Quando o frio chega, Silvana Maria Migliavacca, 63 anos, já sabe que precisa redobrar os cuidados. Ao monitorar a pressão arterial em casa em dias mais gelados, a moradora de Porto Alegre teve uma surpresa:
— Percebi que, no inverno, nos dias frios, a minha pressão sobe — conta a aposentada.
A experiência de Silvana ilustra um fenômeno já observado pela ciência: o frio e as mudanças bruscas de temperatura – algo frequente no Rio Grande do Sul – aumentam o risco de infarto e outras complicações cardiovasculares, especialmente entre idosos.
— A mortalidade aumenta quando esfria mesmo em regiões do mundo que não são extremamente frias. O frio funciona como um gatilho — resume o cardiologista Paulo Behr, coordenador do Centro de Dislipidemia da Santa Casa de Porto Alegre e presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade de Cardiologia do Rio Grande do Sul.
A relação entre inverno e problemas cardíacos já foi identificada em diferentes países e também no Brasil.
Você vai ler nesta reportagem
- Por que o frio aumenta o risco de infarto?
- Impacto da temperatura em mortes por infarto
- Por que os idosos são mais sensíveis?
- Qual a explicação para a vasoconstrição
- Risco silencioso
- Quais são os agravantes
- Como prevenir
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que analisou mais de 5,6 mil mortes por infarto na Grande São Paulo, mostrou que a mortalidade cardiovascular aumenta em 30% no inverno. Entre idosos acima de 75 anos, o crescimento chegou a 44%.
Os pesquisadores destacam que o frio pode desencadear eventos cardiovasculares em pessoas que já têm predisposição muitas vezes sem saber.
— Isso geralmente pega aquelas pessoas que já têm aterosclerose, que já têm placa nas artérias estabelecida e que muitas vezes não sabem disso — afirma Behr.
Impacto da temperatura em mortes por infarto
Outra pesquisa mais ampla, publicada em 2019 na revista Scientific Reports, do grupo Nature, analisou dados de seis microrregiões brasileiras entre 1996 e 2013 para entender o impacto da temperatura ambiente na mortalidade por infarto agudo do miocárdio. Uma delas é a região metropolitana de Porto Alegre.
Nesse período, foram registrados 33.797 óbitos por infarto na área que engloba a capital gaúcha. No frio extremo (abaixo de 9,4°C), o risco de morte é 1,78 vezes maior em relação à temperatura ideal; no frio moderado (12,5°C), 1,48 vezes maior.
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A estimativa, na pesquisa, é de que o frio tenha sido responsável por 302 mortes em cada um dos anos estudados em Porto Alegre (somando os efeitos do frio extremo, moderado e leve).
Na Grande São Paulo – que tinha uma população quatro vezes maior –, 661 óbitos foram atribuídos ao esfriamento da temperatura, enquanto na região metropolitana do Rio de Janeiro, 479.
De acordo com o estudo, as mortes não ocorrem apenas no dia exato do frio intenso – o risco de infarto permanece elevado por até 14 dias após a exposição às baixas temperaturas.
Pior em idosos e no inverno gaúcho
O envelhecimento torna o organismo menos eficiente para lidar com mudanças de temperatura. Idosos costumam apresentar artérias mais rígidas, além de maior incidência de hipertensão, colesterol alto e insuficiência cardíaca.
As pessoas que têm mais fatores de risco, como hipertensão, colesterol elevado e insuficiência cardíaca, são mais suscetíveis a ter esse tipo de evento no período de frio
BERENICE MARIA WERLE
Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia
Segundo Behr, as artérias dos idosos tendem a ser menos "complacentes", ou seja, têm menor capacidade de se adaptar às mudanças climáticas.

Embora o frio intenso seja um fator de risco, especialistas destacam que a oscilação brusca de temperatura é especialmente problemática – algo frequente no Rio Grande do Sul.
— O nosso inverno é muito irregular. Tem dias mais frios, dias menos frios. O que atrapalha é justamente essa variabilidade — explica Berenice.
