A aventura da aposentada Marlene Terezinha de Carvalho Leite, que percorreu cerca de 634 quilômetros do Caminho de Santiago de Compostela, pode ser interpretada como um feito e tanto.
Durante 17 dias, a moradora de Imbé, no Litoral Norte, enfrentou cansaço, perdeu-se e até passou fome para concluir o percurso com saída de Lisboa, em Portugal, até a cidade da Espanha.
Aos 83 anos, a peregrina realizou a façanha sozinha e sem experiência anterior em caminhadas longas.
Foi a maior experiência da minha vida
MARLENE TEREZINHA DE CARVALHO LEITE
83 anos
60Mais
Natural de Guaíba, na Região Metropolitana, dona Marlene nunca havia ouvido falar no tradicional caminho, que ganhou notoriedade entre os brasileiros após a publicação do livro O Diário de um Mago (1987), de Paulo Coelho.
Entretanto, há mais de mil anos peregrinos percorrem os diferentes trajetos que existem até a catedral de Santiago de Compostela. Neste local, a crença é de que estejam enterrados os restos mortais de São Tiago, um dos apóstolos de Cristo.
Há cerca de oito anos, em uma visita a Portugal, a ex-professora conheceu duas jovens de Manaus, no Amazonas, que haviam trilhado o Caminho de Santiago de Compostela. Elas dividiram a experiência com Marlene, que nunca esqueceu da conversa. Ali, em um encontro ao acaso, decidiu que um dia percorreria o trajeto.
Em 2025, vendeu um apartamento, separou parte do valor para as despesas e programou a viagem para março deste ano.
— Aquelas gurias me despertaram o interesse. Naquela época, eu comprei a concha (trata-se da vieira, o principal símbolo do Caminho de Santiago). Deixei no meu quarto para me lembrar que eu tinha esse compromisso — afirma a peregrina, que é divorciada e tem três filhos.
Preparação em academia
Há 15 anos, a aposentada vive sozinha em Imbé. No município, ela integra a academia do Sesc. Durante dois meses, submeteu-se a treinos de segunda a sexta-feira. Na preparação, adquiriu ritmo e alongamento. Na esteira, percorria o equivalente a seis quilômetros por hora.
Não senti absolutamente nada. Nem no pé, nem no joelho, nem na lombar. A cervical eu senti por causa da mochila
MARLENE TEREZINHA DE CARVALHO LEITE
Começo da aventura
Em março deste ano, Marlene embarcou em voo direto de Porto Alegre em direção a Portugal. No país lusitano, colocou a mochila nas costas.
Sua jornada a pé partiu de Lisboa. Apenas o trecho de Santarém até a cidade do Porto (cerca de 250 km) precisou ser feito de trem. O motivo foi que a peregrina sentiu muito cansaço em função da mochila, que pesava cerca de 5 kg. Em outro momento, teve de recorrer a uma corrida por aplicativo.
Hipertensa, mas sem qualquer limitação física, Marlene percorria entre 15 e 25 quilômetros por dia. Além do esforço físico com a mochila pesada, sofreu dois dias com problemas estomacais sem ter alguém para ajudá-la.
Três coisas são fundamentais no caminho: os pés, a mochila e a alimentação
MARLENE TEREZINHA DE CARVALHO LEITE

Para evitar as temíveis bolhas, passava diariamente vaselina e uma solução em pó nos pés. Marlene afirma que não precisou se apoiar no cajado que levou na bagagem. E não escorregou nem caiu durante sua caminhada.
O que revezava na mochila
- 1 tênis
- 1 sandália com sola de tênis
- 1 cajado de alumínio
- 1 blusa peluciada
- 1 capa de chuva peluciada
- 1 toalha de banho
- 1 lençol
- 1 fronha
- 1 chapéu
- 1 nécessaire
- 3 calças legging
- 3 camisetas
- 3 calcinhas
- 3 tops
- 3 pares de meia
Noites em albergues, perrengues durante o dia
As noites de sono eram passadas em albergues municipais ou particulares. Nesses locais de uso coletivo e sem café da manhã à disposição, o despertar acontecia em torno de 6h.
Marlene acordava, usava o banheiro, ajeitava-se e voltava para a rua. O desjejum acontecia em algum ponto do trajeto, mas houve momentos em que ela ficou sem comer.
— Isso foi grave também. Às vezes, eu achava que ia encontrar (algum restaurante) pelo caminho. Mas passava um turno sem comer nada — recorda.
Certa vez, parou em um estabelecimento gastronômico. O proprietário decidiu preparar um frango para a peregrina, porque acreditava que a caminhante estava com falta de proteína.
— Não tem bom almoço, porque a gente caminha o dia inteiro. Só se chegar em algum lugar — observa, citando que tentava sempre ter algumas frutas consigo.
Na única ocasião em que choveu, a caminhante ficou encharcada. Chegou ao Mosteiro de São Salvador de Vairão, onde foi acolhida pelas voluntárias. Quando a conduziram até o terceiro piso da edificação, narra o que se sucedeu:
— Tinha quatro pias no chão, com bolitas e um saco de sal do lado. Coloquei o sal, liguei a torneira e coloquei água. Os meus pés ficaram ali por 15 minutos, porque era muito frio e não tinha o que fazer.
Em outra oportunidade, chegou a uma cidade onde não havia mais vagas nos quatro albergues existentes. Eram 17h e já começava a anoitecer.

Marlene foi ajudada pela prefeitura do bairro onde se encontrava. Conseguiu uma reserva em um albergue no município vizinho. Mas teve de fazer esse percurso via aplicativo para não perder a vaga.
Ela diz que teve auxílio ocasional de três jovens (um italiano, um espanhol e um argentino) que trilhavam o mesmo caminho. Em determinados momentos, se cruzavam em alguma localidade.
Nesses encontros, sempre um deles queria saber como Marlene estava. A solidariedade de outros peregrinos foi algo que a marcou profundamente.
— Aquilo me dava força. Eu acho que não teria chegado se esses guris não tivessem se aproximado de mim — reflete.

Quanto custa percorrer o Caminho?
Como lembrança da caminhada, Marlene guarda a vieira, fotos, mapas e os endereços dos albergues por onde passou, além da Compostela cheia de carimbos.
Trata-se do certificado oficial concedido pela Catedral de Santiago de Compostela aos peregrinos que tenham completado uma das rotas históricas.
A média de gastos diários girou em torno de R$ 300 apenas com os albergues, fora os custos para comer na rua.

Marlene estima que a experiência tenha custado entre R$ 25 mil a R$ 30 mil, somando as passagens aéreas. Ela viajou com seguro de viagem.
Durante o percurso, chegou a se perder em três ocasiões. Nessas horas, precisou retornar parte do trecho até se localizar novamente. Mas nunca teve medo ou hesitou.
— Minha qualidade: eu não desisto jamais — conclui.

















