A porto-alegrense Glacy Aveline de Aveline Berté pode ser considerada uma testemunha ocular da história. Nascida em 30 de novembro de 1920, a moradora do bairro Teresópolis, na Zona Sul, tem 105 anos.
Ela recorda em detalhes fatos antigos, como a passagem do dirigível Graf Zeppelin sobre a cidade em 1934, a Exposição do Centenário Farroupilha realizada no Parque da Redenção (1935-1936), a enchente de 1941 e a Campanha da Legalidade, em 1961, além da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Quando o dirigível alemão protagonizou evoluções sobre a Capital, por exemplo, Glacy ainda não tinha completado 14 anos. Ela estava na Rua José do Patrocínio, onde a família morava. Olhou para o céu e deslumbrou-se:
— Era lindo. Muito lindo.
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No ano seguinte, seria realizada a Exposição do Centenário Farroupilha, no Parque da Redenção. Empolgada, pretendia comparecer na festa de inauguração. O local ficava perto de sua casa:
— Eu ia ver a festa, mas depois a minha mãe recebeu uma visita e a gente não pôde sair para ver. Vi só de longe.
Dificuldades na guerra
O período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) também impactou a vida em Porto Alegre. Segundo lembra Glacy, houve dificuldade para encontrar alguns itens básicos nos mercados.
— Foi muito ruim. Não tinha nada e precisávamos andar atrás de tudo para comprar leite. Foi muito difícil para conseguir as coisas — divide.
Um dos irmãos dela foi inclusive aviador na guerra. Ele integrou o 1º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira (FAB), que esteve nas campanhas da Itália e do Atlântico Sul.

A enchente de 1941 é outro episódio que conta em detalhes. O número total de flagelados oscilou na imprensa entre 60 e 80 mil. Conforme dados do governo estadual da época, 90% das indústrias da cidade e a maior parte do comércio foram atingidos, totalizando 1,5 mil empreendimentos.
— Eu estava em São Francisco de Paula (na Serra). Custei para descer (para Porto Alegre), porque o ônibus que nos trazia não pôde passar. Levei quase um mês. Vi a enchente em Canoas: um barco passava e (um tripulante) levantava o fio da luz com uma cadeira para passar — detalha.
O homem mesmo que provoca tudo isso. Não respeita nada. Por isso que acontecem essas coisas muito ruins
GLACY AVELINE DE AVELINE BERTÉ
105 anos
Tensão na Legalidade
Entretanto, um dos acontecimentos mais emblemáticos na história da cidade, a Campanha da Legalidade de 1961, foi marcada por certa tensão em sua família.
Glacy ainda vivia em Torres, no Litoral Norte, e o seu marido era radioamador. Do Morro do Farol, ele ajudava um comandante e outros militares no envio e recebimento de mensagens. Ele teria inclusive auxiliado um coronel e outros oficiais a acharem hospedagem por lá.
A situação à época pode ser resumida da seguinte maneira: seu marido não gostava do então governador Leonel Brizola — líder do movimento que assegurou a posse do vice-presidente do Brasil João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros.
Por sua vez, os brizolistas não gostavam dos radioamadores por eles auxiliarem o Exército e retransmitirem notícias e informações. Por fim, Brizola também não acalentava simpatia pelos militares.

No período que a covid-19 gerou uma pandemia, passou incólume ao vírus. Mas testemunhou o sofrimento de outros parentes. E ainda acompanhou, por meio dos noticiários, os dramas da população na enchente de 2024.
— A gente via aquelas notícias todas, aquelas pessoas todas passando trabalho na enchente. Saindo de casa, até morrendo. Muito horrível — lamenta.
A covid foi brabo, né. As guerras também. Tudo isso foi muito difícil
GLACY AVELINE DE AVELINE BERTÉ
105 anos
Segredos da longevidade
Viúva, com seis filhos, 13 netos e oito bisnetos, a idosa exibe saúde invejável. Teve pneumonia no ano passado, mas ficou apenas dois dias internada no Instituto de Cardiologia e recebeu alta.
Também faz tratamento para problema na tireoide. Atualmente, necessita de aparelho auditivo e, às vezes, de um andador para auxiliar nas caminhadas. Porém, ainda toma banho sozinha e há pouco tempo cozinhava.
— Eu me sinto bem. Estou saudável. Agora que estou com dificuldades para ouvir e caminhar — compartilha.

Com vincos profundos no rosto — como se fossem um atestado das tantas décadas vividas —, a centenária morou também em Bagé, na Campanha, além de Porto Alegre e Torres. Por volta de 1965, voltou para a Capital.
Estudou no Colégio Bom Jesus Sévigné e não cursou faculdade. Foi dona de casa e dava aulas particulares de língua portuguesa, ciências e matemática para crianças.
Dona Glacy conta que nunca fumou, bebia vinho ocasionalmente e tomava refrigerante de forma moderada. Confessa que sempre tomou pouca água e não praticava atividade física. Nas horas de lazer, andava a cavalo. E gosta de churrasco.
Para se tornar uma centenária, não precisou desenvolver uma fórmula mágica ou fazer algo muito distinto do que a medicina recomenda. Vive em sua própria casa, na companhia de uma das filhas. Tem uma rotina regrada, com horário para acordar, dormir e comer.
Como passatempo, ela lê jornal impresso — seu colunista predileto é Fabrício Carpinejar —, faz tricô e palavras cruzadas. Não gosta de usar a internet. Questionada sobre o prato favorito, ela responde e solta gargalhadas:
— Feijão com arroz. Comida de pobre.
E acrescenta:
— Adoro batata frita.

As dicas de longevidade de dona Glacy
- Alimentação saudável
- Comer legumes, verduras e frutas
- Beber água
- Beber refrigerante de forma moderada
- Não ingerir álcool
- Não fumar
- Praticar exercícios físicos
Porém, para dona Glacy, o mais importante é estar rodeada pelos familiares. Talvez aí esteja o segredo para se tornar uma centenária com tanta qualidade de vida.
— Isso é essencial para mim. É muito importante eu reunir toda a família. Agora tem os bisnetos pequeninhos. Era o meu sonho de criança. Eu sempre dizia para a minha mãe que eu queria casar e ter bastante filho. E a mãe dizia que os filhos não eram como a boneca, que eu botava no guarda-roupa quando eu quisesse. E eu tive bastante filho — conta.
A filha Ana Maria de Aveline Berté, 65, é quem mora com ela e considera um "privilégio" ter a companhia da mãe.
— É uma pessoa rica de experiências. Eu aprendo com ela todos os dias. Não é uma coisa fácil, uma carga emocional muito grande. Mas a gente faz com alegria — fala a filha.

Segundo Ana Maria, a mãe ainda é muito regrada e come de tudo. Porém, para evitar riscos de algum engasgo, há algumas restrições em relação aos alimentos sólidos.
— A mãe faz fonoaudiologia, esse tratamento para deglutição, porque quando a gente fica mais velho vai perdendo os músculos da garganta. Então, eu tomo cuidado com ela com isso — explica.
O neto Rafael Berté Calloni, 47, enche os olhos de lágrimas e embarga a voz antes de falar.
— A vó é muito fora da curva. Extremamente lúcida. Ela pegou todos os netos e fez aprender português e matemática. Eu fui um dos alunos — recorda.
— É um privilégio conviver com ela. Graças a Deus, tenho sorte de poder estar sempre por perto — resume.
















