Estima-se que quase metade dos casos de demência no mundo poderiam ser evitados ou adiados ao controlar uma série de fatores de risco ao longo da vida, conforme relatório de 2024 da The Lancet, uma das publicações científicas mais renomadas do mundo.

Segundo o documento, 45% dos casos poderiam ser prevenidos por meio de mudanças no estilo de vida, da infância à terceira idade.
O assunto foi abordado nesta semana em Porto Alegre em oficina da Brain Week, que trouxe neurocientistas de diferentes países para levar dicas e reflexões à população. Um dos destaques foi a atividade “Guia Prático para o Envelhecimento Saudável e Manutenção da Memória”. Na ocasião, especialistas explicaram o que pode ser feito para prevenir doenças neurodegenerativas e como manter o cérebro funcionando a pleno depois dos 60 anos.
Promovido pelo Instituto Moriguchi e o Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento, o debate contou com a participação da neuropsicóloga Joana Senger, do médico geriatra João Senger, professor do curso de Medicina da Universidade Feevale, do neurologista do Hospital Moinhos de Vento Wyllians Borelli, e do geriatra Vitor Pelegrim, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

De acordo com o relatório da Lancet, os 14 fatores de risco para demência são:
- Baixa escolaridade
- Colesterol alto
- Consumo excessivo de álcool
- Depressão
- Diabetes
- Isolamento social
- Obesidade
- Perda auditiva não tratada
- Poluição do ar
- Pressão alta
- Problemas de visão não corrigidos
- Sedentarismo
- Tabagismo
- Traumatismos cranianos
— Tivemos um crescimento expressivo no número de pessoas que atingem mais de 85 anos. Esse é um grande desafio da medicina, porque nós conseguimos aumentar a expectativa de vida, mas ainda não conseguimos melhorar a qualidade de vida nesses anos que as pessoas estão ganhando — destaca João Senger.
Veja, abaixo, como cada um desses fatores influencia no desenvolvimento de doenças neurodegenerativas e como cuidar da saúde do cérebro ao longo da vida.
Problemas cardiometabólicos
Quatro dos fatores de risco são os chamados cardiometabólicos, relacionados à saúde e ao metabolismo – colesterol alto, pressão alta, obesidade e diabetes. Quanto ao nível de gordura no sangue, o que deve ligar o sinal de alerta é o índice de LDL – também conhecido como "colesterol ruim".
— Vários estudos têm mostrado que o colesterol elevado está associado a um maior risco de desenvolvimento de demências. Pacientes que têm dislipidemias (alterações na gordura do sangue), como colesterol alto e triglicerídeos elevados, têm risco maior de ter um declínio cognitivo ao longo da vida — explica Pelegrim.