Aqui a gente tem uma variação climática enorme. Às vezes, de manhã é verão e de tarde é inverno
PAULO BEHR
Presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade de Cardiologia do Rio Grande do Sul
Para os especialistas, o organismo consegue se adaptar melhor quando o frio é contínuo. Já mudanças repentinas exigem respostas rápidas do sistema cardiovascular – algo mais difícil para idosos e pacientes cardíacos.
O que acontece
A principal explicação está na reação natural do organismo às baixas temperaturas. Quando esfria, os vasos sanguíneos se contraem para preservar calor – processo chamado de vasoconstrição.
— As artérias se fecham mais, ficam mais contraídas, e isso faz aumentar a pressão arterial e, consequentemente, gera uma sobrecarga no coração — explica o cardiologista Paulo Behr.
A médica geriatra Berenice Maria Werle, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, afirma que esse mecanismo reduz a oxigenação do músculo cardíaco em pessoas mais vulneráveis.
— Se isso acontece e a pessoa já tem uma circulação mais frágil, por aterosclerose (acúmulo de placas de gordura e cálcio dentro da parede das artérias) ou outros eventos isquêmicos, aumenta a chance de haver uma oxigenação insuficiente e fazer uma angina ou um pequeno infarto — diz.
Além da pressão alta, o frio pode aumentar a viscosidade do sangue e favorecer a formação de coágulos. O estudo da USP aponta que baixas temperaturas estão associadas ao aumento da resistência vascular, da frequência cardíaca e da coagulação sanguínea.
A American Heart Association, entidade norte-americana que realiza pesquisas sobre questões ligadas à saúde cardiovascular, também alerta que o frio pode elevar a pressão arterial e aumentar o esforço cardíaco, principalmente em pessoas com doenças prévias no coração.
Risco silencioso
Um dos principais problemas, segundo os especialistas, é que hipertensão muitas vezes não apresenta sintomas.
— A maioria das pessoas que têm pressão alta não têm sintoma algum — afirma Behr.
Berenice reforça:
— Esperar dor de cabeça não é uma boa medida. Às vezes, a pressão já está alta há muito tempo e a pessoa não sabe — diz.
Por isso, ambos recomendam medir a pressão com regularidade durante períodos de frio e mudanças bruscas de temperatura.

É o que faz a aposentada Silvana. Com histórico familiar de doenças cardíacas e acúmulo de cálcio nas artérias coronárias identificado em exames, ela passou a controlar a pressão com regularidade e adotou uma rotina preventiva.
Nos meses frios, usa medicação sob orientação médica. Já no verão, quando as temperaturas sobem, consegue suspender o remédio, porque a pressão tende a baixar naturalmente.
— Quando começam os dias mais fresquinhos do outono, eu já começo com a medicação, sempre sob orientação do cardiologista — descreve.
Agravantes
Outro fator importante é o aumento de doenças respiratórias no inverno. Gripe, covid-19 e vírus sincicial respiratório provocam inflamação no organismo, o que também pode favorecer eventos cardiovasculares.
— Hoje está muito claro que essa inflamação predispõe ao infarto — afirma Behr.
O estudo da USP também aponta que infecções respiratórias de inverno podem aumentar substâncias relacionadas à coagulação sanguínea e à trombose.
Prevenção
As orientações para prevenir situações mais graves incluem evitar exposição prolongada ao frio, usar roupas adequadas e manter acompanhamento médico em dia.
— A recomendação que eu sempre dou é: sinta calor, mas não sinta frio — adverte Behr.
Berenice também alerta para cuidados com medicamentos usados em gripes e resfriados. Segundo a geriatra, antigripais com vasoconstritores podem elevar o risco cardiovascular em idosos.
Os médicos ainda recomendam:
- Manter controle da pressão arterial e colesterol
- Evitar excesso de sal
- Manter vacinação em dia
- Evitar exposição prolongada ao frio
- Praticar atividade física com proteção adequada
- Procurar atendimento diante de sintomas como dor no peito, falta de ar ou mal-estar súbito.











