
Disfunção erétil, climatério, doenças crônicas, alterações na libido, uso contínuo de medicamentos, tabus e questões ligadas à autoestima estão entre os fatores que passam a influenciar a vida sexual após os 60 anos. Diante dessas mudanças, o desejo e a intimidade não desaparecem, mas se transformam. Para mulheres que atravessam essa fase, a reconfiguração está longe de ser negativa.
— Quando era mais nova, pensava que os velhos não tinham relação sexual e me surpreendi. Estou com 70 anos, quase 71, e tenho uma vida sexual ativa, bem diferente do que eu achava que seria. O sexo na terceira idade existe, é bom e é muito importante. A gente se sente melhor, mais vivo — afirma a aposentada Nara Beatriz Martins, casada há 25 anos.
Para alguns, a vida sexual se mantém satisfatória ao longo de toda a vida, enquanto, para outros, é justamente com o amadurecimento e o avanço da idade que ela ganha qualidade e novas possibilidades. Esse é o caso da secretária administrativa Maria Gorete Daitx, 60 anos, que relata ter encontrado mais liberdade e satisfação na intimidade após envelhecer:
— Antes, era só papai e mamãe, tinha muitos tabus. Tomar banho junto, por exemplo, era um horror. Depois fui tendo mais confiança em mim mesma. Eu fui aprender mesmo o que que era o sexo depois dos meus 46, 47 anos. Acho que a caminhada vai ensinando e essa jornada vai ficando mais leve, a gente vai se sentindo mais confortável para aproveitar.
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O que muda após os 60 anos no corpo?
O avanço da idade traz mudanças naturais no corpo, como alterações hormonais, rigidez articular, redução da lubrificação, perda de massa muscular, maior dificuldade de ereção e variações no nível de energia, que podem impactar a vida sexual. Condições de saúde e o uso de medicamentos também passam a ter mais influência nesse processo.
A geriatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Berenice Werle, explica que, algumas condições, como doenças cardiovasculares e diabetes, por exemplo, afetam diretamente sistemas essenciais para a resposta sexual, como a circulação sanguínea e o equilíbrio hormonal. Isso pode impactar a ereção masculina, a lubrificação feminina e a sensibilidade.
— Além disso, várias medicações que as pessoas usam, para tratar esses e outros problemas de saúde, vão impactar negativamente a libido, a capacidade de ereção dos homens e a capacidade das mulheres de chegar ao orgasmo. É importante que, se isso está sendo um problema, a pessoa converse com o médico para tentar alterar a medicação e encontrar uma alternativa que interfira menos na vida sexual — afirma a especialista.
Disfunção erétil e menopausa
A disfunção erétil não é uma consequência inevitável do envelhecimento, apesar de ainda ser percebida assim por muitos homens. Parte deles mantém ereções satisfatórias mesmo após os 60 anos. A sexóloga Tatiana Brzostek pontua que o ângulo da ereção pode se alterar com o tempo, passando de cerca de 90° para 60º ou 30º, o que não impede a relação sexual.
— O pênis não fica mais tão ereto como ficava quando eles eram mais jovens. Os homens não costumam saber disso e já pensam que pode ser um problema. Eles chegam no consultório assustados, achando que são impotentes porque estão com uma ereção ou rigidez diferente. Mas é só o envelhecimento, não significa, necessariamente, que é um problema — complementa Tatiana.
Para as mulheres, a menopausa costuma concentrar parte das preocupações. Nesse período, há uma queda na produção de hormônios como estrogênio e progesterona, o que pode levar à diminuição da lubrificação vaginal e ao desconforto ou dor durante a relação. Esses fatores podem influenciar o desejo, seja de forma direta, pelas alterações hormonais, seja de maneira indireta, quando a experiência se torna menos prazerosa.
— Essas queixas de queda na lubrificação, no desejo, na capacidade de atingir orgasmo e de mais dor na relação, acontecem com frequência e podem ser melhoradas com o tratamento. Hoje em dia, temos muito mais informações sobre o papel e a segurança de utilizar reposições hormonais — pontua a geriatra.
Além do corpo, o que muda na forma de viver a sexualidade após os 60?
Para as especialistas, as transformações mais significativas dessa fase são de natureza subjetiva. As mudanças na saúde e no corpo podem impactar a autoestima de idosos, que, por vezes, enfrentam dificuldades para expressar sua sexualidade, lidando com inseguranças relacionadas à aparência e ao desempenho na cama.
— O corpo fica mais flácido, eles podem ganhar mais peso, rugas, outras dificuldades. Eles podem entrar em um luto por esse corpo que não é mais jovem. Ambos sofrem com isso, mas as mulheres acabam sofrendo mais pressão estética e isso faz diferença em como ela se sente desejável ou não — defende a sexóloga.

Tatiana acredita que a mulher que aceita o corpo envelhecido é quem mais vai encontrar prazer na terceira idade. Para Nara Beatriz, a autoestima nunca tomou conta do pensamento. Ela relata que o marido, na mesma faixa etária, sempre deixa claro o quanto a deseja.
— Em algum momento senti isso, senti falta de desejo. Mas depois passou. Meu parceiro sempre me estimula, se eu coloco uma roupa diferente, ele me elogia. E isso deixa minha libido lá em cima. Arrumar um parceiro que ajuda a gente a se amar mais e mais é muito importante — afirma a aposentada de 70 anos.
Mais liberdade para experimentar
A sexóloga pontua que, com os filhos já independentes, sem medo de gravidez, as contas sob controle, a aposentadoria e a bagagem de experiências acumuladas, muitas das limitações que podem tornar a vida sexual menos prazerosa na juventude deixam de existir.
Nesse contexto, os idosos passam a ter mais liberdade e autoconhecimento para investir na própria sexualidade, sejam casados, viúvos ou separados. Para alguns, é a oportunidade de buscar uma satisfação que ficou em segundo plano ao longo dos anos ou de explorar novos desejos; para outros, trata-se de aprimorar aquilo que sempre foi fonte de prazer.
— Quanto mais a gente envelhece, melhor o sexo vai ficando. Porque a gente sabe o que quer. A gente sabe o que pode fazer, o que quer testar, o que não acha legal. A gente consegue conversar sobre isso — comenta Maria Gorete, que está solteira desde o ano passado.
Ela conta que, nessa fase, passou a se sentir mais livre para experimentar desejos que antes mantinha reprimidos. Entre descobertas simples, como tomar banho junto com um parceiro, e a curiosidade por explorar novos fetiches, a secretária sente mais abertura para explorar a vida sexual.
Esse movimento individual reflete uma tendência mais ampla: um levantamento do Sexlog, rede social adulta da América Latina, aponta que 74,5% dos usuários entre 55 e 64 anos já exploraram fantasias sexuais, índice que se mantém alto, com 71,6%, entre aqueles com 65 anos ou mais.
— Eles não têm que provar ou explicar nada para ninguém. Os homens e mulheres dessa idade se sentem mais soltos de muitas coisas que a sociedade espera que acabam nos prendendo ao longo da vida — conclui a sexóloga Tatiana.
Cuidados
Muitos idosos acreditam que, sem chance de gravidez, os preservativos não são mais necessários. Contudo, as especialistas reforçam que o número crescente de casos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) evidencia que usar camisinha segue sendo essencial para uma vida sexual mais saudável e segura.














