Ao planejar um envelhecimento saudável, é comum pensar no fortalecimento de braços, pernas e tronco para preservar a mobilidade e a independência. Mas, para além dessas regiões do corpo, existe um conjunto de músculos que costuma ser deixado de lado na rotina de exercícios físicos. Só que ele contribui diretamente na qualidade de vida depois dos 60 anos: o assoalho pélvico.
Localizado na base da pelve, ele funciona como uma espécie de rede de sustentação para órgãos como a bexiga, o intestino, o útero e a próstata.
— (O assoalho pélvico) Participa do controle da urina e das fezes, da função sexual, da estabilidade da coluna e do aumento da pressão abdominal em atividades como tossir, espirrar ou levantar peso — explica a médica Ana Selma Bertelli Picoloto, que é especialista em uroginecologia e estática pélvica feminina.
É uma musculatura que trabalha de forma praticamente contínua ao longo da vida sem que a pessoa perceba
ANA SELMA BERTELLI PICOLOTO
Especialista em uroginecologia e estática pélvica feminina

Com o avanço da idade, assim como ocorre com os demais músculos, essa região perde força. O enfraquecimento, segundo a especialista, pode favorecer problemas como a incontinência urinária e fecal, prolapso dos órgãos pélvicos (quando eles "caem") e dificuldades no controle intestinal.
Para prevenir e tratar essas alterações, as recomendações incluem avaliação médica e o treinamento da musculatura do assoalho pélvico (TMAP).
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O treino pode ser usado tanto no tratamento quanto na prevenção de problemas pélvicos. Os primeiros resultados costumam aparecer entre seis e 12 semanas de exercícios regulares, segundo a coordenadora do curso de Fisioterapia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Mara Regina Knorst.
— A resposta depende da gravidade dos sintomas, adesão ao tratamento e capacidade de realizar a contração corretamente. Pessoas em qualquer idade podem se beneficiar do treinamento. Estudos demonstram ganhos de força e melhora dos sintomas mesmo em idosos muito longevos — ressalta.
Os exercícios mais comuns incluem os de contração e relaxamento da região de forma ritmada, conforme orientação profissional. Em alguns casos, esses treinos podem retardar ou pôr fim ao uso de fraldas.
Melhora na qualidade de vida
Além da melhora na saúde física, os benefícios causados pelo treinamento do assoalho pélvico podem chegar aos aspectos sociais e emocionais, garantindo aumento da autoestima e diminuição do isolamento causado pelo medo de escapes em público.
— Muitas pacientes voltam a frequentar atividades sociais que haviam abandonado por medo de perder urina. Em idosos, isso significa mais independência e qualidade de vida — explica Ana Selma, que também é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Foram esses ganhos que Maria da Conceição Tolentino, 70 anos, começou a observar desde que iniciou a rotina de exercícios, em maio.
— Aquela urgência, aquele medo de sair na rua e pensar que já vai me dar vontade de ir ao banheiro, isso eu não estou tendo mais. Vou tranquila, sem medo de ter que voltar correndo para casa — afirma.
A mudança na rotina da moradora de Porto Alegre ocorreu por meio de um grupo de saúde pélvica da Unidade de Saúde Vila Floresta, na zona norte da Capital.
O grupo se reúne quinzenalmente para tirar dúvidas, trocar experiências e exercitar a região. Nas semanas em que não há encontro, orientações são repassadas via internet pela equipe.
— Quando você está com esse problema, você se sente isolada. No grupo, você vê que muitas pessoas estão no mesmo universo, e que tem tratamento. Melhora o físico, o mental e a autoestima — acrescenta Maria da Conceição, que realiza treinos diários.

A iniciativa surgiu de uma demanda interna da unidade de saúde após enfermeiras identificarem, durante o exame citopatológico (papanicolau), pacientes que poderiam apresentar perda urinária. Os casos foram repassados para uma equipe especializada, que desenvolveu o grupo.
— Uma das frentes é a educação em saúde. É muito importante democratizar essa informação, de fazê-las (as mulheres) entenderem sobre as disfunções do assoalho pélvico, sobre menopausa, ressecamentos. A gente também faz exercícios para estimular a contração da musculatura e percepção corporal, o que ajuda em diversos problemas de saúde — explica a fisioterapeuta Ana Paula Martini, que coordena o grupo.
Mulheres interessadas em participar do grupo podem procurar a Unidade de Saúde Vila Floresta, na Rua Conselheiro D'Ávila, 111, no bairro Jardim Floresta, em Porto Alegre.
Na recepção, é possível registrar a intenção de integrar o grupo de saúde pélvica. Apesar da recomendação, não é preciso realizar uma consulta prévia. Mais informações pelo WhatsApp da unidade: (51) 3362-6727.
Como exercitar o assoalho pélvico
Existem diferentes exercícios para a região. Os mais comuns consistem no relaxamento e na contração desta musculatura.
O primeiro passo é identificar a musculatura para realizar contrações, seguidas de relaxamento. Os exercícios podem ser feitos de forma lenta ou com contrações rápidas, conforme a orientação profissional. Veja opções de treinos:
- O exercício do "elevador": feito sentado em uma cadeira, com os pés apoiados e o tronco levemente inclinado para a frente. Depois, o paciente é convidado a imaginar que a musculatura do assoalho pélvico é um elevador. A contração começa no "térreo" e sobe gradualmente. Depois, assim como um elevador, a musculatura deve ser relaxada e voltar para a posição inicial.
- Agachamento funcional: o paciente realiza agachamentos ao mesmo tempo que contrai o assoalho pélvico. Isso fortalece a região para movimentos do cotidiano, como abaixar para pegar um objeto ou levantar-se.

Erros comuns
- Contrair o abdômen, os glúteos ou as coxas em vez do assoalho pélvico
- Prender a respiração durante o exercício
- Fazer força excessiva
- Não relaxar a musculatura após a contração
- Tentar interromper o fluxo de urina durante a micção como forma de treinamento. Isso pode causar infecções
- Fazer exercícios sem saber a real causa do problema
O que é importante saber
- Homens também se beneficiam? Sim, especialmente após cirurgias de próstata e em casos de disfunções sexuais
- Quanto tempo para ver resultados? Geralmente entre seis e 12 semanas de treino regular
- Pode evitar fraldas? Em muitos casos, o treinamento reduz significativamente as perdas e pode evitar ou retardar a necessidade de fraldas e absorventes
- Acompanhamento profissional: embora o treino possa ser feito sozinho, a supervisão de um fisioterapeuta ou médico capacitado aumenta a eficácia e garante que a técnica está correta

















