O número de eleitores idosos cresceu 84,6% no Rio Grande do Sul nas últimas oito eleições, entre municipais e gerais. Em 2008, o grupo era formado por 1,3 milhão de pessoas, o que representava 17% dos aptos a votar no Estado. Subiu para 2,4 milhões em 2024 (27,7%) e atingiu o maior patamar percentual entre as unidades da federação, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisados por Zero Hora.
Uma pesquisa da Nexus, também com base nas informações do TSE, estima que o público com 60 anos ou mais deva representar 29,3% dos eleitores gaúchos nas Eleições 2026.
Por outro lado, a quantidade de jovens, com idades entre 18 e 24 anos, foi de 1,1 milhão para 828,8 mil pessoas no período no Estado, queda de 24,7% (veja os detalhes no infográfico abaixo).
— As campanhas vão ter que prestar atenção no eleitorado 60+, que é experiente e já votou em todas as eleições desde a redemocratização. Devem entender o envelhecimento e traduzir isso em políticas endereçadas a esse público se quiserem conquistar o voto. Em um cenário de polarização, conquistar esse eleitor é mais do que estratégico — pontua Marcelo Tokarski, CEO da Nexus.
O cenário é parecido quando considerado o país inteiro, segundo a Nexus. Enquanto o número de eleitores de todas as faixas etárias cresceu 15% entre 2010 e 2026, a parcela acima dos 60 anos aumentou 74% no período, o que revela expansão de 20,8 milhões em 2010 para 36,2 milhões em março deste ano.
Na avaliação de Tokarski, temas como aposentadoria, saúde e previdência social tendem a ficar mais relevantes no debate político por conta do envelhecimento da população.
Maior comparecimento às urnas
Os idosos também têm participado mais dos pleitos. Conforme o mesmo estudo, a abstenção do grupo diminuiu nas últimas eleições presidenciais – de 37,1% em 2014 para 34,5% em 2022. No mesmo período, as abstenções do eleitorado brasileiro em geral aumentaram de 19,4% para 20,9%.
— Fico triste quando vejo que muita gente não vai votar. É uma chance que temos de dar nossa opinião. Vou porque tenho família e acho o voto algo necessário, uma obrigação que temos — avalia Arytha Elvira Larrossa Kutcher, 93 anos, moradora de São Leopoldo, no Vale do Sinos.
Vou votar até quando conseguir caminhar. Se precisar, vou de bengala!
ARYTHA ELVIRA LARROSSA KUTCHER
93 anos
60Mais
O RS lidera os índices de comparecimento às urnas no país entre 60 e 69 anos, faixa na qual o voto ainda é obrigatório (89,5%).
— A população do Rio Grande do Sul tem um nível de escolaridade maior do que a média nacional e a escolaridade vem com o maior entendimento da política. O Estado também tem uma tradição política forte. Esses fatores colaboram para esse engajamento maior — acrescenta o CEO da Nexus.
E eles querem participar
Morador de Canoas, na Região Metropolitana, Antônio Ribeiro, 75, diz não ter faltado a nenhuma eleição desde quando votou pela primeira vez, aos 18 anos. Em conversas com pessoas da mesma faixa etária, porém, ele diz observar pouco engajamento com o pleito deste ano.
— O problema é a descrença com o voto, é um pessoal que está mais acomodado. Acho necessário se posicionar para tentar melhorar alguma coisa. Ainda me acho em condições de dar a minha participação à sociedade. Minha preocupação é corriqueira, de todo brasileiro, com sistema financeiro, político e o judicial. Não me preocupo com nada em particular, e sim com o que pode acontecer com o país — comentou.
Janete Timm, 66, disse ter deixado de votar apenas uma vez, quando estava fora da zona eleitoral e precisou justificar a ausência. Moradora de São Leopoldo, a aposentada é do grupo que vê na participação um compromisso público.
— Não adianta deixar de votar porque os candidatos não são os que você quer, que (os políticos) não estão dando a resposta que precisamos. Temos voz para reivindicar nossos direitos. Me motiva saber que contribuo nas decisões — conclui a aposentada.
Mas ainda há obstáculos
Karen Garcia de Farias, especialista em longevidade e diversidade, afirma que a participação de pessoas 60+ na política é cercada por empecilhos históricos que precisam ser mudados.
— Vemos que essa população não se reconhece como idosa e acaba não agindo como um grupo para exigir ações do Judiciário, Legislativo e Executivo. Observamos que os políticos têm uma visão idadista, reducionista e vitimista dos idosos, não enxergam todas as potencialidades do grupo para o futuro do Brasil — afirma a diretora da KGF Consultoria.
A especialista avalia que o maior engajamento dos idosos no RS, na comparação com o público geral, está ligado à experiência adquirida durante a vida e o entendimento do processo político nacional.
— Eles conseguem ter uma linha do tempo do Brasil e do exercício da cidadania, enxergam com mais clareza e entendem que conseguem fazer a diferença por meio do voto. Também buscam deixar uma marca para as gerações futuras — comenta.
Patrícia Krieger Grossi, especialista em gerontologia social e professora da PUCRS, afirma que a participação dos idosos na vida política do país tem benefícios individuais.
— Votar é uma forma de engajamento cívico, que rompe com o isolamento. Quando eles começam a interagir, participar e demandar pautas políticas, estão exercendo o direito de cidadania, de participação social e vão se sentir valorizados por saber que o voto deles conta — diz Patrícia.
Na avaliação da especialista, o estímulo à participação do idoso precisa ser ampliado no país. Ela defende campanhas públicas similares às de vacinação, nas quais é reforçada a importância da participação dos 60+.
— Idosos formam um grupo heterogêneo, porque o envelhecimento é vivenciado de forma diferente por cada indivíduo. Há questões de classe social, gênero, raça e território. Há aquele idoso saudável que pode ir votar sozinho, mas há outros que dependem da família. Somado a isso, muitos não conhecem os próprios direitos. São desafios para uma mobilização que precisa ser apoiada pela sociedade — acrescenta.













