrigatória dos planos de saúde.
Isso faz com que muitos pacientes fiquem sem tratamento ou sejam submetidos à cirurgia convencional, mesmo com riscos. Além disso, o tempo de espera costuma ser elevado para usuários do SUS.
— A fila da cirurgia de varizes é uma das maiores — diz Rockenbach, que atende pela rede pública no Hospital São Lucas da PUCRS. — Em instituições de alta complexidade, a especialidade precisa priorizar casos graves como AVC, aneurisma e obstruções arteriais com risco de perda de membro. Como as varizes são uma doença de baixo risco, acabam ficando por último na fila — esclarece.
Mutirão para reduzir a fila
Foi justamente para reduzir essa espera que a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) criou o mutirão Brasil Sem Varizes, que será realizado em todo o país em 15 de agosto, quando se celebra o Dia do Cirurgião Vascular.
Cerca de cem centros de saúde distribuídos em 17 Estados participarão da ação, que realizará cerca de dois mil procedimentos gratuitos para pacientes que aguardam pelo tratamento.
— Faremos cirurgias, escleroterapia com espuma e endolaser, este último graças a doações de fibras que recebemos. É uma grande ação social de médicos doando seu tempo para reduzir filas que se arrastam por anos — detalha Claudio Nhuch, que coordena o projeto junto à SBACV.
Em Porto Alegre, participarão do mutirão a Santa Casa, o Hospital de Clínicas, o Hospital Conceição e o Hospital São Lucas da PUCRS. Instituições do interior do Estado também aderiram à ação, como o Hospital Geral de Caxias do Sul.
No Hospital São Lucas da PUCRS, por exemplo, 10 pacientes serão atendidos: três por endolaser, seis com espuma densa e um por cirurgia convencional.
— Vamos conseguir tratar 10 pessoas em um único dia. Sem o mutirão, esses pacientes esperariam muito tempo — observa Rockenbach, médico da instituição.
Claudio Nhuch explica que os pacientes que serão atendidos no mutirão já foram contatados pelas instituições de saúde. Conforme o coordenador, a ação será acompanhada pelo RankBrasil — espécie de Guinness Book brasileiro —, a fim de ser registrada como a maior mobilização de especialidade médica para tratamento de uma doença única no país.