Um dos trabalhos que evidencia isso é o Framingham Heart Study, estudo de coorte (que acompanha um grupo de X pessoas) a longo prazo sobre o sistema cardiovascular. O estudo apontou que perfis lipídicos com triglicerídeos elevados e colesterol alto estavam ligados à incidência de Alzheimer nos pacientes avaliados, décadas depois.
O mesmo vale para diabetes. É preciso ter cuidado, especialmente com o tipo 2, que é adquirido com o passar do tempo. A doença também está associada à perda cognitiva, conforme indicam diferentes pesquisas. Por isso, estar atento aos níveis de glicose no sangue, à pressão arterial, e fazer consultas médicas regulares é fundamental.
Estilo de vida
Os fatores cardiometabólicos se combinam a outros três aspectos relacionados a estilo de vida. Sedentarismo, tabagismo e consumo de álcool em excesso são hábitos que precisam mudar para evitar doenças neurodegenerativas, especialmente na fase adulta, entre os 20 e 60 anos.
Os casos de demência estão diretamente relacionados à idade, mas isso não impede que hábitos preventivos sejam adotados ao longo da vida, destaca Pelegrim. Segundo o especialista, isso é primordial, sobretudo com o envelhecimento da população.
— Quanto mais velho a gente fica, maior a chance de a gente desenvolver algum déficit cognitivo. Isso é muito baixo na idade adulta, mas à medida que a gente vai envelhecendo, a prevalência de demência pode subir para até 40% — ressalta o médico.
Se a gente não tiver medidas que possam mitigar esses riscos, provavelmente vamos ter um problema de saúde pública muito grave para enfrentar nos próximos anos.
VITOR PELEGRIM
Geriatra do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Amplamente conhecidos, os efeitos da nicotina no cérebro levam à dependência, o que gera uma série de consequências para a cognição. A substância presente no cigarro afeta o córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pela tomada de decisões, pela atenção e o controle de impulsos. E também o hipocampo, que é uma área-chave no que se refere à memória.
— O hipocampo é a primeira área cerebral que começa a atrofiar no paciente com Alzheimer, e também a amígdala cerebral, relacionada à questão de emoções e ansiedade. A longo prazo, tudo isso vai levar o paciente a um déficit de memória e de atenção, e ao envelhecimento cerebral precoce, além de um maior risco de acidente vascular cerebral — diz Senger.
Melhora da circulação cerebral, mais qualidade de vida e aumento da expectativa de vida estão entre os benefícios de parar de fumar. Já o álcool possui efeito depressor do sistema nervoso, o que também compromete a cognição, caso seja consumido em excesso com frequência.
As bebidas alcoólicas potencializam a ação do principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central, o ácido gama-aminobutírico (GABA). Quando a pessoa consome álcool em excesso, o cérebro se acostuma com essa forte inibição, gerando uma redução no número de receptores GABA. Isso acaba trazendo prejuízos à memória, atenção e coordenação motora.
Os especialistas recomendam as seguintes orientações:
- Evitar álcool em excesso
- Praticar atividade física regular (ao menos 150 minutos por semana)
- Procurar hábitos de vida saudáveis
- Manter uma alimentação saudável
- Não fumar
Questões psicossociais
Aspectos sociais e psicológicos também podem comprometer a memória. A baixa escolaridade, embora seja comum em um país desigual como o Brasil, traz impactos negativos na cognição a longo prazo. Conforme Wyllians Borelli, isso se deve à necessidade de termos uma reserva cognitiva. Quanto menos tempo passamos estudando, menos repertório temos “guardado”.

— Ao longo da vida, a gente vai estudando, a gente vai fazendo trabalhos que exigem muito da nossa cognição, que exigem gerenciamento de pessoas ou de tarefas complexas, e isso vai somando para a nossa “poupança” — explica Borelli.
Quanto mais anos de escolaridade, maior a nossa poupança cerebral.
WYLLIANS BORELLI
Neurologista do Hospital Moinhos de Vento
Com o passar do tempo, naturalmente, podem começar a aparecer doenças neurodegenerativas. Nesse momento, o indivíduo começa a usar essa “poupança” sem nem saber. Quanto mais a reserva, mais protegido o paciente está, ou seja – mais tarde os problemas cognitivos irão aparecer.
Assim como a falta de estudo, a depressão e, consequentemente, o isolamento social também estão ligados à aceleração do declínio cognitivo. Isso porque a falta de interação social reduz áreas cerebrais essenciais, afetando a memória, o raciocínio e a atenção.
Especialmente na velhice, com a ausência de uma rotina de trabalho presencial e o distanciamento de familiares, muitas vezes, a pessoa idosa acaba se isolando. Com isso, é aumentado o risco de demência a longo prazo.
— É preciso estimular o cérebro a todo momento através do convívio social, através da leitura, de participação em atividades culturais, ir ao cinema... Isso é conta pra gente preservar a cognição e evitar, ou pelo menos retardar ao máximo, qualquer tipo de perda neurológica ou cognitiva — orienta Pelegrim.
Tudo que possa alimentar o cérebro e a alma é importante para a gente preservar a cognição.
VITOR PELEGRIM
Geriatra do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Fatores clínicos e ambientais
Estudos revelam, ainda, que a perda auditiva e problemas de visão podem acelerar o declínio cognitivo e aumentar o risco de demência, uma vez que o cérebro recebe menos estímulos. Isso acaba sobrecarregando áreas de processamento e causando problemas na cognição, prejudicando a memória.
Pacientes traumatismo craniano também podem apresentar sequelas cognitivas. Por isso, é fundamental a avaliação médica nesses casos. Por fim, a exposição crônica à poluição do ar também pode causar danos ao desempenho cognitivo.




